Todo ser vivo treme
O Dhammapada não mata porque reconhece no outro o mesmo medo; Lao-Tsé não se regozija com a vitória porque matar é luto. Dois solos para uma mesma contenção.
O pássaro pequeno que bicava o chão não precisou aprender o medo: basta uma sombra passar por cima dele para que se imobilize e fuja. Antes de qualquer pensamento, o ser vivo sabe o que o ameaça e quer durar. É desse tremor — não de uma lei caída do alto — que um texto antigo faz o próprio solo da contenção.
Todos tremem diante da violência, todos tremem diante da morte. Faça-se ao outro o que se desejaria para si; não se mate; não se faça matar. Todos tremem diante da violência, para todos a vida é cara.
O versículo não ordena primeiro; faz primeiro olhar. Antes da proibição — « não se mate » —, ele constata um fato que cada um carrega no próprio corpo: aquele calafrio diante do que fere, aquele apego à vida que não se racionaliza. E extrai daí a contenção pelo caminho mais curto: o que treme em mim também treme diante de mim. A regra não desce de uma autoridade; ela sobe da carne comum.
Dois detalhes apertam ainda mais a fórmula. A proibição não diz apenas « não mates », mas também « não se faça matar »: a mão que ordena, que delega, que desvia o olhar enquanto outro golpeia, não está limpa por ter mantido os dedos imaculados. E a medida não se detém no semelhante: um pouco adiante, o mesmo capítulo louva aquele que vive « sem fazer mal a nenhum ser » — nenhum, sem a fronteira que costumamos traçar entre as vidas que contam e as que não contamos.
O que é ahiṃsā?
A ahiṃsā é a não-violência: abster-se de ferir ou matar tudo o que vive. A palavra sânscrita une o privativo a- a hiṃsā, « o ato de causar dano ». Não é uma simples passividade nem uma lei imposta, mas uma contenção que nasce de um reconhecimento: o outro teme o sofrimento e ama a vida exatamente como eu.
Essa via tem seu avesso, que o Dhammapada enuncia sem rodeios: aquele cuja violência maltrata os seres, « por mais que deseje a felicidade para si mesmo, não a desfruta após a morte ». Ferir o vivo é barrar a si mesmo a felicidade que se buscava. A contenção, portanto, não é um sacrifício feito a contragosto: é a própria condição daquela felicidade que a violência julga conquistar e só faz perder.
Sob outro céu, numa língua que não fala de renascimento nem de felicidade póstuma, um sábio sustenta uma contenção próxima — mas chega a ela por uma porta bem diferente. Lao-Tsé não parte do tremor alheio. Não olha ninguém de frente; olha a ordem do mundo e vê que as armas pertencem ao lado da morte.
As armas mais excelentes são instrumentos de infortúnio. […] Só se recorre a elas quando não há como evitá-lo, e coloca-se em primeiro lugar a calma e o repouso. Se triunfa, não se regozija. Regozijar-se é amar matar os homens.
Aqui não há compaixão que se identifique com a vítima. O Tao Te King não diz « o inimigo treme como tu »; diz que a arma, ainda que « a mais excelente », permanece « um instrumento de infortúnio », e que aquele que possui o caminho « não se apega a ela ». Quando a guerra se impõe, o sábio a conduz colocando em primeiro plano a calma e o repouso — não-agir até mesmo na ação, só travar batalha no limite do inevitável. E a própria vitória não se celebra: « quem matou uma multidão de homens deve chorá-los com lágrimas e soluços »; o vencedor, acrescenta o texto, é colocado « segundo os ritos fúnebres ». O massacre, mesmo vencido, continua sendo luto.
As duas vias não se confundem. O Dhammapada vai de dentro para fora: tomo a mim mesmo como medida e, no outro, reconheço o meu próprio medo — é a compaixão que detém a mão. Lao-Tsé vai da ordem do mundo ao gesto: matar pertence ao princípio sombrio, cerca-se dos ritos do luto mesmo quando se vence — é a gravidade do mundo, não a identificação com a vítima, que retém. Um mede pelo temor alheio; o outro, pelo lugar que toda morte ocupa no equilíbrio das coisas. Reconhecer ≠ deplorar.
E, no entanto, no ponto mais alto, ambos recusam uma única e mesma coisa: que matar se torne leve, corriqueiro, alegre. O critério, no cume, não é a proibição — ambos retêm a mão —, mas a disposição do coração. Para o Dhammapada, quem fere « não desfruta » da felicidade que buscava. Para Lao-Tsé, regozijar-se com a vitória « é amar matar os homens », e quem ama matar « não pode governar o império ». Dos dois lados, é a exultação diante do sangue derramado que marca a perda — o ponto em que algo essencial se apaga. A compaixão que sente o outro tremer e o luto que chora até o vencido são duas sentinelas distintas postadas diante da mesma porta: aquela por onde a morte deixaria de ser grave.
Resta o que nem a compaixão nem o luto decidem por nós. Quando algo treme sob nosso poder — um animal, um ser sem voz, aquilo de que dispomos sem que possa nos dizer nada —, ainda o sentimos tremer? Ou aprendemos a não ver mais do que o uso que dele tiraremos?
À lire aussi
- La racine avideLe Dhammapada arrache la convoitise comme on déracine une liane ; Spinoza tient le désir pour l'essence même de l'homme. Déraciner, ou comprendre — deux voies pour n'être plus traîné.
- Les vigilants ne meurent pasLe Dhammapada nomme une négligence qu'Épictète, à la même époque, retrouve sous un autre angle
- Le fruit sauvage et le bois brutMontaigne retourne le mot « barbare » sur celui qui le prononce ; Lao-Tseu revient au bloc d’avant la taille. Deux défiances du regard qui prend l’ouvré pour la mesure.
Fontes citadas
- trad. attribuée à Bouddha, Dhammapada, ed. Ernest Leroux, 1878 (Wikisource), trad. Fernand Hû.
- Lao-Tseu, Tao Te King, ed. Imprimerie royale, 1842 (Wikisource), trad. Stanislas Julien.