Não há poder num quadrado
Envelhecido numa casa de troncos de ângulos retos, Black Elk, homem-medicina oglala lakota, disse a John Neihardt por que seu povo morria: « não pode haver poder num quadrado. » O círculo sagrado contra a caixa.
Entre Wounded Knee Creek e Grass Creek, no fim da vida, Black Elk morava numa pequena casa cinza feita de troncos, e essa casa era quadrada. Ele o faz notar a John Neihardt, que veio registrar seu relato em 1931, como se apontasse uma causa de morte. A casa não era apenas feia ou triste: era, dizia, um modo ruim de viver. E dava a razão com um traço, sem explicá-la como metáfora — como um fato sobre a maneira como o poder circula no mundo.
inglês It is a bad way to live, for there can be no power in a square. […] In the old days when we were a strong and happy people, all our power came to us from the sacred hoop of the nation, and so long as the hoop was unbroken, the people flourished. The flowering tree was the living center of the hoop, and the circle of the four quarters nourished it.
português É um modo ruim de viver, pois não pode haver poder num quadrado. […] Antes, quando éramos um povo forte e feliz, todo o nosso poder vinha do círculo sagrado da nação, e enquanto o círculo permanecia intacto, o povo prosperava. A árvore em flor era o centro vivo do círculo, e a roda dos quatro quadrantes a nutria.
A palavra que ele usa é hoop — o aro, o anel. Não o círculo dos geômetras, uma figura traçada no vazio, mas uma forma habitada: o acampamento disposto em roda, os tipis postos como ninhos, e no meio uma árvore. O círculo sagrado não é a soma das pessoas que o compõem; é o que as faz permanecer juntas. Uma comunidade, no sentido em que a entendemos, continua sendo uma adição de indivíduos que se pode contar, separar, deslocar um a um. O aro, porém, não se deixa somar: ele se sustenta inteiro ou se rompe. Enquanto está intacto, o povo floresce; quebrado, o poder se vai — não porque se perderam membros, mas porque se perdeu a forma.
Essa forma, ele a vira na infância. Aos nove anos, doente, recebeu a grande visão que definiria sua vida: levado ao cume da montanha mais alta, abarcou com um só olhar todo o aro do mundo. O que compreendeu ali transbordava o que via.
inglês And I saw that the sacred hoop of my people was one of many hoops that made one circle, wide as daylight and as starlight, and in the center grew one mighty flowering tree to shelter all the children of one mother and one father. And I saw that it was holy.
português E vi que o círculo sagrado do meu povo era um entre muitos círculos que formavam um único círculo, amplo como o dia e como a noite estrelada, e no centro crescia uma grande árvore em flor para abrigar todos os filhos de uma só mãe e de um só pai. E vi que isso era sagrado.
O aro de seu povo era apenas um aro entre outros, e todos juntos formavam um só círculo. É um pensamento que se erraria em ler depressa demais como fusão. Os círculos não se dissolvem uns nos outros: cada um guarda seu contorno, seu centro, sua nação; e é permanecendo distintos que compõem o círculo único. A visão não diz que os povos são um só; diz que se mantêm numa mesma redondeza sem deixar de ser eles mesmos. Quanto ao centro, Black Elk logo precisou o lugar: nomeou Harney Peak, nas Black Hills, a montanha onde estava — e acrescentou, but anywhere is the center of the world, mas qualquer lugar é o centro do mundo. O centro não é uma capital que se impõe sobre as outras; é o ponto onde se está para ver o todo. Há um em todo lugar onde alguém olha direito.
Pois a visão teve um desfecho, e ele não foi feliz. O velho que falava a Neihardt vira seu povo confinado, o acampamento em roda desfeito, as casas quadradas alinhadas. A última imagem que deixou de si mesmo foi a de um homem que não soubera preservar o que lhe haviam mostrado.
inglês the nation’s hoop is broken and scattered. There is no center any longer, and the sacred tree is dead.
português o aro da nação está rompido e disperso. Não há mais centro agora, e a árvore sagrada está morta.
Rompido e disperso: as duas palavras dizem uma só coisa. Quando o círculo se quebra, suas partes não se reorganizam de outro modo — elas se espalham, porque só se sustentavam por ele. E então « não há mais centro »: não porque o centro tenha mudado de lugar, mas porque não há mais forma para que um centro exista em algum ponto. É exatamente isso que diz a casa quadrada. A caixa, ela, não precisa de um centro: seus ângulos se sustentam sozinhos, seus cômodos se isolam, suas coisas se arrumam lado a lado sem nada deverem umas às outras. O círculo sagrado e o quadrado não são dois cenários intercambiáveis da mesma vida; são dois modos opostos de fazer um mundo se sustentar — um pela relação de um todo intacto com seu centro vivo, o outro pela separação nítida das partes. Black Elk não diz que o redondo é mais belo que o ângulo. Diz que não há poder num quadrado, e o diz de dentro de um deles.
Fontes citadas
- Black Elk, Black Elk Speaks, ed. University of Nebraska Press, éd. annotée 2014 (1ʳᵉ éd. William Morrow, 1932), trad. paroles de Black Elk mises en mots par John G. Neihardt ; rendu français maison.