A terra que ensina
Para Leanne Betasamosake Simpson, escritora michi saagiig nishnaabeg, a inteligência não se acumula: ela se gera no fazer, em contato com Aki, a terra. Não se obtém diploma de Nishnaabewin.
Na bétula, no fim do inverno, uma criança se deita aos pés dos bordos. A neve derrete, o lago se abre, o primeiro sol morno toca as faces. Acima, num galho, um esquilo se agita — mas não faz reservas, não constrói seu ninho: rói a casca, depois suga o que escorre. Rói, suga. Rói, suga. A criança, intrigada, imita-o num galho baixo e prova uma água doce. Foi assim, no relato retomado por Leanne Betasamosake Simpson, que os seus chegaram ao açúcar de bordo: não numa sala, não por uma lição, mas no bosque, ao lado de um pequeno animal que já sabia.
Para Simpson, escritora michi saagiig nishnaabeg, essa cena não é um episódio enternecedor. É uma tese sobre o que é conhecer.
inglês the context is the curriculum, and land, Aki, is the context.
português le contexte est le programme, et la terre, Aki, est le contexte.
Inverter assim a ordem habitual tem consequências. Se a terra é o programa, não existe um programa padrão: não se pode elaborar de antemão a lista do que cada um deverá saber, porque a terra, Aki, é ao mesmo tempo o contexto e o processo — ela coloca as perguntas e é o lugar onde se responde a elas. A criança não recebeu uma informação “açúcar de bordo”; foi colocada num mundo — os bordos, o esquilo, a estação, a fome — que a levou a descobri-lo. O saber não foi transmitido: foi gerado.
E gera-se pelo gesto, não apenas pelo pensamento. Simpson leva a ideia às últimas consequências: fazer produz mais saber; o erro produz saber, o fracasso produz saber; e — a frase corta — a única coisa que não produz saber é o pensamento em si mesmo e por si mesmo, porque é um dado criado na disjunção, no isolamento, sem movimento. Pensar à parte do mundo, imóvel, não fabrica nada: no máximo, um dado desvinculado do que lhe daria corpo.
Daí vem a palavra que sustenta o edifício. A soma dessas práticas, desses saberes e dessa ética — a língua, a pesca, o arroz selvagem, a cerimônia, a governança —, Simpson a chama de Nishnaabewin: all of the associated practices, knowledge, and ethics that make us Nishnaabeg and construct the Nishnaabeg world, tudo o que nos faz Nishnaabeg e constrói o mundo nishnaabeg. Não é um corpo de doutrina que se possua, mas uma geração contínua, que se refaz ao vivê-la.
inglês You can’t graduate from Nishnaabewin; it is a gift to be practiced and reproduced.
português On n’obtient pas de diplôme de Nishnaabewin ; c’est un don qui se pratique et se reconduit.
O que é Nishnaabewin?
Nishnaabewin é uma palavra em nishnaabemowin que Leanne Betasamosake Simpson traduz por “tudo isso”: o conjunto das práticas, dos saberes e da ética que fazem os Nishnaabeg e constroem seu mundo. Não um corpus a memorizar, mas uma inteligência que se gera ao vivê-la, em contato com a terra. Não se obtém diploma dela; reconduz-se.
Coloquemos em paralelo nossa própria ideia de educação — não para condená-la, mas para medir o distanciamento. Para nós, saber é, antes de tudo, receber um conteúdo: um programa definido de antemão, o mesmo para todos, que um mestre transmite e que se acaba por dominar; a escola é uma instituição da qual se sai diplomado, munido de um saber tornado portátil, que se leva para onde se quiser. O pensamento assentado, retirado, passa por ser o próprio assento da teoria. A educação vem das raízes para cima; vem do que nos envolve a terra, responde Simpson: não há educação indígena a não ser que passe pela terra. O conteúdo do açúcar de bordo pode ser copiado — ferver a seiva, extrair o xarope; o que se perde na cópia é o mundo de relações em que uma criança o aprende. Exporta-se uma receita; não se exporta uma bétula, uma estação, um esquilo, uma família.
Aí está a divisão, e é preciso mantê-la clara. De um lado, um saber-coisa que se acumula numa cabeça e se transfere de uma cabeça a outra; do outro, uma inteligência que só existe em ato, num lugar, entre viventes. Um se guarda e se carrega; o outro se sustenta fora, e se desfaz quando se deixa de fazê-lo.
Resta uma pergunta que a bétula deixa em aberto, sem resolvê-la por nós. Quando queremos saber algo, onde o buscamos: numa cabeça em repouso, que pensa à parte do mundo — ou lá fora, sob o bordo, ao lado do esquilo que já sabia?
Fontes citadas
- Leanne Betasamosake Simpson, As We Have Always Done: Indigenous Freedom through Radical Resistance, ed. University of Minnesota Press, 2017, trad. texte original anglais ; rendu français maison.