Latin · Estoicismo

Mora

mora

Em latim, a *mora* é o prazo, o intervalo que se deixa passar antes de agir. Sêneca faz dela o remédio próprio da ira: porque essa paixão nasce de um juízo precipitado e *«faz tudo correndo»*, desarma-se não com uma força contrária, mas com tempo. Adiar é devolver à razão o intervalo de que ela precisa para reassumir o leme — o primeiro ardor se aplaca, e com ele a maioria dos motivos que pareciam exigir reparação.

le plus grand remède de la colère, c’est le temps : il amortit le premier feu, et dissipe, ou du moins éclaircit le nuage qui offusque la raison.
Sénèque, De la colère, Livre III, XII. Œuvres de Sénèque le philosophe, Garnier Frères, 1860 (Wikisource) · trans. Joseph Baillard · source

O latim mora designa o atraso, a pausa, o tempo que interpomos entre a ofensa e a resposta. Sêneca faz dela a peça central de sua terapia da ira: a quem pergunta como dominar uma paixão que «faz tudo correndo», ele não opõe uma virtude contrária, mas um simples adiamento. O maior remédio, escreve, é o tempo, que amortece o primeiro fogo e dissipa a nuvem lançada sobre a razão. Uma hora, às vezes menos, basta para dissolver os motivos que pareciam exigir vingança.

O mecanismo reside em que a ira se baseia num assentimento: não nos enfurecemos sem antes ter julgado que sofremos uma injustiça e que é preciso retribuí-la. Ganhar tempo é impedir que esse juízo se cristalize em ato — deixar à faculdade de julgar o ensejo de rever sua primeira impressão. Platão, o braço já erguido sobre seu escravo, detém-se ao perceber que está irado e confia o castigo a outro; Fábio salva Roma ao saber contemporizar onde o homem irritado teria se perdido. O adiamento não apaga a justiça: se a queixa era fundada, continua sendo depois, mas então «é a justiça, e não a ira», que sentencia.

Mora ≠ repressão. Adiar não é conter a paixão para mantê-la intacta por dentro: é retirar-lhe o assentimento que a alimenta, de modo que ela se esvaia por falta de objeto, em vez de ser contida à força. E a mora não é a apatia: o adiamento é um gesto pontual, uma tática no tempo que desarma um acesso; a apatia nomeia o estado estável em que a paixão já não se levanta. Uma ganha tempo sobre a «breve loucura», a outra descreve a alma que essa loucura já não visita.

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