En nuestros sueños nos vienen a curar
c'est dans nos rêves qu'ils viennent nous soigner
Fórmula do especialista quíchua do Pastaza Agustín Butuna Cariajano — em espanhol, a língua em que ele compartilha sua *cosmovisão*. Ela designa uma medicina sem intermediários: não se tem «quase nenhum feiticeiro», chama-se diretamente as «mães» das plantas-remédios, e é no sonho que o *mestre* da planta vem curar. O cuidado não é um gesto aplicado ao corpo desperto, mas uma visita obtida durante o sono, depois de ter falado com a raiz e pedido que ela sane. Curar, aqui, não é tomar um remédio: é ser visitado durante o sono pela pessoa-planta que se invocou.
Nosotros casi no tenemos brujos, nosotros mismos llamamos a las “madres” de las plantas para curarnos.
A expressão é de Agustín Butuna, especialista quíchua do Pastaza, dita em espanhol — o título em francês “c’est dans nos rêves qu’ils viennent nous soigner” não passa de uma tradução caseira, assinalada como tal. Ela descreve um cuidado que dispensa especialista: “não temos quase nenhum xamã”, diz ele, “nós mesmos chamamos as mães das plantas para nos curar”. Cada planta-remédio tem sua madre, sua pessoa-mestra; segura-se na cuia e fala-se com ela.
O pedido é dirigido à raiz como a um irmão: «Hermano sacha-ajo, quero que me cures em meu sonho, quero me sarar» — e então vem a frase que define o conceito: «Ali ele vem em nossos sonhos para curar». A cura não se alcança de olhos abertos. Reza-se à planta, dorme-se, e o mestre da planta desce no sonho para tratar o que o homem desperto não consegue tratar sozinho. O sonho aqui não é um eco do dia: é o próprio lugar onde o cuidado acontece, o limiar pelo qual a pessoa-planta entra.
O mundo quíchua do Pastaza está cheio desses mestres — o Yaku-runa guarda os peixes, o Sacha-runa a caça, cada árvore grande tem sua madre, que se avisa antes de derrubar sua casa. Curar-se é tratar o remédio como um deles: não uma substância ativa, mas alguém a quem se chama.
Essa cura-visita não é a cura do meraya, o médico shipibo de grau mais elevado que viaja ele mesmo até os espíritos: ali, um especialista atravessa o limiar pelo doente; aqui, quase não há especialista, e é o remédio que atravessa o limiar, no sonho do doente. E, ao contrário do animismo como categoria acadêmica que atribui interioridade aos seres, a fórmula de Butuna não descreve nada: ela fala com uma planta e espera que ela venha.