Adiar o fim do mundo

Ailton Krenak, pensador krenak do rio Doce, inverte a fórmula: o fim que tememos como futuro já aconteceu — e o que impede o mundo de acabar é o sonho, praticado como instituição.

Adiar o fim do mundo
Théodore Rousseau — A Floresta no Inverno ao Pôr do Sol (c. 1846–1867). Metropolitan Museum of Art, CC0 / domínio público.

Adiar o fim do mundo: a fórmula circula por toda parte, como um programa. Desacelerar, ganhar tempo, adiar o colapso. Ailton Krenak conhece a frase melhor do que ninguém — Ideias para adiar o fim do mundo é o título de um de seus livros. Mas quando a retoma, nas palavras reunidas sob o título A vida não é útil, é para desmontar sua evidência. Pois o fim que tememos como um evento por vir, ele já o viu chegar.

Acredita-se de bom grado que se trata de moderar nosso consumo para manter a catástrofe à distância. Krenak toma essa proposta ao pé da letra, depois a desloca um grau.

português (Brasil)

A proposta de desacelerar nosso uso de recursos naturais pode sugerir a ideia de adiar o fim deste mundo, mas, em alguns lugares, esse fim já aconteceu — ontem, hoje cedo, vai acontecer depois de amanhã.

português

A proposta de desacelerar nosso uso dos recursos naturais pode sugerir a ideia de adiar o fim deste mundo aqui; mas, em certos lugares, esse fim já aconteceu — ontem, de madrugada, acontecerá depois de amanhã.

Ailton Krenak, A vida não é útil  — ed. a partir da tradução francesa, Companhia das Letras, 2020, trad. viasophia

Tudo está no demonstrativo: adiar o fim deste mundo — adiar o fim deste mundo aqui. Não do mundo, mas de um mundo: aquele que um único modo de vida estendeu pelo planeta. Para os povos das Américas, esse mundo chegou uma primeira vez trazendo um fim — a conquista, os rios mortos, os povos postos de lado. A apocalipse não é, para eles, um horizonte: é uma memória. Quando Krenak anuncia o fim do mundo, ele mesmo se defende: dou notícias velhas. O tom não é o da profecia; é o da constatação de quem já sobreviveu a um colapso e vê os outros se assustarem com o seu.

O que ele opõe, então, ao fim? Não uma técnica para retardá-lo. Entre os seus, algo preciso impede o mundo de se desfazer — e não é o que um europeu costuma chamar de sonho.

português (Brasil)

Sonhar é uma prática que pode ser entendida como regime cultural em que, de manhã cedo, as pessoas contam o sonho que tiveram.

português

Sonhar é uma prática que se pode entender como um regime cultural: de manhã cedo, as pessoas contam o sonho que tiveram.

Ailton Krenak, A vida não é útil , cap. « Sonhos para adiar o fim do mundo »  — ed. a partir da tradução francesa, Companhia das Letras, 2020, trad. viasophia

O sonho não é aqui a fantasia privada de quem dorme. Krenak fala dele como de uma instituição que prepara as pessoas para se relacionarem com o cotidiano: conta-se ao amanhecer o que se sonhou, não na praça pública, mas para aqueles com quem se vive, e desse relato depende a conduta do dia — partir em viagem ou ficar, pescar ou recolher-se. O sonho é um lugar de circulação dos afetos, diz ele: carrega laços do mundo noturno para a alvorada e os torna atuantes. Sonhar, nesse uso, não é fugir do real: é orientá-lo. E é daí que vem a força de adiar um fim — não de um cálculo sobre os recursos, mas da capacidade de imaginar outro mundo habitável. Será preciso, escreve, produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por este mundo e podermos habitá-lo.

Aqui, é preciso evitar enternecê-lo. Adiar o fim do mundo, para Krenak, não significa prolongar o estado atual das coisas. O mundo como funciona, ele não tem o menor interesse em salvá-lo.

português (Brasil)

Nesse mundo pronto e triste eu não tenho nenhum interesse, por mim ele já podia ter acabado há muito tempo, não faço questão de adiar seu fim.

português

Esse mundo pronto e triste não me interessa em nada; para mim, poderia ter acabado há muito tempo, não me importa adiar seu fim.

Ailton Krenak, A vida não é útil  — ed. a partir da tradução francesa, Companhia das Letras, 2020, trad. viasophia

O mundo cuja queda ele não lamentará é o da máquina de fabricar coisas, das escolas que reproduzem a injustiça, do sujeito “habilitado a operar no mundo, a fazer guerra”. Adiar o fim, portanto, não é conservar: é manter aberto o intervalo em que outro mundo pode ser sonhado. O que ele se recusa a apressar não é o fim do mundo injusto — é o fim da possibilidade de sonhar um justo.

É preciso cortar antes de aproximar. Nossa língua forjou uma palavra para o que ele parece propor: a colapsologia, o estudo de um colapso possível da civilização industrial, para encará-lo e decidir serenamente o que fazer com ele. Krenak retoma as mesmas palavras — adiar, desacelerar — e as esvazia. O fim, para ele, não está à frente, mas atrás, e continua; e o que sustenta o mundo não é um freio aplicado ao mesmo mundo, mas a passagem a outro, pelo sonho. A colapsologia mede a queda de um mundo e quer ganhar tempo sobre ela; Krenak, que já atravessou uma queda, pergunta de que mundo ainda somos capazes de sonhar. Uma faz do fim um objeto de futuro; a outra já o viveu como experiência e se volta para o que recomeça. O tênue terreno que compartilham — recusar o homem que se sobrepõe ao seu destino — não deve ocultar que um calcula um prazo e o outro muda de mundo.

Seu gesto tampouco é aquele que já lhe conhecemos: a fruição, saborear a vida em vez de torná-la útil, se dá numa vida; adiar o fim do mundo se dá na escala dos mundos e de seus fins. Para saborear, ainda é preciso que um mundo se sustente — e é o sonho, diz Krenak, que o sustenta.

Resta a pergunta que ele deposita em nossa língua, e que podemos nos fazer sem responder pelo outro: não quanto tempo nos resta, mas de que mundo ainda somos capazes de sonhar.

Fontes citadas

  • Ailton Krenak, A vida não é útil, ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. trad. maison (du portugais).