Hexis
ἕξις (hexis)
A disposição duradoura, o estado adquirido: o modo de ser estável que nos damos ao repetir os mesmos atos, e que o hábito grava no caráter. A natureza só nos oferece a possibilidade de uma virtude; a *hexis* é o que fazemos dela. A virtude moral é uma *hexis* — uma qualidade adquirida que depende da nossa vontade, e não um sentimento passageiro nem uma aptidão recebida pronta. A distinguir da aptidão puramente natural, que nenhuma repetição confere, e da *energeia*, o exercício em ato que põe essa disposição em ação.
Ainsi donc, la vertu est une habitude, une qualité qui dépend de notre volonté, consistant dans ce milieu qui est relatif à nous, et qui est réglé par la raison
A palavra grega hexis (ἕξις) vem de ekhein, ter, possuir: é aquilo que se « possui », o que se incorporou de modo duradouro. Barthélemy-Saint-Hilaire a traduz por « hábito » ou « modo de ser ». A palavra francesa engana um pouco, pois não se trata do automatismo que chamamos de hábito, mas do estado estável do caráter — o tempero que se adquire e que, uma vez assimilado, orienta a conduta por si mesmo. A virtude, para Aristóteles, é uma hexis: não um ato isolado, não uma emoção passageira, mas uma disposição fixada.
Essa disposição não é dada nem inata: fabrica-se. « Jamais as coisas da natureza podem, pelo efeito do hábito, tornar-se diferentes do que são », escreve ele: a pedra que se lança mil vezes não adquirirá o hábito de subir. As virtudes escapam a essa fatalidade porque não estão em nós apenas por natureza — « a natureza nos tornou suscetíveis a elas, e é o hábito que as desenvolve e aperfeiçoa em nós ». Recebemos a potência nua; o exercício a converte em qualidade determinada. Torna-se justo praticando atos justos, corajoso enfrentando o que é preciso.
Daí a definição canônica da virtude moral, em que o verbo « ser » exprime a permanência: uma hexis regulada pela razão, que depende de nossa vontade e visa o justo meio relativo a nós. Esse meio não é uma média morna: é o ponto exato que a escolha deliberada alcança, e que a prudência sabe discernir no particular. A disposição sozinha permanece muda; é preciso uma vontade reta para que ela se sustente.
Hexis ≠ aptidão natural: a pedra mantém seu peso, mas o caráter se forja — o que depende de nós é o único passível de louvor ou censura. Hexis ≠ energeia: a disposição pode repousar no homem adormecido ou inativo, enquanto o ato, ele, sempre opera. E hexis ≠ eudaimonia: a virtude é o estado adquirido de onde procede a felicidade, mas a felicidade não é esse estado em repouso — é seu exercício desdobrado ao longo de uma vida inteira.