Basta

O suficiente não é uma quantidade. Epicuro mede-o delimitando o desejo; Lao-Tsé apenas deixa de correr atrás. Duas mãos distintas sobre a mesma riqueza.

Basta
Pieter Bruegel, o Velho, Os Ceifeiros (1565). The Metropolitan Museum of Art, CC0.

Pergunte a qualquer pessoa quanto precisaria para estar tranquila: quase sempre nomeará um pouco mais do que tem. O limite recua à medida que se aproxima. Quem acreditava tê-lo alcançado ontem se vê desprovido hoje — não porque possua menos, mas porque a medida mudou. Dois sábios, separados por um continente e alguns séculos, fizeram a mesma observação: a carência não reside nas coisas, mas no desejo que as conta.

Epicuro escreve a um jovem, Meneceu, e começa por desfazer um mal-entendido. Atribuem-lhe o culto do prazer, imaginam-no à mesa diante de iguarias raras; ele responde separando os desejos.

Considerai também que diferentes coisas são objeto de nossos anseios e desejos; umas são naturais, outras são supérfluas; há as naturais absolutamente necessárias, e outras de que podemos prescindir, embora inspiradas pela natureza.

Epicuro, Lettre à Ménécée , § § 127  — ed. segundo a tradução francesa de Jacques Georges de Chauffepié, Lefèvre, 1840, trad. viasophia

A divisão é mais sutil do que um simples contraste entre o bem e o mal. Beber quando se tem sede, comer quando se tem fome, abrigar-se: desejos naturais e necessários, que a própria natureza delimita — a sede se extingue, o ventre se enche, a necessidade tem um fundo. Provar um prato raro: ainda natural, mas de que se pode abrir mão. Querer fortuna, glória, domínio sobre os outros: desejos sem qualquer limite, pois nada na natureza os detém. É aí, e somente aí, que a carência se torna infinita — não por faltar o suficiente, mas porque esses desejos não têm um “basta”. O gesto de Epicuro não é privar-se: é ponderar o que cada desejo custa e o que rende em tranquilidade, para então abandonar aqueles que custam uma inquietação sem fim. A mesma desconfiança que dirige à raiz ávida do desejo ou ao medo da morte, ele aplica aqui: o exame dissolve o que a opinião havia inflado.

Esse pouco, Epicuro o descreve sem o menor traço de austeridade.

A natureza, para sua subsistência, exige apenas coisas muito fáceis de encontrar; as que são raras e extraordinárias lhe são inúteis, servindo apenas à vaidade ou ao excesso. Uma refeição simples proporciona tanto prazer quanto um banquete suntuoso, e não há iguaria mais admirável do que água e pão quando se tem fome e sede.

Epicuro, Lettre à Ménécée , § § 130  — ed. segundo a tradução francesa de Jacques Georges de Chauffepié, Lefèvre, 1840, trad. viasophia

Quem se habitua a pouco não se empobrece: torna-se inabalável. Todo o socorro está no hábito adquirido — “acostumados a prescindir de pouco, qualquer abundância que nos seja tirada apenas nos devolve a um estado que não nos pode ser roubado”. O suficiente não é um sacrifício consentido, é o lugar onde a fortuna deixa de ter alavanca.

O suficiente é uma privação?

Não. Para Epicuro como para Lao-Tsé, o suficiente não é uma carência aceita, mas o fim da carência. O sábio frugal não renunciou ao prazer: deixou de esperá-lo de um acréscimo sem fim. Contentar-se com pouco é tornar-se inabalável pela fortuna, não empobrecer.

Do outro lado do mundo, Lao-Tsé toca o mesmo ponto, mas com mão bem diversa. Não separa os desejos, não pesa nada.

Não há crime maior do que entregar-se aos desejos. Não há infortúnio maior do que não saber contentar-se. Não há calamidade maior do que o desejo de adquirir. Aquele que sabe contentar-se está sempre satisfeito com sua sorte.

Lao-Tsé, Tao Te King , livro Capítulo 46  — ed. segundo a tradução francesa de Stanislas Julien, Imprimerie nationale, 1842" maison nomLangSource="chinês

“Saber contentar-se” — zhī zú: não o resultado de um exame, mas um acordo com o curso das coisas. O Tao Te King não passa os desejos em revista um a um; visa um único abandono, ao próprio movimento de adquirir. “Aquele que sabe contentar-se é bastante rico”, diz o capítulo 33; “aquele que sabe deter-se nunca perece”, acrescenta o capítulo 44. O mal não está neste ou naquele desejo excessivo, mas em entregar-se — deixar-se arrastar pela corrida. O remédio, portanto, não é um cálculo, mas um não-agir: cessar de estender a mão, retornar à própria natureza. Onde Epicuro mede, Lao-Tsé solta.

Não confundamos os dois gestos. Epicuro estabelece um limite e nele se mantém: conhecer a fronteira, aprendê-la, torná-la um hábito — sua frugalidade é uma conquista da razão, um cálculo de prudência pacientemente exercido. Lao-Tsé não estabelece limite algum; retira o gesto que exigia uma fronteira. Um regula o apetite pela inteligência do justo peso; o outro simplesmente abandona a perseguição. Reduzir o caminho chinês a um cálculo astuto, ou a prudência grega a um puro abandono, seria desfazer a ambos: medir supõe avaliar, o não-agir supõe cessar de avaliar.

E, no entanto, ambos os caminhos conduzem à mesma palavra. Para um como para o outro, a riqueza não é uma quantidade. “Aquele que sabe contentar-se é bastante rico”, diz o chinês; “é desfrutar de uma magnificência plena de agrado satisfazer-se sem qualquer profusão”, diz o grego. O rico não é quem atingiu uma soma: é aquele para quem o limite deixou de recuar. O cálculo e o abandono são dois atalhos distintos, mas seu cume é único — basta não é um montante, é uma relação com o desejo em que a carência já não governa. Chega-se a ele pesando ou deixando de pesar; encontra-se a mesma paz, que não depende mais do que se possui.

Sob a árvore, na hora quente, os ceifeiros partem o pão e bebem; o campo atrás deles transborda. Nada na cena diz que seria preciso menos. Diz apenas que, onde se sabe deter-se, já há, desde muito, o suficiente.

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