A mesa que dança
Marx descreve a mercadoria na língua da teologia. O velho remédio dos sábios — desejar menos — nada pode contra isso.
Assim que uma mesa de madeira deixa de ser um móvel para se tornar mercadoria, escreve Marx, ela começa a dançar. A imagem irrompe no trecho mais árido de O Capital, ali onde o mais materialista dos pensadores deveria falar apenas de valor, trabalho e quantidades mensuráveis. Em vez disso, convoca fantasmas. Uma mercadoria, diz ele, parece à primeira vista « algo trivial e que se compreende por si mesmo »; a análise revela o contrário — uma coisa « cheia de sutilezas metafísicas e de argúcias teológicas ».
A forma da madeira, por exemplo, é alterada quando se faz dela uma mesa. No entanto, a mesa continua sendo madeira, uma coisa comum e que cai sob os sentidos. Mas assim que se apresenta como mercadoria, a história é outra. Ao mesmo tempo apreensível e inapreensível, não lhe basta apoiar os pés no chão; ela se ergue, por assim dizer, sobre sua cabeça de madeira diante das outras mercadorias e se entrega a caprichos mais estranhos do que se começasse a dançar.
A madeira não mudou. O mesmo tronco, aplainado, sustenta os mesmos objetos. O que se acrescentou não se vê, não se pesa, não se toca, e no entanto governa tudo: um preço, um valor, um lugar na ordem invisível em que cada coisa vale tanto de outra. É esse excedente impalpável que Marx, ateu metódico, só sabe nomear com o vocabulário da religião. Caprichos, região nebulosa, forma fantástica, e a palavra que intitula a página: fetichismo.
A escolha da palavra não é um capricho de estilista. O fetiche é o objeto fabricado — facticius — que seu fabricante acaba por adorar como se sua força emanasse dele próprio. Marx descreve exatamente essa inversão: produtos da mão humana que se erguem diante dos homens e lhes ditam a lei. Resta dizer onde mora o sortilégio.
É apenas uma relação social determinada entre os homens que aqui reveste para eles a forma fantástica de uma relação entre coisas. Para encontrar uma analogia a esse fenômeno, é preciso buscá-la na região nebulosa do mundo religioso.
O que Marx chama de « fetichismo da mercadoria »?
Não uma ilusão de ótica, não um erro que se corrigiria abrindo os olhos. O fetichismo, para Marx, é o fato de que relações entre pessoas — quem trabalha para quem, quem se esforça e quem recebe — assumem o aspecto de relações entre coisas: tanto de tecido vale tanto de casaco, como se o valor fosse uma propriedade do pano tanto quanto sua cor. O vínculo entre os homens migrou para os objetos e ali parece fixado. Daí sua fórmula: « o fetichismo ligado aos produtos do trabalho », um fetichismo « inseparável desse modo de produção ». Inseparável: não se dissipa pela lucidez, porque não está na cabeça de quem olha. Está na própria forma que a coisa assume assim que se produz para vender.
É aqui que uma sabedoria muito antiga esbarra em Marx — e que é preciso evitar confundi-los.
Pois os Antigos também conheciam uma magia dos bens. Mas a situavam em outro lugar. Para eles, o sortilégio não residia no objeto: residia na alma que o cobiça. Sêneca, em sua segunda carta a Lucílio, sussurra ao amigo uma arma que confessa ter roubado « do campo inimigo », de Epicuro:
Não é por ter pouco, mas por desejar mais, que se é pobre.
Todo o remédio está aí, e é imenso: a pobreza não é uma quantidade, é uma tensão da alma. Desloca a medida do cofre para o desejo, acalma o desejo, e a riqueza deixa de te ser negada — torna-se sem objeto. Os Antigos classificavam o desejo entre o que depende de nós: terreno que ninguém nos toma, onde cada um pode, pela disciplina, desfazer o encantamento. Vê claro, deseja menos, e o feitiço dos bens se quebra.
Marx não diz o contrário. Diz outra coisa, que passa ao lado. O sábio de Sêneca, purgado de toda cobiça, atravessa o mercado sem ser tocado — seja. Mas o mercado, esse, não é tocado. A mesa continua a dançar. O fetiche não dependia da sua cupidez; depende da forma social da coisa, e essa forma se mantém de pé, quer se deseje ou não. Pode-se ter extinto em si até o último apetite: o valor das mercadorias continua a se regular, pelas suas costas, por uma relação que nenhuma ascese alcança, porque nunca esteve alojado onde a ascese atua. A liberdade interior liberta uma alma. Deixa o fetiche intacto.
Dois diagnósticos de um mesmo mal-estar, portanto, e dois lugares para o mal. Um no sujeito que deseja, e que uma vida pode curar. O outro na coisa e em sua sombra social, que nenhuma conversão do olhar desata. Nenhum dos dois está errado em sua língua. Mas o mais antigo conselho da sabedoria — deseja menos — depara-se aqui com um muro que não havia previsto: um sortilégio que não espera nada do nosso coração para operar.
A mesa, essa, continua a girar — quer alguém, na sala, ainda a deseje ou não. É a coisa nova, aquela que nem Epicuro nem Sêneca tinham visto chegar: um desejo passado para os próprios objetos, e que não precisa mais do nosso para continuar sua dança.
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Fontes citadas
- Karl Marx, Le Capital, Livre I, ed. Maurice Lachâtre, 1872, trad. Joseph Roy.
- Sénèque, Lettres à Lucilius, ed. Wikisource (trad. Joseph Baillard, Hachette 1914), trad. Joseph Baillard.