Ataraxia
ἀταραξία (ataraxia)
A ataraxia não é uma calma que se instala, mas um tormento que se retira. Para o estoico, a alma nunca é agitada pelas coisas em si — apenas pelas opiniões que carrega sobre elas. Remove o juízo falso, e a agitação cai por si mesma: não resta nada a acalmar. A tranquilidade é, pois, o estado *por defeito* de uma razão que deixou de julgar mal, não uma conquista acrescentada à natureza.
Ce qui trouble les hommes, ce ne sont pas les choses, mais leurs opinions sur les choses.
A palavra que sustenta todo o edifício é a opinião. A ataraxia não se conquista lutando contra os acontecimentos nem domando as emoções pela força: ela surge assim que o juízo deixa de qualificar mal o que ocorre. A morte, o exílio, a perda não perturbam por si mesmos — Epicteto observa que Sócrates não os achou terríveis. É a opinião que acrescenta a perturbação, e é ela, e somente ela, que depende de nós. Retirar o juízo equivocado é retirar a agitação pela raiz.
A ataraxia estoica distingue-se claramente da ataraxia epicurista, que se alcança pela justa medida dos desejos: Epicuro elimina o transtorno limitando o desejo, o estoico corrigindo o juízo. Um regula o apetite, o outro o assentimento. A diferenciar também da apatheia, que visa à ausência de paixões — um estado da afetividade — enquanto a ataraxia designa a ausência de perturbação, um estado da percepção e do juízo. Pode-se estar sem paixão por disciplina e ainda assim inquieto por uma opinião falsa; só se está tranquilo quando a opinião é corrigida. A alavanca dessa correção tem um nome: a proairesis, a faculdade de julgar e querer, único domínio onde o homem permanece senhor.