O ócio e o inútil
Aristóteles e Tchouang-Tsé diante da vida que só vale pelo que produz — e duas portas opostas para dela sair.
A cada coisa que encontramos, uma pergunta surge tão depressa que já não a vemos chegar: para que serve? A árvore, avaliamo-la em tábuas; a hora, pelo que rende; e o homem, aprende-se cedo a pesá-lo pelo que produz. A pergunta parece inocente, quase cortês — mas já é um machado. Indagar o que uma coisa vale para outra coisa é ter decidido de antemão que ela não vale por si mesma; é medi-la por um fim que não é o seu, e condená-la se não o atender. Uma vida inteira pode passar assim, prestando contas — útil ao trabalho, útil aos seus, útil ao amanhã — sem que se pense uma única vez em perguntar: e se houvesse, no coração de uma vida, algo que não precisa conquistar seu lugar?
Duas filosofias que jamais se encontraram fizeram essa pergunta, a dois mil léguas e um século de distância, e responderam por duas portas opostas. Uma é grega, metódica, hierárquica: busca, acima de todos os trabalhos, a atividade que nada tem acima de si, aquela que se ama por si só. A outra é chinesa, oblíqua, risonha: não busca atividade alguma suprema, desertando da própria questão da utilidade, e encontra a liberdade no que não serve para nada. Aristóteles sobe; Tchouang-Tsé sai. Seria um erro confundi-los sob a palavra cômoda de “sabedoria contemplativa” — não contemplam a mesma coisa, e um deles não contempla nada. É distinguindo-os claramente que se ouvirá, no fim, o que têm de irredutivelmente comum.
I. Aristóteles: o ócio não é repouso
Aristóteles não despreza o trabalho; situa-o. Tudo o que fazemos, observa, fazemo-lo em vista de outra coisa: cuidamos para ter saúde, combatemos pela vitória, governamos pela cidade. Cada ato remete a um fim que o ultrapassa, e esse fim a outro, e assim por diante — a menos que exista, em algum lugar, um termo que interrompa a cadeia: uma atividade desejada por si mesma e por nada além. É ela que Aristóteles chama de felicidade, e é a ela que todo o resto, inclusive o labor mais nobre, serve de antecâmara.
Trabalha-se apenas para chegar ao ócio; faz-se a guerra apenas para obter a paz.
A frase tem a secura de uma evidência, mas inverte a ordem habitual dos valores. No senso comum, o ócio é o intervalo que separa dois trabalhos — o repouso que se concede para poder retomar. Aristóteles inverte a relação: não é o ócio que está a serviço do trabalho, é o trabalho que está a serviço do ócio. Não se repousa para melhor labutar; labuta-se para aceder àquilo pelo qual vale a pena cessar de labutar. A palavra que emprega, scholè, não designa nem a sesta nem o divertimento: nomeia o tempo liberado da necessidade, o tempo que já não é devido a ninguém.
Ainda assim, não se deve confundi-lo com o descanso. Aristóteles insiste: o divertimento não é a felicidade, é apenas o repouso dela. Divertimo-nos para nos refazer e retomar a tarefa — o divertimento está voltado para o trabalho como o sono para a vigília, é sua reparação, não seu fim. Fazer do jogo o objetivo da vida seria labutar a vida inteira para, no fim, se aturdir: uma ordem que a criança e o tirano tomam por sabedoria, e que Aristóteles considera invertida. O ócio verdadeiro não é esse alívio que recarrega o esforço seguinte; é, diz ele, o que há de mais sério — mais sério que o trabalho do qual é a razão de ser.
Resta saber com o que esse ócio se preenche. E é aqui que Aristóteles se afasta de qualquer apologia do ócio vazio. O ócio não é um vácuo a mobiliar de prazeres; é o espaço reservado à única atividade que se basta — o pensamento que se debruça sobre o que é, a inteligência em ato, o que ele chama de contemplação. Por que ela, e não outra? Porque é a única da qual nada resulta senão ela mesma.
Essa vida do pensamento é a única que se ama por si mesma; pois nada resulta dessa vida senão o saber e a contemplação, ao passo que em todas as coisas em que se deve agir, persegue-se sempre um resultado mais ou menos estranho à ação.
Eis o critério, e ele é de uma exigência rara. Todo ato que visa um resultado “estranho à ação” permanece suspenso a algo além de si: o justo precisa de injustiças a corrigir, o corajoso de um perigo, o homem de negócios de um lucro. Retire-se o objeto, o ato cai. O pensamento, só, não precisa de nada que não contenha: é a si mesmo seu objeto e sua recompensa. Daí vem o outro traço que Aristóteles lhe reconhece — uma independência que nenhuma outra vida alcança.
O sábio, ao contrário, o erudito pode ainda, estando sozinho consigo mesmo, dedicar-se ao estudo e à contemplação; e quanto mais sábio for, mais se dedicará. Não quero dizer que não seja melhor para ele ter companheiros de trabalho; mas o sábio não deixa de ser o mais independente dos homens e o mais capaz de bastar-se a si mesmo.
