Ānanda
आनन्द (ānanda)
No Vedanta, *ānanda* é a bem-aventurança: não um sentimento que chega ao ser, mas a própria natureza do ser. Terceiro termo de *Satchidānanda* (Existência-Consciência-Bem-aventurança), nomeia o deleite essencial que a existência tem em existir — do qual prazer, dor e indiferença não passam de traduções superficiais. Para Sri Aurobindo, essa alegria de ser é inalienável: velada pelo ego, jamais perdida, ela é a causa, o móvel e o objeto da existência cósmica.
le Brahman est l'Ananda, la secrète Béatitude de l'existence qui est l'éther de notre être, et sans laquelle nul ne pourrait respirer, ne pourrait vivre.
A raiz sânscrita nand- significa « regozijar-se »; o prefixo ā- transforma-a em plenitude. Aurobindo dedica dois capítulos de A Vida Divina à « Alegria de Ser » — o problema, depois a solução. O problema é frontal: se a natureza do ser é deleite, de onde vêm a dor e a indiferença do mundo material? A solução não nega nada do sofrimento; ela o reposiciona. Prazer, dor e neutralidade são o jogo de superfície — « espuma ou ondas » — de uma profundidade que não varia: as respostas desiguais de uma consciência contraída pelo ego aos choques da existência. O mesmo deleite, traduzido por um instrumento demasiado estreito.
Esse deleite não é uma propriedade do ser entre outras: ele é o terceiro termo de Satchidānanda — Existência (sat), Consciência-Força (chit), Beatitude (ānanda) — três nomes de uma única realidade, não três partes. A existência que se sabe se saboreia; « essa felicidade é a única causa, o único móvel e o único objeto da existência cósmica » (cap. 16). O universo não é uma máquina que produziria acessoriamente alegria: ele é o jogo que a Beatitude se dá. Daí a frase que Aurobindo retoma: « Do Ananda, diz a Upanishad, todas as existências nascem, pelo Ananda elas continuam a ser e crescem, ao Ananda retornam. » (cap. 12)
É por isso que o Brahman pode ser chamado Ananda tanto quanto Existência e Consciência: « o éter do nosso ser », o meio que respiramos sem o ver. Essa beatitude permanece, na maioria das vezes, « oculta, enterrada nas profundezas, subconsciente » — mas o apego à vida, o instinto de conservação, a vontade onipotente de ser são seus sinais invertidos: ninguém se agarraria a existir se existir não fosse, no fundo, uma alegria. O caminho aurobindiano não consiste em fabricar essa alegria, mas em revelá-la — até no corpo, onde o supramental deve fazê-la descer.
Ānanda ≠ prazer: o prazer é uma reação condicionada que tem seu contrário; o ānanda não tem contrário — a dor mesma é um modo degradado dele. E ānanda ≠ alegria spinozista: a alegria segundo Spinoza é uma passagem de uma menor a uma maior perfeição, dinâmica, relativa ao que se era. O ānanda não se atravessa: ele é aquilo em que toda passagem ocorre. A beatitudo do sábio, estado estacionário conquistado pelo conhecimento, dele se aproxima mais — mas ela se adquire, ao fim do terceiro gênero de conhecimento, enquanto o ānanda nunca está por conquistar: apenas por descobrir, pois ninguém jamais dele esteve separado.