Greek · Filosofia Ocidental

Autarkeia

αὐτάρκεια (autarkeia)

A autarquia epicurista não é a autossuficiência orgulhosa de quem dispensa os outros, mas a arte de precisar de pouco — pouco o bastante para que a fortuna já não tenha poder. Conquista-se pela triagem dos desejos: ao distinguir as necessidades que a natureza limita por si mesma dos desejos vazios que não têm fundo, o sábio reduz o limiar do suficiente até torná-lo sempre alcançável. Não uma privação sofrida, mas uma independência conquistada.

La nature, pour sa subsistance, n'exige que des choses très faciles à trouver ; celles qui sont rares et extraordinaires lui sont inutiles, et ne peuvent servir qu'à la vanité ou à l'excès.
Épicure, Lettre à Ménécée, § 130. Lefèvre, 1840 · trans. Jacques Georges de Chauffepié · source

A palavra compõe-se de autos, si mesmo, e do verbo arkeîn, bastar, ser suficiente: autarkeia, o fato de bastar-se a si mesmo. Chauffepié, em sua tradução da Carta a Mênécio, verte-a por «frugalidade» — o que diz da prática, mas não da mola. A mola não é a carência, é a liberdade: quem só precisa de água e pão já não depende do que a fortuna dá ou tira.

A autarquia é o meio, não o fim. Ela limita o desejo para que a alma deixe de ser perturbada — está a serviço da ataraxia, a ausência de perturbação. É por aí que se deve distingui-la: autarkeia nomeia aquilo de que se precisa (pouco), ataraxia o estado que se segue (a tranquilidade). Pode-se almejar o suficiente e permanecer agitado por uma opinião falsa; a autossuficiência não basta, ainda é preciso que o juízo acompanhe.

Diferente também do «saber bastar-se» taoísta (zhī zú, 知足). Ambos recusam que a riqueza seja uma quantidade, mas por gestos opostos: Epicuro calcula — pesa cada desejo, estabelece um limite, faz dele um hábito razoado; Lao-Tsé larga — não impõe limite algum, retira o próprio movimento de adquirir (ver wu-wei). Um regula o apetite pela inteligência do justo peso, o outro cessa de correr. Autarquia ≠ não-agir: bastar-se pelo cálculo não é bastar-se pelo abandono da busca.

Diferente ainda do bastar-se estoico. Em Sêneca, «o sábio basta-se a si mesmo» não significa que reduziu suas necessidades, mas que sua virtude é, por si só, um bem completo: «encontra em si recursos suficientes» e «não considera bem nada do que os homens podem arrebatar». Boécio prolonga esse fio: a suficiência não é o pouco, é o todo — o sumo bem do qual as riquezas, as honras e a glória não passam de fragmentos dispersos (ver beatitude). Epicuro limita o desejo para não precisar de nada raro; o estoico e Boécio deslocam o bem para dentro, onde nada externo tem alcance. O primeiro torna o suficiente pequeno; os segundos o tornam inalienável.

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