Nada de próprio
Antoine doa suas terras e abandona o mundo; Epicteto guarda o uso das coisas, mas nunca diz « meu ». Dois gestos, uma mesma libertação: não ser possuído pelo que se possui.
O mensageiro fez a viagem até o deserto de Scete em vão. Trazia ao velho monge um testamento: um parente senador acabara de morrer e lhe deixava uma herança riquíssima. O monge quis primeiro rasgar o documento; o oficial lançou-se a seus pés — estava em jogo a própria cabeça — e suplicou-lhe que não o fizesse. Então Arsénio respondeu com uma única frase e devolveu o homem com o testamento intacto.
Como pôde ele fazer-me seu herdeiro, se morreu há pouco, enquanto eu mesmo estou morto há muito tempo?
A resposta não é um jogo de palavras. Arsénio considera-se morto para o mundo, e um morto não herda nada. A herança, em sua busca, bate a uma porta que ninguém mais habita. Essa nudez não é uma privação sofrida: é um retiro escolhido, um corte definitivo com o século. O monge não recusa a fortuna porque tivesse perdido o gosto por ela — conhecera-a melhor que ninguém —, mas porque já se mudara para fora do alcance do que ela promete.
Por trás da recusa de Arsénio, há um gesto mais antigo, aquele que abriu o caminho. Antônio, jovem, herda dos pais bens consideráveis. Uma manhã, na igreja, ouve a leitura do Evangelho como se lhe fosse dirigida em pessoa e sai imediatamente para conformar-se a ela.
Abandonou cento e cinquenta jeiras de excelente terra que possuía aos do seu povoado, e vendeu os móveis, cujo dinheiro distribuiu aos pobres, reservando apenas uma parte para uma irmã mais nova que tinha.
O caminho do deserto abre-se com uma mão que se esvazia. Os gregos tinham uma palavra para essa disciplina: aktēmosynè, a não-posse — não a pobreza que se suporta, mas a que se elege, a primeira das asceses. Nada ter de próprio, para que nada o tenha a si, e para que o coração, aliviado, se volte inteiro para outro lugar. O movimento é de saída: a coisa deve deixar a mão. Dá-se — ao povoado, aos pobres —, e parte-se.
Um mestre estoico propõe uma via bem distinta para a mesma liberdade. Epicteto, escravo alforriado, não pede que se doem as terras nem que se vá embora. Conserva o uso das coisas; o que desloca é uma única palavra — aquela que se pronuncia quando elas se vão.
Sobre qualquer coisa, nunca digas: Perdi isso; mas: Devolvi. Teu filho morreu? Devolveste-o. Tua mulher morreu? Devolveste-a. — Roubaram-me a terra. — Mais uma coisa que devolveste. — Mas foi um malvado que a tomou. — Que te importa por quem aquele que ta deu a reclamou de volta? Enquanto ta deixa, usa-a como coisa alheia, como usam de uma hospedaria os que passam.
Nada, para ele, foi jamais próprio. O mundo empresta; quando retoma, a palavra justa não é « perder », mas « devolver ». O viajante, na estalagem, serve-se da cama e do fogo sem chamar nada de seu, e parte sem luto. O estoico permanece no mundo, a mão às vezes cheia; o que se afrouxa é o juízo, a etiqueta muda — « meu » — que ele renuncia a colar às coisas. Sua distinção entre o que depende de nós e o que não depende coloca os bens do lado do alheio: deles se usa, não se identifica com eles.
Por que o monge doa o que o estoico guarda?
Porque cortam o mesmo nó por duas pontas. Antônio teme que a coisa guardada o guarde por sua vez: ele a retira. Epicteto considera a coisa inofensiva enquanto o juízo permanece reto: conserva-a e endireita o juízo. Um age sobre o objeto, o outro sobre o pensamento. O primeiro esvazia a estalagem; o segundo nela dorme sem desfazer as malas. As duas vias não se encontram no caminho: o monge não reconheceria o sábio que guarda seus campos, e o sábio não precisa de Deus para ser livre.
E, no entanto, sobem ao mesmo cume. O que pesa sobre uma vida não é o objeto, mas o apego — a convicção de que é meu, e que perdê-lo seria perder-me. Antônio abre a mão até que nada mais segure; Epicteto afrouxa o aperto enquanto a mão permanece cheia. Aquele que deu tudo e aquele que guarda o uso de tudo dormem o mesmo sono: nem um nem outro espreita o ladrão, pois em nenhuma das duas celas há, afinal, nada de próprio. Esvaziar o quarto ou nada nele ter como próprio: dois gestos para uma única libertação, não ser possuído pelo que se possui.
A questão que o deserto deixa não é a da quantidade — quanto se segura —, mas de um sentido que se inverte: a partir de quando o que se possui começou, sem ruído, a possuir-nos?
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Fontes citadas
- Pères du désert, Vies choisies des Pères des déserts d'Orient, ed. Ad Mame et Cie, 1861 (compilation M.-A. Marin).
- Épictète, Manuel, ed. Wikisource (trad. Jean-Marie Guyau, 1875), trad. Jean-Marie Guyau.