Bastar-se: a palavra diz tudo. A atividade mais elevada é aquela que nada mendiga de fora, nem matéria, nem parceiro, nem resultado. Reconhece-se aí, transposta para a ordem do espírito, a mesma intuição dos sábios que fizeram da medida de seus desejos sua riqueza — aquele que sabe bastar-se já é rico o suficiente. Mas Aristóteles não fala primeiro do desejo: fala do ato. Sua resposta à tirania do útil não é fazer menos, é fazer de outro modo — elevar-se, acima de todos os trabalhos que rendem, até o ato que só rende a si mesmo. O caminho para fora da vida servil, nele, sobe. Não abandona a ordem das atividades; busca seu cume, o ponto em que a atividade, tendo cessado de produzir, só tem mais que ser.
Isso diz o quanto o repouso vulgar o decepciona. O homem que não sabe habitar seu ócio, que não suporta ficar só com seu pensamento e se lança no ruído para fugir do silêncio, esse não alcançou a scholè: apenas trocou de ocupação. A infelicidade de não poder ficar em repouso num quarto é exatamente o inverso do que Aristóteles chama de ócio. O ócio não é a ausência de atividade; é a atividade finalmente liberta da necessidade de servir.
II. Tchouang-Tsé: o elogio do inútil
Mudemos de hemisfério, e o tom muda com o país. Onde Aristóteles argumenta como arquiteto, erguendo a escala dos fins, Tchouang-Tsé conta uma história de árvore. Um lógico chamado Hui-tzu vem zombar dele: seus discursos, diz, são como um grande ailanto cujo tronco nodoso não se presta a nada e de que ninguém quer — vastos, e bons para nada. Tchouang-Tsé não se defende. Inverte o reproche em elogio.
Tanto melhor para mim, disse mestre Tchouang. Pois tudo o que tem uso prático perece por esse motivo. A marta usa mil estratagemas, mas acaba por morrer, sua pele sendo cobiçada. […] Enquanto o ailanto a que me comparais, crescido em terreno estéril, crescerá quanto quiser, dará sombra ao viajante e ao que dorme, sem temer machado nem enxó, precisamente porque, como dizeis, não serve para uso algum. Não ser bom para nada não é um estado de que se deva antes regozijar?
O raciocínio é o exato avesso do grego. Para Aristóteles, o inútil era o defeito a superar, e a contemplação valia por ser a mais alta das atividades. Para Tchouang-Tsé, a própria utilidade é o perigo: o que serve se deixa capturar. A árvore reta que se serra, a marta que se caça pela pele, o cavalo que se doma porque carrega — tudo o que responde a um uso atrai a mão que dele se apodera, e morre por responder. O inútil, esse, sobrevive; e faz, sem querer, a sombra que ninguém lhe pediu. O mesmo motivo reaparece, noutro lugar, sob a figura de um carvalho sagrado que um carpinteiro despreza:
Sim, as árvores cuja madeira é bela são cortadas jovens. Nas árvores frutíferas, quebram-se os galhos, na ânsia de lhes roubar os frutos. Para todas, sua utilidade é fatal. Por isso, alegro-me de ser inútil. […] Se és um homem útil, não viverás muito.
Enganar-se-ia, porém, quem lesse nisso uma simples inversão — o inútil posto no lugar do útil, a preguiça coroada. Tchouang-Tsé não propõe tornar-se bom para nada como quem visasse um novo ofício. O que ele contesta não é este ou aquele uso em benefício de outro, mas o império da pergunta “para que serve?” sobre tudo o que vive. Indagar de um ser para que serve é já tê-lo sob o machado do carpinteiro — reduzi-lo à sua função, e apará-lo para ela. A mesma mão que pretende endireitar o pato ou a garça segundo uma medida que não é a deles pretende aqui separar as árvores em madeiras boas e ruins. A essa mão, Tchouang-Tsé não opõe uma medida melhor: opõe o retraimento de toda medida, a livre peregrinação de quem já não se deixa avaliar. Seu caminho para fora da vida servil não sobe a um cume de atividade: sai, lateralmente, do próprio eixo do útil.
Essa palavra, peregrinação, não é um ornamento. O livro abre-se com a imagem de um pássaro desmedido que se eleva a noventa mil estádios e que duas pequenas criaturas, a cigarra e o pombo jovem, escarnecem por subir tão alto para nada — para que serve? A pergunta dos zombadores já é a do lenhador: só sabe indagar de um voo seu destino, de um ser seu rendimento. O grande pássaro não vai a lugar algum que se possa contar; deixa-se simplesmente levar pela grande massa do ar. Errar assim, sem meta designável, não é perder-se: é deixar de ser conduzido por um fim exterior. A liberdade que Tchouang-Tsé nomeia não é a licença de fazer tudo, mas a desenvoltura de quem já não precisa responder por seus passos diante do tribunal do útil.
