A terra que ensina

Para Leanne Betasamosake Simpson, escritora michi saagiig nishnaabeg, a inteligência não se acumula: ela se gera no fazer, em contato com Aki, a terra. Não se obtém diploma de Nishnaabewin.

A terra que ensina
Asher Brown Durand — Na Floresta (1855). Metropolitan Museum of Art ; domínio público (CC0).

Na bétula, no fim do inverno, uma criança se deita aos pés dos bordos. A neve derrete, o lago se abre, o primeiro sol morno toca as faces. Acima, num galho, um esquilo se agita — mas não faz reservas, não constrói seu ninho: rói a casca, depois suga o que escorre. Rói, suga. Rói, suga. A criança, intrigada, imita-o num galho baixo e prova uma água doce. Foi assim, no relato retomado por Leanne Betasamosake Simpson, que os seus chegaram ao açúcar de bordo: não numa sala, não por uma lição, mas no bosque, ao lado de um pequeno animal que já sabia.

Para Simpson, escritora michi saagiig nishnaabeg, essa cena não é um episódio enternecedor. É uma tese sobre o que é conhecer.

inglês

the context is the curriculum, and land, Aki, is the context.

português

le contexte est le programme, et la terre, Aki, est le contexte.

Leanne Betasamosake Simpson, As We Have Always Done  — ed. a partir da tradução francesa de [tradutor não mencionado], University of Minnesota Press, 2017, trad. viasophia

Inverter assim a ordem habitual tem consequências. Se a terra é o programa, não existe um programa padrão: não se pode elaborar de antemão a lista do que cada um deverá saber, porque a terra, Aki, é ao mesmo tempo o contexto e o processo — ela coloca as perguntas e é o lugar onde se responde a elas. A criança não recebeu uma informação “açúcar de bordo”; foi colocada num mundo — os bordos, o esquilo, a estação, a fome — que a levou a descobri-lo. O saber não foi transmitido: foi gerado.

E gera-se pelo gesto, não apenas pelo pensamento. Simpson leva a ideia às últimas consequências: fazer produz mais saber; o erro produz saber, o fracasso produz saber; e — a frase corta — a única coisa que não produz saber é o pensamento em si mesmo e por si mesmo, porque é um dado criado na disjunção, no isolamento, sem movimento. Pensar à parte do mundo, imóvel, não fabrica nada: no máximo, um dado desvinculado do que lhe daria corpo.

Daí vem a palavra que sustenta o edifício. A soma dessas práticas, desses saberes e dessa ética — a língua, a pesca, o arroz selvagem, a cerimônia, a governança —, Simpson a chama de Nishnaabewin: all of the associated practices, knowledge, and ethics that make us Nishnaabeg and construct the Nishnaabeg world, tudo o que nos faz Nishnaabeg e constrói o mundo nishnaabeg. Não é um corpo de doutrina que se possua, mas uma geração contínua, que se refaz ao vivê-la.

inglês

You can’t graduate from Nishnaabewin; it is a gift to be practiced and reproduced.

português

On n’obtient pas de diplôme de Nishnaabewin ; c’est un don qui se pratique et se reconduit.

Leanne Betasamosake Simpson, As We Have Always Done , livro Land as Pedagogy (cap. 9)  — ed. a partir da tradução francesa de [tradutor não mencionado], University of Minnesota Press, 2017, trad. viasophia

O que é Nishnaabewin?

Nishnaabewin é uma palavra em nishnaabemowin que Leanne Betasamosake Simpson traduz por “tudo isso”: o conjunto das práticas, dos saberes e da ética que fazem os Nishnaabeg e constroem seu mundo. Não um corpus a memorizar, mas uma inteligência que se gera ao vivê-la, em contato com a terra. Não se obtém diploma dela; reconduz-se.

Coloquemos em paralelo nossa própria ideia de educação — não para condená-la, mas para medir o distanciamento. Para nós, saber é, antes de tudo, receber um conteúdo: um programa definido de antemão, o mesmo para todos, que um mestre transmite e que se acaba por dominar; a escola é uma instituição da qual se sai diplomado, munido de um saber tornado portátil, que se leva para onde se quiser. O pensamento assentado, retirado, passa por ser o próprio assento da teoria. A educação vem das raízes para cima; vem do que nos envolve a terra, responde Simpson: não há educação indígena a não ser que passe pela terra. O conteúdo do açúcar de bordo pode ser copiado — ferver a seiva, extrair o xarope; o que se perde na cópia é o mundo de relações em que uma criança o aprende. Exporta-se uma receita; não se exporta uma bétula, uma estação, um esquilo, uma família.

Aí está a divisão, e é preciso mantê-la clara. De um lado, um saber-coisa que se acumula numa cabeça e se transfere de uma cabeça a outra; do outro, uma inteligência que só existe em ato, num lugar, entre viventes. Um se guarda e se carrega; o outro se sustenta fora, e se desfaz quando se deixa de fazê-lo.

Resta uma pergunta que a bétula deixa em aberto, sem resolvê-la por nós. Quando queremos saber algo, onde o buscamos: numa cabeça em repouso, que pensa à parte do mundo — ou lá fora, sob o bordo, ao lado do esquilo que já sabia?

Fontes citadas

  • Leanne Betasamosake Simpson, As We Have Always Done: Indigenous Freedom through Radical Resistance, ed. University of Minnesota Press, 2017, trad. texte original anglais ; rendu français maison.