Ovoo

Entre os tuvanos do Altai, como relata Galsan Tschinag, desmonta-se diante de um amontoado de pedras para saudar o senhor de um lugar — gesto que um mundo apressado quis apagar.

Ovoo
Wu Li — Viajantes entre Rios e Montanhas (por volta de 1670). Metropolitan Museum of Art, CC0 / domínio público.

No cume de um passo no Alto Altai, onde a trilha se inclina de uma encosta para outra, o cavaleiro tuvano desmonta. Acrescenta uma pedra a um montículo que já traz milhares, amarra uma fita a um galho fincado no topo, contorna-o no sentido do sol. O montículo chama-se ovoo. É o mundo da infância que Galsan Tschinag, pastor tornado escritor, narra por dentro no segundo volume de sua trilogia. Logo nas primeiras páginas, um glossário oferece a definição mais árida.

inglês (trad. do alemão)

cairn of sacred stones, erected for the spirits of the respective location and used for offerings and other religious ceremonies

português

marco de pedras sagradas, erguido para os espíritos do local em questão e utilizado para oferendas e outros rituais religiosos

Galsan Tschinag, The Gray Earth, glossário  — ed. a partir da tradução francesa de Katharina Rout, Milkweed Editions, 2010, trad. viasophia

A palavra não tem nada de marco turístico. Um ovoo não indica um belo mirante: sinaliza que um lugar tem um senhor. O passo, a nascente, o trecho perigoso são habitados por uma presença a quem se deve, ao passar, uma saudação e um dom. Daí o gesto elementar que Tschinag atribui a seus antepassados e que a conversão de um velho, contaminado pelo espírito da época, mede em negativo: Mijtik, o avô, jura agora livrar-se de toda superstição, never again dismounting at an ovoo or making offerings elsewhere — nunca mais desmontar diante de um ovoo nem fazer oferendas em lugar algum. O que ele renuncia a fazer revela o que o gesto fazia: reconhecer, com o corpo incluso, que não se atravessa um lugar como se atravessa o vazio.

O que se oferece ao ovoo não é irrelevante. Tschinag observa que as fitas ali amarradas can be of any length and width and of any color except black — de qualquer comprimento, largura e cor, exceto o preto, reservado ao luto. Uma gramática da deferência, em que até a cor de um retalho de pano faz sentido. E que, por simetria, torna a profanação pensável: no mesmo livro, uma aluna transformada pelo internato acaba declarando que não hesitaria mais em crap on an ovoo — sujar um ovoo, queimar o manto de um xamã, despedaçar seu tambor. Só se ofende aquilo que se toma por alguém. O desprezo, aqui, é a prova invertida de que o ovoo se dirigia a um presente, e não a uma pedra.

Pois o mundo do ovoo toma a terra por um corpo. Quando os alunos, com picaretas em punho, atacam uma margem para abrir uma vala, o narrador não descreve uma obra, mas uma ferida.

inglês (trad. do alemão)

we are full of bluster as we launch our attack on the Mother Earth’s body. We pry it open, drive our steel tools inside, poke around, and begin to dig a ditch.

português

Cheios de fanfarronice, lançamo-nos ao ataque contra o corpo da Mãe-Terra. Forçamo-la a abrir-se, cravamos nela nossas ferramentas de aço, remexemos em seu interior e começamos a cavar uma vala.

Galsan Tschinag, The Gray Earth  — ed. a partir da tradução francesa de Katharina Rout, Milkweed Editions, 2010, trad. viasophia

Vem um terremoto. O narrador o ouve como a ira da Mãe-Terra ferida, e seu irmão será considerado culpado — não por ter cavado, mas por ter recebido dos espíritos a mensagem de que a terra tremeria e ter se calado: that someone stayed silent instead of passing on the message from the spirits—that is cause for blood, eis o que merece sangue. Nessa visão, a falta capital não é tocar a terra: é sentir sua dor e guardar silêncio.

É preciso cortar antes de aproximar. Nós também erguemos montes de pedras — no cume de um passo, para marcar uma travessia, sinalizar uma vista, balizar um caminho. Mas nosso marco se dirige a uma paisagem: um espetáculo estendido diante de um olhar, uma superfície que se admira, que se fotografa, e que nada habita. O ovoo se dirige a um sujeito. Não se ergue para ver, mas para ser visto; não se deposita mais uma pedra, oferecem-se deferências a alguém capaz de recebê-las — ou de se sentir ofendido. Onde nossa paisagem é um exterior sem ninguém, o passo tuvano está cheio de um olhar. Só depois de assentada essa diferença é que aflora o ponto comum, estreito: aqui e ali, um lugar pode deixar de ser um mero local. Resta saber, ao desmontar do cavalo, diante do que se detém — um mirante, ou alguém.

Fontes citadas

  • Galsan Tschinag, The Gray Earth (Die graue Erde), ed. Milkweed Editions, 2010 (orig. allemand, Insel Verlag, 1999), trad. Katharina Rout (de l'allemand vers l'anglais) ; rendu français maison.