Pequeno demais, pobre demais

Um mesmo veredito vem de fora sobre a Oceania de Epeli Hauʻofa e os Andes de Fernando Huanacuni: pequenos demais, pobres demais. Ambos o recusam — mas um responde ampliando o mundo, o outro deixando de medi-lo pelo que acumula.

Pequeno demais, pobre demais
Albrecht Dürer, mapa celeste do hemisfério Norte (1515): a abóbada ordenada, nomeada e delimitada pelos astrônomos da Europa sentados nos ângulos — uma medida do mundo que, desde seu centro, nem sequer enxerga os céus do Sul que declara periféricos. Metropolitan Museum of Art, CC0.

Pequeno demais, pobre demais, isolado demais. A frase vem de fora, e cai sempre do mesmo jeito. Sobre as ilhas do Pacífico, diz: microestados perdidos no vazio azul, condenados a depender da ajuda das nações ricas. Sobre os altiplanos andinos, veste-se com a linguagem do desenvolvimento: povos atrasados, que seria preciso puxar para cima, para o padrão de vida, para o “melhor”. Uma mesma medida, imposta desde um mesmo centro, que decreta o que vale e o que falta.

Duas vozes a recusam — uma desde Tonga e Fiji, a outra desde as margens do lago Titicaca. Não se conhecem, não se citam, não compartilham nem língua nem oceano. Epeli Hauʻofa (1939-2009), pensador tonganês, por muito tempo professor na Universidade do Pacífico Sul em Suva; Fernando Huanacuni Mamani, jurista e escritor aimará, que reuniu para uma organização indígena andina o sentido de uma palavra ancestral. Ambos contestam o mesmo veredito. Mas o que os torna preciosos para colocar lado a lado não é seu acordo: é que suas respostas seguem em direções opostas, e não se compreende nem uma nem outra se as confundirmos depressa demais.

A resposta de Hauʻofa: ampliar o mundo

Hauʻofa primeiro ensinou a pequenez. Descrevia a seus alunos sua situação de dependência, sua exigüidade, seu afastamento, e via seus rostos se desmancharem. Depois entendeu que ensinar aquilo a jovens vindos de sua própria região era trabalhar para rebaixá-los. Em 1993, numa conferência que se tornou fundadora, ele vira o mapa do avesso.

inglês

There is a gulf of difference between viewing the Pacific as ‘islands in a far sea’ and as ‘a sea of islands’. The first emphasises dry surfaces in a vast ocean far from the centres of power. When you focus this way you stress the smallness and remoteness of the islands. The second is a more holistic perspective in which things are seen in the totality of their relationships.

português

Há um abismo entre ver o Pacífico como « ilhas num mar distante » e como « um mar de ilhas ». A primeira visão insiste em superfícies secas num vasto oceano, longe dos centros de poder. Quando se olha assim, enfatiza-se a pequenez e o afastamento das ilhas. A segunda é uma perspectiva mais global, em que as coisas são vistas na totalidade de suas relações.

Epeli Hauʻofa, Our Sea of Islands , cap. A New Oceania: Rediscovering Our Sea of Islands  — ed. segundo a tradução francesa de [tradutor não nomeado], edição da University of the South Pacific, Suva, 1993, trad. viasophia

O deslocamento é preciso: “ilhas num mar” faz do oceano um intervalo que separa e diminui; “um mar de ilhas” faz do oceano o meio que conecta. Deixa-se de contar as superfícies de terra emersa para medir um mundo por suas rotas, seus parentescos, seus intercâmbios tecidos ao longo de dois mil anos de navegação. “Smallness is a state of mind” — a pequenez é um estado de espírito. E a conclusão que Hauʻofa tira disso não consiste em se contentar com um mundo pequeno bem-amado: consiste em afirmar que o mundo, visto com justiça, é imenso.

inglês

The world of Oceania is not small; it is huge and growing bigger every day.

português

O mundo da Oceania não é pequeno; é imenso, e cresce cada dia mais.

Epeli Hauʻofa, Our Sea of Islands , cap. A New Oceania: Rediscovering Our Sea of Islands  — ed. segundo a tradução francesa de [tradutor não nomeado], edição da University of the South Pacific, Suva, 1993, trad. viasophia

O gesto é o da amplitude. Contra o veredito “vocês são pequenos demais”, Hauʻofa não defende a doçura do exíguo: ele alarga o quadro até fazê-lo explodir. O que chama de “world enlargement”, o alargamento do mundo, prossegue sob o nariz dos planejadores — pelas migrações, pelas circulações, pelas famílias dispersas de um extremo a outro do Pacífico e além. A Oceania “se estende”, “cresce”; ela é, diz ele na cláusula mais célebre do ensaio, vasta, hospitaleira, generosa — “we are the sea, we are the ocean”. A resposta à pequenez é a vastidão.

A resposta de Huanacuni: mudar a unidade de medida

Nos Andes, o veredito não se chama “pequenez”, mas “desenvolvimento”. A ordem é a mesma: é preciso viver melhor, subir a ladeira do padrão de vida, alcançar. E é exatamente essa palavra que Fernando Huanacuni vem desarticular. O termo aimará suma qamaña — seu gêmeo quéchua é sumak kawsay — que se traduz habitualmente por “viver bem”, não diz que é preciso viver melhor.

espanhol

El término aymara “suma qamaña” se traduce como “vivir bien” o “vivir en plenitud”, que en términos generales significa “vivir en armonía y equilibrio; en armonía con los ciclos de la Madre Tierra, del cosmos, de la vida y de la historia, y en equilibrio con toda forma de existencia”.

português

O termo aimará « suma qamaña » se traduz por « viver bem » ou « viver em plenitude », o que significa, grosso modo, « viver em harmonia e equilíbrio; em harmonia com os ciclos da Mãe-Terra, do cosmos, da vida e da história, e em equilíbrio com toda forma de existência ».

