Gelassenheit
Disposição da alma que, liberta de todo apego egoísta, se abandona à vontade divina. Não é passividade nem renúncia, mas uma abertura ativa em que o ser se esvazia de si mesmo para deixar advir a obra de Deus nele. Nessa nudez, o homem alcança uma igualdade com o divino, não por fusão, mas por participação em sua luz.
une illumination intérieure : dans cette illumination intérieure ils se hissent par-delà eux-mêmes vers la ressemblance divine, tous se tiennent face à Dieu dans la lumière divine, à ce point égaux qu’ils opèrent œuvre divine.
A Gelassenheit designa esse estado em que a alma, tendo soltado as amarras de seus desejos e representações, se mantém numa disponibilidade pura. Não é a indiferença estóica, que domina as paixões pela razão, mas um desapego mais radical: aquele que consente em não mais querer para si, a fim de que Deus queira em si. Não é uma aniquilação da vontade, mas sua transfiguração, em que o homem se torna o lugar de uma ação que o ultrapassa. A citação de Eckhart ilumina esse movimento: a iluminação interior não é um saber adquirido, mas uma elevação em que o ser se ultrapassa a si mesmo (para além de si mesmos) para entrar na luz divina. Ali, já não age como indivíduo, mas como instrumento de uma obra que o precede e o engloba.
Esse desapego não é uma fuga do mundo, mas uma maneira de nele estar presente de outro modo. A Gelassenheit não suprime as atividades humanas, mas as purifica de seu peso de apropriação. O homem que a experimenta não renuncia a agir, mas age sem atribuir a si o fruto de sua ação. Na luz divina, torna-se igual aos outros (a tal ponto iguais), não por uma uniformidade passiva, mas porque todos participam da mesma fonte. A obra divina que realiza não é sua, mas a de Deus nele. Essa igualdade não é uma dissolução da pessoa, mas seu cumprimento no abandono.
A Gelassenheit distingue-se, assim, da simples resignação. Não é um estado de submissão, mas uma libertação: aquela que permite à alma se manter diante de Deus sem intermediários, numa relação direta em que nada se interpõe. Exige uma vigilância constante, pois o ego sempre busca retomar seus direitos. Mas quando ela advém, revela que o desapego não é uma perda, mas um ganho: o de uma semelhança divina em que o homem, esvaziado de si mesmo, torna-se capaz de receber o que o transcende.