Reinventar práticas coletivas de cuidado: colaborações precárias e ruptura sagrada

Duas vozes para pensar o cuidado fora das lógicas extrativistas

Reinventar práticas coletivas de cuidado: colaborações precárias e ruptura sagrada
Guercino — Natureza-morta com vanitas, de Giovanni Francesco Barbieri. Wikimedia Commons, Public domain (CC0).

Seguir os matsutakes é interessar-se por vidas que se desdobram nos interstícios de um sistema que as ignora ou explora. É também observar como práticas emergem sem projeto prévio, sem intenção coletiva declarada. Anna Tsing propõe olhar para esses catadores do Oregon — trabalhadores precários, veteranos, imigrantes sem documentos — cuja atividade cotidiana liga florestas degradadas a mercados de luxo. Sua própria existência questiona: o que significa cuidar quando as estruturas dominantes não o permitem?

Catadores nas ruínas

Seguir os matsutakes é interessar-se pelos catadores do Oregon, esses trabalhadores precários, veteranos das guerras americanas, imigrantes sem documentos, que vendem todas as noites os cogumelos colhidos durante o dia e que acabarão como produtos de luxo nas prateleiras das mercearias finas japonesas.

Anna Tsing, Le Champignon de la fin du monde  — ed. a partir da tradução francesa, trad. viasophia

Esses catadores não são descritos como heróis ou resistentes. Sua atividade não é apresentada como uma alternativa política ou uma forma de militância. Ela simplesmente está ali, nas margens de um sistema que não lhes concede lugar estável. Os matsutakes crescem em florestas danificadas pela exploração industrial, e esses catadores os colhem em condições de extrema precariedade. Seu trabalho não transforma o mundo, mas persiste apesar de tudo.

Tsing não propõe um modelo a seguir. Não diz que essas práticas são soluções. Mostra apenas que elas existem, e que sua existência é uma forma de resposta a um mundo que as torna invisíveis. Os cogumelos se tornam produtos de luxo, mas os catadores permanecem fora dos relatos dominantes. Seu cuidado, se é que há algum, é o da persistência: continuar vivendo, colhendo, vendendo, apesar de tudo.

A máquina de fazer coisas

Diante dessa persistência precária, Ailton Krenak propõe um caminho completamente distinto. Para ele, o problema não é apenas a exploração ou a precariedade, mas a própria lógica que transforma tudo em recurso. Essa lógica, ele a nomeia sem rodeios:

A MÁQUINA DE FAZER COISAS — Texto elaborado a partir da live Conversa Selvagem, com Ailton Krenak e Marcelo Gleiser, 17 abr.

Ailton Krenak, A vida n o til  — ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2020" maison nomLangSource="português

A “máquina de fazer coisas” não é uma metáfora abstrata. Designa um sistema que reduz a Terra, os corpos e as relações a objetos exploráveis. Krenak não descreve essa máquina para propor uma reforma. Ele clama por uma ruptura radical, por uma saída dessa lógica. Para ele, o cuidado só pode emergir nessa ruptura.

Ao contrário dos catadores de Tsing, cujas práticas se desdobram nos interstícios do sistema, Krenak exige uma recusa categórica desse sistema. Não se trata de encontrar margens onde sobreviver, mas de restaurar relações que foram destruídas pela modernidade extrativista. Essas relações não são precárias: são sagradas. Elas ligam os humanos à Terra, aos ancestrais, aos não-humanos, numa interdependência que não precisa de justificativa econômica ou política.

Duas trajetórias, uma mesma recusa

Essas duas vozes não se encontram numa síntese fácil. Tsing observa práticas que persistem apesar do sistema, sem idealizá-las. Krenak exige uma ruptura com esse sistema, sem propor um plano de ação concreto. No entanto, compartilham uma mesma recusa: a de ver o cuidado como uma questão técnica ou institucional.

Para Tsing, o cuidado não é uma política, mas uma prática que emerge onde não se espera. Para Krenak, o cuidado não é uma ação, mas uma maneira de estar em relação com o que nos ultrapassa. Nem uma nem outra transformam o cuidado em solução pronta. Elas o apresentam como uma questão aberta, uma tensão a sustentar.

Os catadores de matsutakes não formam uma comunidade unida por um projeto. Sua atividade não é uma resistência organizada. Ela simplesmente está ali, nas ruínas do capitalismo, como um vestígio do que persiste apesar de tudo. Krenak, por sua vez, não fala de persistência, mas de reativação. Não se trata de sobreviver nas margens, mas de restaurar relações que foram quebradas pela “máquina de fazer coisas”.

Essas duas trajetórias não convergem. Não se complementam. Coexistem, como duas respostas possíveis a um mesmo impasse. Uma mostra que práticas de cuidado podem emergir mesmo nas condições mais precárias. A outra lembra que o cuidado só pode existir numa ruptura com as lógicas que o tornam impossível.

Nem uma nem outra propõem um modelo. Não dizem como organizar coletivos, nem como negociar com os poderes estabelecidos. Mostram apenas que o cuidado, se deve existir, não pode se contentar com os quadros dominantes. Deve ou se aninhar em seus interstícios, ou recusá-los radicalmente.

Fontes citadas

  • Anna Tsing, Le Champignon de la fin du monde, ed. .
  • Ailton Krenak, A vida n o til, ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. trad. maison (du portugais).