Awajun · awajun

Ajutap

awajún (tronc jívaro) ; Alto Marañón, Amazonie péruvienne

Entre os Awajún do rio Marañón, o *ajutap* é um ser-ancestral que dá o poder de viver. Não tem forma fixa: aparece como onça-da-terra (*ikamñawa*), águia, jiboia ou cabeça flutuante (*bukea*), sempre em meio a um vento violento, e fala "como um humano". O que ele transmite é um *discurso*, um discurso que anuncia a quem o recebe como será sua vida. Só se obtém após um longo jejum ritual — *toé*, tabaco e ayahuasca tomados perto de uma cachoeira —, pois é lá que os *ajutap* vão beber. O *ajutap* não é um deus a quem se reza nem uma alma de defunto: é uma potência ancestral que fala e faz viver muito quem sabe recebê-la.

Aparte de ellos, también existen Pagki, la boa y Wagkaanim, el tigre de agua. Ellos son muy importantes, son considerados ajutap porque antiguamente daban el poder a los seres humanos.
César Tii Ikam, El ojo verde. Cosmovisiones amazónicas, Cosmovision awajún « Toé, tabaco y ayahuasca » (voix de l'intérieur, niveau 2). FORMABIAP/AIDESEP, 3ᵉ éd. corrigée et augmentée, 2025 (1ʳᵉ éd. 2000) · trans. texte original en espagnol ; rendu français maison

O termo surge sempre que um Awajún fala do que faz viver muito tempo. Ajutap: um ser-ancestral que concede o poder. César Tii Ikam, nascido no rio Cenepa, conta que a jiboia Pagki e a onça-d’água Wagkaanim são considerados ajutap porque antigamente davam o poder aos seres humanos — são tidos como ajutap porque outrora concediam poder aos humanos. O poder não é uma força abstrata: é a capacidade de perdurar, escapar dos inimigos, encontrar caça, ter muitos filhos.

O que distingue o ajutap é não ter rosto próprio. Ele se manifesta ora como onça-da-terra (ikamñawa), águia (ukukui), bastão de fogo (payag) ou cabeça flutuando no ar (bukea). Em cada aparição, o mesmo sinal: uma rajada de vento, o estrondo de uma pedra que cai. E, a cada vez, acontece a mesma coisa — o ser fala como um humano, ele fala como uma pessoa. O que o ajutap traz não é uma imagem nem um êxtase, mas uma palavra. Esses seres, diz o narrador, proferiam um « discurso », falando como humanos, anunciando às pessoas como seria sua vida: pronunciavam um discurso, revelando às pessoas o destino de suas vidas.

Não se encontra um ajutap por acaso. A criança awajún começava cedo a « dietar »: sem açúcar, sem frutas aromáticas, sem contato com mulheres, e a cada semana as três plantas — toé, tabaco e ayahuasca. O jovem ia beber o « vegetal » longe de casa, perto de uma cachoeira, e se banhava ao amanhecer sob a queda d’água. Por que a cachoeira? Porque ali também vivem ou se aproximam para beber água os ajutap — porque é lá que os ajutap habitam ou se chegam para matar a sede. O lugar do poder é um lugar de sede compartilhada: o homem e o ancestral vão ao mesmo ponto de água.

É preciso manter o ajutap distante de duas noções próximas. Ele não é uma divindade a ser adorada: não se reza para ele, torna-se disponível à sua vinda pelo jejum, e é ele quem decide falar. E não é uma alma de morto. Os mortos habitam o nayaim, o espaço de cima, e o homem comum pode lhes pedir poder pela ayahuasca; mas o ajutap é uma potência mais antiga, ancestral, que já concedia poder « outrora » e não pertence à vida breve de ninguém. Onde o Tsungki, senhor dos seres da água, governa um domínio, o ajutap não é senhor de lugar: é a voz que, no vento, diz a um vivo o que sua vida será. E onde a alma kandozi se torna onça — sua alma é onça —, o próprio homem muda de substância; o ajutap, por sua vez, permanece o outro que vem, aquele cujo discurso confere poder sem se confundir com quem o recebe.

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