O amigo e o adulador
Cícero expulsa da amizade o adulador que diz sempre sim; Lao-Tsé separa a palavra elegante da palavra sincera. Duas vias para uma palavra que nada busca em quem a escuta.
Reprender um próximo é arriscar desagradá-lo; aprová-lo não custa nada. Diante de seu erro, duas palavras se apresentam — uma que o desculpa e consola, outra que o nomeia e corrige —, e a primeira é sempre a mais doce, tanto para dar quanto para receber. Dessa inclinação quase imperceptível, duas tradições muito distantes fizeram seu tema: aquela que separa a palavra que agrada da palavra que é verdadeira.
Cícero a resume num verso de Terêncio que faz seu: « A complacência adula, e a verdade fere. » Todo o perigo da amizade reside nessa partilha. A verdade que fere cura, enquanto a complacência, ao poupar o amigo, deixa o mal se instalar. Assim, nas últimas páginas do Lélio, a amizade verdadeira — aquela que, diz ele, faz de duas almas uma só — tem um inimigo que nomeia sem rodeios:
nada há de mais pernicioso na amizade do que a adulação, os modos melífluos, a complacência exagerada. Não se poderia empregar expressões demais para melhor assinalar o vício desses homens frívolos e artificiosos, sempre prontos a dizer o que quereis, e jamais a dizer a verdade.
Não se reconhece, pois, o adulador pelo excesso de seus louvores, mas por sua disponibilidade sem falhas: ele não tem opinião própria, adere à vossa. Sempre pronto a se dobrar « ao menor sinal, ao menor gesto », já não tem alma própria. E o que ele retira, em troca do prazer que proporciona, é a única coisa de que a amizade não pode prescindir. O velho Catão, relata Cícero, afirmava que se « tem mais obrigação para com os inimigos declarados do que para com os amigos demasiado indulgentes, porque aqueles nos dizem frequentemente a verdade, e estes nunca a dizem. »
Por que a adulação destrói a amizade?
Porque a amizade, para Cícero, assenta inteiramente na verdade: duas almas só se encontram se nada se dissimula entre elas. O adulador, sempre pronto a dizer o que se quer ouvir, introduz a mentira no cerne do vínculo — « ela destrói a verdade, sem a qual a amizade não é nada. » Ele não une dois seres: desdobra um só.
Resta compreender por que a adulação sempre encontra quem a aceite. Cícero não busca a causa no adulador, mas em quem o escuta:
Muitos, de fato, buscam menos ser virtuosos do que parecer sê-lo. São esses que amam a adulação
O adulador não faz senão devolver o eco que se espera. Quem prefere a aparência ao ser já começou, sozinho, o trabalho: « Ninguém dá ouvidos mais complacentes aos aduladores do que aquele que mais se adula a si mesmo. » A adulação não vem de fora corromper uma alma intacta; ela se ajusta a um desejo já presente, o de ser confirmado na imagem que se faz de si. Cícero propõe, assim, menos fugir dos aduladores do que discernir, em si e no outro, a palavra que busca agradar da palavra que diz o que é.
Do outro extremo do mundo antigo, Lao-Tsé estabelece a mesma divisão — mas não a faz questão de amizade. No último capítulo do Tao Te Ching, a linha não visa ninguém; enuncia uma lei, tão serena quanto um fato da natureza:
chinês clássico
português 信言不美,美言不信。
As palavras sinceras não são elegantes; as palavras elegantes não são sinceras.
Nada aqui do adulador ou do amigo traído. Onde Cícero defende um vínculo e adverte, Lao-Tsé apenas constata que o verdadeiro e o ornamento seguem direções opostas, sem indignação nem remédio a prescrever. E logo relaciona essa constatação a uma postura mais ampla: « O Sábio não acumula », e « Tal é o caminho do Sábio: age e não disputa. » O ornamento da palavra é da mesma ordem que a disputa e o acúmulo: uma maneira de agarrar, de atrair para si o assentimento alheio. A palavra sincera, por sua vez, nada polir porque nada busca.
Seria preguiçoso confundir os dois gestos. Cícero fala como moralista do vínculo: o adulador é um inimigo, a franqueza um dever entre amigos, a virtude o solo de tudo. Lao-Tsé não fala de amizade: sua palavra sincera pertence ao não-agir, a uma água que não disputa seu curso. Um vigia e prescreve; o outro observa e se retira. Dois solos distintos — uma ética da amizade, um caminho do céu.
E, no entanto, os dois olhares esbarram na mesma raiz. Se a palavra que agrada e a palavra que é verdadeira divergem, é porque a primeira quer tomar algo — um favor, um eco, a imagem da própria virtude —, enquanto a segunda nada pede a quem a escuta. O adulador e o adulado estendem a mão; a palavra sincera dá sem se enfeitar, fere às vezes sem querer ferir, e não espera retorno. Duas veredas — a franqueza do amigo, a palavra nua do Sábio — desembocam numa mesma postura: uma palavra que não se negocia, que não se regula nem pelo desejo de quem fala, nem pelo de quem escuta.
Resta a inclinação inicial, sempre presente. Diante do erro de um próximo, a palavra doce ainda se apresenta primeiro. Nada mudou, exceto talvez isto: agora se sabe o que ela pede, e o que a outra custa. A palavra verdadeira não se pule; ela dá, e nada reclama.
Fontes citadas
- Cicéron, Lélius, ou de l'Amitié, ed. Œuvres complètes (Le Clerc), Lefèvre, 1821, trad. Gallon la Bastide.
- Lao-Tseu, Le Livre de la voie et de la vertu (Tao Te King), ed. trad. Stanislas Julien, 1842 (Wikisource), trad. Stanislas Julien.