O que força não dura

Lao-Tsé: o vento violento cai por si mesmo, inútil combatê-lo. A Gītā: o fogo do desejo é insaciável, corta-se. Mesmo repúdio à força como mestre, dois gestos opostos.

O que força não dura
Dapeng Zhengkun (Taihō Shōkon) — Bambu na Neve (1774). The Metropolitan Museum of Art, CC0.

Lettrine L gravada, estilo Art nouveau, rodeada de floresO golpe de vento vergasta as árvores, faz estalar o que sobressai, levanta a poeira do caminho; depois, antes do meio-dia, o céu já esqueceu tudo. A rajada mais brutal é também a mais breve — como se a violência trouxesse em si a medida do próprio fim. Um texto antigo faz dessa observação sobre o tempo uma partilha entre o que se mantém e o que não se mantém.

Um vento rápido não dura toda a manhã; uma chuva violenta não dura o dia inteiro. Quem produz essas duas coisas? O céu e a terra. Se o próprio céu e a terra não podem subsistir por muito tempo, quanto mais o homem!

Lao-Tsé, Tao Te King , cap. XXIII  — ed. segundo a tradução francesa de Stanislas Julien, Imprimerie royale, 1842 (Wikisource)

O argumento vai do maior ao menor, e desarma. A tempestade não é um mero acidente do tempo: é obra do céu e da terra, das próprias forças que constituem o mundo. E estas não sustentam seu excesso além de uma manhã. Se as maiores potências não conseguem manter o que há de violento nelas, quanto durará uma empreitada humana erguida sobre a força? A ideia não é um juízo — não diz que a violência é má —, mas quase uma física: o que força gasta, e o que gasta se esgota. A rajada não se sustenta porque nada a renova por baixo; é toda superfície, toda saída.

O que dura, então? A resposta do capítulo não é “o suave em vez do violento”, mas “o que se harmoniza em vez do que força”. Algumas linhas adiante: “se o homem se entrega ao Tao, identifica-se com o Tao”; e “quem se identifica com o Tao ganha o Tao”. Durar não se conquista, harmoniza-se. Quem se ajusta ao curso das coisas recebe sua permanência; quem se opõe a ele toma o destino da tempestade. É a lógica do wu-wei, o agir que não força: não se abster, mas não gastar contra a corrente. O bambu vergado sob a neve não luta contra o peso; inclina-se, deixa escorregar a carga, endireita-se quando o branco derrete — enquanto o galho rígido, que resistiu, jaz partido.

Por que o que é violento não dura?

Para Lao-Tsé, o vento rápido e a chuva violenta são obra do próprio céu e da terra — e, no entanto, não duram nem uma manhã nem um dia. A violência gasta uma força que não renova: esgota-se em seu próprio excesso. Só o que se harmoniza com a via, sem combatê-la, se mantém.

Há, porém, uma violência que não cai antes do meio-dia. Sob outro céu, numa epopeia em que um guerreiro hesita à beira do combate, Arjuna pergunta a Krishna o que inverte o problema para dentro: “por que o homem é induzido ao pecado, sem querer, como que empurrado por uma força alheia?” A resposta não descreve uma rajada, mas um fogo:

É o amor, é a paixão, nascida das Trevas; ela é devoradora, cheia de pecado; sabe que é uma inimiga aqui na terra. Como a fumaça cobre a chama, e a ferrugem o espelho, como o útero envolve o feto, assim essa fúria cobre o mundo. Inimiga eterna do sábio, ela obscurece o conhecimento. Como uma chama insaciável, muda de forma à vontade.

Krishna (atrib.), Bhagavad-Gītā , § 37-39  — ed. segundo a tradução francesa de Émile Burnouf, Librairie de l'Institut, 1861 (Wikisource)

Essa “força alheia” que impele o homem contra sua vontade é o desejo — o kāma. E tudo, no retrato traçado por Krishna, contraria a brevidade da rajada. A paixão é “inimiga eterna”, “insaciável”; “muda de forma à vontade”: longe de se esgotar em seu excesso, alimenta-se do que devora. O vento cai porque nada o sustenta por baixo; o fogo do desejo, porém, tem raízes — os sentidos, a mente, a razão, que colonizou. Por isso, o remédio não é esperar que passe. A Gītā não propõe deixar estar, mas cortar: “refreia teus sentidos desde o princípio, e destrói essa pecadora que rouba o conhecimento”; “afirma-te em ti mesmo, e mata um inimigo de formas cambiantes”.

Eis, pois, duas violências, e dois gestos que não se confundem. A de Lao-Tsé é externa, cósmica, e se limita a si mesma: a rajada cessa sozinha, e a única sabedoria é não acrescentar a ela a própria força — deixar o vento cair. A da Gītā é interna, e não conhece medida: o desejo nunca cessa por si, e a sabedoria torna-se combate — cortar o fogo. Para um, o real oferece o fim da tempestade; para o outro, nada o concede: arranca-se. Não agir contra a rajada, agir com toda a alma contra a chama — não são dois nomes de uma mesma atitude. Não se domina o fogo de dentro com o desapego que basta para o vento de fora.

E, no entanto, os dois olhares se encontram num ponto que nenhum cede ao outro. Nenhum toma a violência como mestre ou medida. O que dura, o que liberta, ambos o situam fora da força: na harmonia com a via, ou nesse “mais forte que a razão” que a Gītā chama de si. E sob o gesto oposto aflora uma mesma intuição: a violência não está em casa no real. Arjuna a chama de “força alheia”, que vem apesar de si; Lao-Tsé a vê como um sobressalto do céu que não é a via do céu. Sobreposta, sem morada própria. Daí seu destino, dos dois lados: o que não está em casa não se sustenta — seja porque se deixa cair por falta de raízes, seja porque se extirpa por ter criado raízes onde não devia. Mesmo exílio pronunciado contra a violência; duas mãos para reconduzi-la para fora.

Resta reconhecer, diante do que nos arrasta, de que violência se trata: aquela que passaria se deixássemos de responder a ela, ou aquela que, oculta sob nós, espera que deixemos de acreditar que passará.

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Fontes citadas