Um céu que pode envelhecer
No Altai Superior que o escritor tuva Galsan Tschinag descreve, o céu não é um exterior: dirige-se a ele como a um pai, reza-se, chora-se — e um ancião atribulado pode censurá-lo por ter envelhecido a ponto de já não ouvir.
Dois seres gastos pela desgraça, algures no Alto Altai: um homem que a dor mantém desperto, e a mulher que vela com ele. Ele queixa-se, pergunta por que tanta aflição lhe cabe. Ela não lhe oferece consolo; indica-lhe a quem se dirigir. É o escritor tuva Galsan Tschinag — pastor tornado romancista de língua alemã — quem relata a cena, no mundo nómada da sua infância.
inglês “Don’t ask me. Ask the Blue Sky.”
“The Blue Sky no longer listens. He must have gone deaf from old age.”
português « Não me perguntes a mim. Pergunta ao Céu Azul. »
« O Céu Azul já não escuta. Deve ter ficado surdo, de tanto envelhecer. »
Detenhamo-nos no que a réplica pressupõe. Pode-se perguntar ao céu: ele é daqueles a quem se fala, um interlocutor, não um cenário. Escuta — ou já não escuta. E, sobretudo: pode envelhecer, fatigar-se, tornar-se surdo como um avô junto à lareira. Não é uma metáfora de poeta; é a gramática corrente de um mundo onde o Céu Azul é um próximo, integrado na mesma parentela dos vivos, e não uma abóbada de ar acima deles.
O lugar deste céu mede-se pela forma como se o invoca. Quando o jovem herói de Tschinag entoa o canto ritual que entoou « cem vezes », este « calls upon Father Sky and Mother Earth » — invoca o Céu-Pai e a Terra-Mãe. Céu e terra são aí nomeados como um pai e uma mãe: não duas forças, mas dois progenitores a quem se dirige, agradece, suplica. Não se reza a uma atmosfera. Reza-se a alguém.
Que este céu seja um próximo, a revolta o prova melhor ainda do que a prece. Após um « mau ano », a criança ergueu-se contra ele.
inglês It ended with me rising up against the sky and flinging at him my best weapons—my words. I denounced him. Instead of replying, Father Sky stayed as unreachable and invulnerable as ever.
português Acabou comigo, erguido contra o céu, atirando-lhe as minhas melhores armas — as minhas palavras. Acusei-o. Em resposta, o Céu-Pai manteve-se tão inalcançável e invulnerável como sempre.
Não se acusa um vazio. Só se guarda rancor a alguém. Que a criança denuncie o céu, que lhe atire as palavras como armas, diz bem que o considera um interlocutor capaz de responder, de se calar, de merecer censura. E é o silêncio que se segue — o céu que permanece « inalcançável e invulnerável » — que abre, no próprio âmago da relação, a questão moderna: « Afinal, o que era o céu? Precisava de saber. » A dúvida que fará do nosso céu um objecto começa ali, não quando se deixa de olhar para cima, mas quando o alto deixa de responder.
Tudo separa este Céu Azul do céu para o qual erguemos os olhos. O nosso é um invólucro: ar, pressão, luz difusa, azul mensurável. Não lhe falamos; não pode escutar nem calar-se, pois nunca foi um tu. Não poderia ficar surdo de velhice — seria preciso, para tal, que antes tivesse ouvido. Dois céus sob uma mesma palavra: um a quem se suplica e acusa, outro que está apenas situado acima.
Resta então a pergunta que o ancião do Altai coloca sem querer, a nós que já nada esperamos de cima. Quando erguemos os olhos, o que encontramos: um tecto de ar — ou alguém já tão velho, talvez, que deixou de nos ouvir?
Fontes citadas
- Galsan Tschinag, The Gray Earth (Die graue Erde), ed. Milkweed Editions, 2010 (orig. allemand, Insel Verlag, 1999), trad. Katharina Rout (anglais) ; rendu français maison.