Fernando Huanacuni Mamani, Buen Vivir / Vivir Bien , cap. Definición de vivir bien  — ed. segundo a tradução francesa de [tradutor não nomeado], edição da CAOI, Lima, 2010, trad. viasophia

A palavra visa um equilíbrio, não uma ascensão. E Huanacuni traça a linha divisória com cuidado, ali onde o desenvolvimento gostaria de ler um sinônimo:

espanhol

El Vivir Bien no es lo mismo que el vivir mejor, el vivir mejor es a costa del otro. Vivir mejor es egoísmo, desinterés por los demás, individualismo, sólo pensar en el lucro.

português

O Viver-bem não é o mesmo que viver-melhor; o viver-melhor se faz à custa do outro. Viver melhor é o egoísmo, o desinteresse pelo próximo, o individualismo, pensar apenas no lucro.

Fernando Huanacuni Mamani, Buen Vivir / Vivir Bien , cap. Definición de vivir bien  — ed. segundo a tradução francesa de [tradutor não nomeado], edição da CAOI, Lima, 2010, trad. viasophia

“Viver melhor” é comparativo: só se vive melhor mais que alguém, portanto às suas custas, e para que uma minoria viva melhor, multidões precisam viver mal. É a gramática da acumulação, que ordena o mundo em vencedores e perdedores. “Viver bem” não se compara: mede-se pelo equilíbrio do todo, não pelo buraco que se cavou no vizinho ou na terra. O gesto de Huanacuni, portanto, não é ampliar coisa alguma. É desarmar a própria unidade na qual se pretende avaliá-lo: nem superfície, nem crescimento, nem “mais”, mas o ajuste a um conjunto mais vasto que si, onde o humano não passa de um fio.

Dois recusas, duas direções contrárias

Seria fácil, e falso, concluir aqui por uma mesma sabedoria em duas línguas. Os dois homens recusam uma medida vinda de fora; mas o que fazem com ela diverge, quase a ponto de se opor.

Hauʻofa responde a “pequeno demais” com algo maior. Sua arma é a amplitude: o mundo é imenso, se estende, cresce a cada dia; as rotas se multiplicam, as famílias transbordam fronteiras. Ele permanece, à sua maneira, na linguagem da grandeza — apenas inverte seu sinal. Onde o planejador via pontos minúsculos, ele vê um mundo que incha.

Huanacuni, por sua vez, não inverte o sinal: recusa a balança. À ordem “é preciso viver melhor”, não responde “não, nós vivemos grandiosamente” — responde que a vida não se mede em graus, que o “mais” é justamente a armadilha. Seu gesto não amplia nada; busca a justa medida, o equilíbrio, a suficiência na relação. Onde Hauʻofa celebra o que “cresce”, Huanacuni desconfia da própria gramática do crescimento.

O limiar que compartilham

É apenas quando essa divergência é mantida com firmeza que se pode nomear o que, por baixo, se encontra. Pois a medida que ambos recusam é a mesma em sua natureza: é quantitativa. Superfície de terra emersa, padrão de vida, produto, “mais” — sempre um número, imposto de fora, que ordena os mundos numa escala. E o que um e outro lhe substituem é, também em sua natureza, a mesma coisa: uma medida relacional.

Hauʻofa: vê-se as ilhas “na totalidade de suas relações”. Huanacuni: trata-se de compreender que na vida “todo está interconectado”, tudo está interligado, interdependente, e “existe uma interdependência entre tudo e todos”. O que faz um mundo, para ambos, não é a quantidade de suas coisas nem a extensão de suas terras: é a densidade de seus laços. O veredito “pequeno demais, pobre demais” não erra apenas na resposta — erra na unidade. Conta superfícies e bens onde seria preciso contar relações.

Mas esse limiar comum, eles o alcançam por dois flancos opostos, e é preciso deixá-los ali. Medir um mundo por suas relações pode significar alargar sua trama — mais rotas, mais longe, um oceano-lar que não cessa de crescer: é Hauʻofa. Ou ajustar-se a ela sem rompê-la — o suficiente, e não mais, o equilíbrio em vez da expansão: é Huanacuni. A mesma verdade — um mundo se pesa pelo que o liga — lê-se uma vez como amplitude, outra como justeza. Visão não dual, e não fusão: o limiar é um, as encostas permanecem duas.

Aprendemos duas perguntas, e acreditamos que são todas: quão grande? e quanto mais? Ambas pedem um número. O mar de ilhas e o suma qamaña fazem uma terceira — a quantos estou ligado? — e nem sequer concordam sobre o que vem depois: deve esse laço se estender, ou manter-se em equilíbrio? O encontro termina aí, nessa discordância intacta. Vale mais que a falsa paz.

Fontes citadas

  • Epeli Hauʻofa, Our Sea of Islands, ed. A New Oceania: Rediscovering Our Sea of Islands, University of the South Pacific, Suva, 1993 ; repris dans The Contemporary Pacific 6/1, 1994, trad. texte original anglais ; rendu français maison.
  • Fernando Huanacuni Mamani, Buen Vivir / Vivir Bien. Filosofía, políticas, estrategias y experiencias regionales andinas, ed. Coordinadora Andina de Organizaciones Indígenas (CAOI), Lima, 2010, trad. texte original espagnol ; rendu français maison.