Akinananti
Chonon Bensho, artista shipibo-konibo, e Pedro Favaron nomeiam um trabalho cuja forma é o amor e a alegria, e cujo fim é o bem de todos — não a eficácia.
CChonon Bensho começa assinando seu nome. No registro civil de Yarinacocha, foi inscrita como Astrith Gonzales; em sua língua materna, o shipibo-konibo, ela é Chonon Bensho — «a andorinha dos pomares de remédios», herdeira do saber de suas ancestrais. Escreve com seu marido, Pedro Favaron, nascido em Lima, que se tornou membro de sua família por aliança: não mais um nawa, um estrangeiro, como se diz em shipibo, mas um elo de uma rede de relações. É daí — uma palavra sustentada a dois, desde o interior de uma parentela, e oferecida para fora — que uma palavra nos chega.
inglês (texto publicado) In the Shipibo language we use the word akinananti to describe work that
is done together with love and joy, work that does not pursue selfish
ends but seeks the benefit of all.
português Na língua shipibo, usamos a palavra akinananti para o trabalho
que se faz em conjunto, com amor e alegria, um trabalho que não persegue
fins egoístas, mas busca o bem de todos.
O português não tem essa palavra de uma só vez. Tem «colaboração», «trabalho em equipe», «ajuda mútua», «voluntariado» — cada uma retém apenas um fragmento. Akinananti não descreve um método para produzir melhor em grupo: nomeia um trabalho cuja afecção (o amor, a alegria) e cujo fim (o bem de todos) não são acréscimos morais à tarefa, mas o que a constitui. Retire-se a alegria, retire-se o bem comum visado, e já não é akinananti — é outra coisa.
Por que o trabalho seria, antes de tudo, uma questão de relação? Porque o mundo, nessa fala, não é feito de coisas. Bensho e Favaron o afirmam com clareza:
Todos os seres vivos provêm de uma fonte comum e participam de uma rede de relações entrelaçadas. Ninguém está na solidão. Antes, estamos todos em relação, em vínculo.
Se todo ser — a planta, o animal do rio, aquele que voa — possui, segundo eles, inteligência, linguagem e parte espiritual, então trabalhar nunca é extrair de um estoque de objetos inertes. É agir dentro de um tecido de laços já existentes. Akinananti é o nome que o labor assume quando o mundo é povoado de sujeitos, não de recursos: não nos associamos para arrancar mais, mas para adensar o vínculo. É isso que contrapõem, sem rodeios, ao «egoísmo competitivo e à crueldade que o mercantilismo nos impôs».
Aqui, é preciso evitar um falso emparelhamento. A biologia da ajuda mútua — Kropotkin ontem, seus herdeiros hoje — mostra que a cooperação é uma estratégia do vivo, mantida porque faz sobreviver. É um fato da natureza, mensurável, mobilizável. Akinananti não se justifica assim: não se apoia na sobrevivência nem no rendimento, pressupõe um cosmo de pessoas e faz da alegria sua forma. A ajuda mútua é um cálculo feliz; akinananti é um modo de habitar o vínculo. Ambos recusam o indivíduo solitário e rival — mas a semelhança vem depois da diferença, nunca antes. Um responde à pergunta como durar; o outro, à pergunta como viver bem entre os viventes.
Resta ouvir o detalhe: não é «os Shipibo pensam que». São duas pessoas nomeadas — uma mulher shipibo-konibo, um homem que entrou em sua família — que oferecem, em acesso livre, uma palavra de sua língua e o pensamento que a sustenta. A palavra vive agora no dicionário. Não nos pede para trabalhar mais juntos. Pede o que se tornaria nosso trabalho se o mundo, ao seu redor, estivesse cheio de sujeitos, e não de coisas.
Fontes citadas
- Chonon Bensho & Pedro Favaron, Ainbon Jakon Joi: The Good Word of an Indigenous Woman, ed. Terralingua, Langscape Magazine, vol. 9 (2020) — texte anglais trad. de l'espagnol par Tirso Gonzales.