III. A grande árvore e a gansa muda
Se parássemos aqui, faríamos de Tchouang-Tsé um doutrinário da inutilidade — e ele próprio nos desmentiria. Pois viu a objeção, e a encenou com uma malícia que impede que o fixemos. Atravessando as montanhas, avista uma grande árvore que o lenhador poupa: sua madeira não serve para nada, viverá, pois, até o fim. A lição parece aprendida. Mas à noite, hóspede de uma família amiga, assiste a outra cena. O dono da casa manda matar uma gansa para o banquete; o servo pergunta qual, a que sabe grasnar ou a que permanece muda. A muda, responde o dono. O inútil, desta vez, não salvou: é a gansa sem voz, a gansa boa para nada, que se degola. No dia seguinte, o discípulo cobra-lhe a contradição.
Ontem, essa árvore foi poupada por não servir para nada; esse pato foi degolado por não saber grasnar; então, ser capaz ou incapaz, o que salva?..
A resposta de Tchouang-Tsé é uma risada, e essa risada é toda a distância de Aristóteles. Depende do caso, diz; nenhuma regra, nem o útil nem o inútil, salva em todos os casos. O que salva não é uma qualidade que se possua — ser útil, ou ser inútil —, mas uma maneira de se portar: “elevar-se como o dragão, e achatar-se como a serpente, dobrando-se às circunstâncias, sem se obstinar em nenhum partido”. Onde Aristóteles nomeia um termo supremo e nele detém a cadeia dos fins, Tchouang-Tsé recusa nomear seja o que for de supremo: fazer da inutilidade uma doutrina seria ainda uma função, um papel, uma presa oferecida ao mundo. Sua liberdade não está nem no útil nem no inútil, mas na indiferença a essa partilha. Não se trata de fugir do uso para o não-uso; trata-se de deixar de se deixar definir por essa alternativa.
É por isso que os dois pensamentos não se encontram no meio, por compromisso. Aristóteles sustenta que existe uma atividade que vale absolutamente, e que todo o peso de uma vida consiste em elevar-se a ela: a contemplação tem um objeto, o mais alto e duradouro, e é desse objeto que tira sua dignidade. Tchouang-Tsé sustenta que nenhuma coisa vale absolutamente pelo que faz, e que o peso é justamente o que se deve curar: seu sábio não se eleva a objeto algum, brinca “no seio do ancestral de todas as coisas”. Um quer que a vida culmine; o outro, que se desprenda. Confundi-los seria perder o que cada um tem de cortante — fazer da contemplação grega um devaneio taoísta, ou da errância chinesa uma disciplina do espírito. Não são nem uma nem outra.
O que não se mede por seu rendimento
E no entanto, depois de tê-los mantido separados, ouve-se o que dizem em uníssono — e não é pouco. Ambos recusam à vida produtiva a última palavra sobre o que é uma vida. Ambos viram que a existência acorrentada a seu rendimento, ocupada sem descanso em se tornar útil, em se justificar, em merecer sua hora, perde o essencial pelo excesso mesmo de seu zelo. O ocupado de Aristóteles, que nunca tem ócio porque persegue sempre um resultado “estranho à ação”, e a bela árvore de Tchouang-Tsé, cortada jovem porque sua madeira servia, são o mesmo homem: aquele que seu valor de uso acabou por devorar.
Diante dele, os dois sábios oferecem dois gestos opostos e complementares. Aristóteles mostra, acima do trabalho, o ato que se basta — o pensamento que nada espera além de si mesmo e que, por isso, se ama por si só. Tchouang-Tsé mostra, ao lado do trabalho, a árvore que ninguém abate — aquela que, nada tendo a oferecer, nada tem a temer, e faz sombra ao viajante tanto melhor quanto não lhe pediam essa sombra. Subir à atividade que é seu próprio fim; sair da exigência de ter um fim: dois caminhos, e no fim, a mesma clareira. Uma vida não se mede pelo que produz. O ócio grego não é repouso, o inútil chinês não é preguiça — são dois nomes, um erguido para o alto, outro deitado de lado, para a parte de uma existência que não precisa conquistar seu lugar, porque já é, em si mesma, aquilo para que todo o resto se dava tanto trabalho.
Resta, como sempre, a montanha e seu silêncio. Na seda de Fang Congyi, os picos afundam-se na bruma e nenhum caminho leva a lugar algum; não há nada a fazer ali, nada a extrair, e é por isso que se volta. A grande árvore, ela, continua de pé à beira da estrada, velha de oito mil estações, boa para nada — senão para fazer sombra a quem não pensara em cortá-la.
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Fontes citadas
- Aristote, Morale à Nicomaque (Éthique à Nicomaque), Livre X, ed. Germer-Baillière, 1856 (Wikisource), trad. Jules Barthélemy-Saint-Hilaire.
- Tchouang-Tseu, Œuvre de Tchoang-tzeu (ch. I « Pérégrination », IV « Le monde des hommes », XX « La montagne »), ed. Les Pères du système taoïste, 1913 (Wikisource), trad. Léon Wieger.