O corpo da terra

Para David Mowaljarlai, ancião ngarinyin do Kimberley, o continente não é uma extensão que se divide: é Bandaiyan, um único corpo vivo deitado de costas, do qual somos órgãos.

O corpo da terra
Paul Cézanne — Montanha Sainte-Victoire e o Viaduto do Vale do Rio Arc (1882–85). Metropolitan Museum of Art ; domínio público (CC0).

Num caderno de desenho, o velho traça o contorno da Austrália, depois o preenche com um quadriculado cerrado que lembra o trançado das armadilhas para lagostas. Depõe o lápis. Com a mão, faz menção de levantar a grade, como quem descola uma folha — e o que então mostra já não é um mapa plano, mas um continente em três dimensões, um volume que se seguraria na concavidade das palmas. David Mowaljarlai, ancião e homem de lei ngarinyin do Kimberley, olha por cima dos óculos riscados para certificar-se de que vimos bem. A terra não é uma superfície. É um corpo.

inglês

The whole of Australia is Bandaiyan. The front we call wadi, the belly-section, because the continent is lying down flat on its back. It is just sticking out from the surface of the ocean.

português

A Austrália inteira é Bandaiyan. A parte da frente, chamamos de wadi, a seção do ventre, porque o continente está deitado de costas, rente à superfície do oceano.

David Mowaljarlai, Yorro Yorro  — ed. segundo a tradução francesa de Jutta Malnic, Magabala Books, ed. revista 2014, trad. viasophia

Não se trata de uma imagem poética sobreposta à paisagem. É uma anatomia. Mowaljarlai nomeia as regiões do país como se nomeiam as partes de um corpo: o topo, ao norte — Cabo York, Terra de Arnhem, Kimberley —, é a cabeça, ulangun; sob o golfo de Carpentária alojam-se os pulmões; as costelas são os flancos, a seção das costelas que atravessa o continente acima do umbigo; e o umbigo, o centro, é Uluru. We think of Bandaiyan in those terms, as a human body — pensamos Bandaiyan nesses termos, como um corpo humano. A geografia não é um cenário sobre o qual os seres se dispõem: é a própria carne de um ser vivo único, e cada um de nós é um de seus órgãos.

No interior desse corpo, algo impele a vida para fora. Inside the body is Wunggud, the Snake. She grows all of nature on the outside of her body — dentro do corpo está Wunggud, a Serpente; ela faz crescer toda a natureza na superfície de seu corpo. O continente, portanto, não é um recipiente inerte repleto de seres distintos: é um corpo que se cobre de vida como uma pele se cobre. E esse corpo se mantém unido por linhas. O quadriculado que Mowaljarlai desenhara não era um adorno: as quadrículas são os territórios das comunidades, com suas línguas e símbolos, e as linhas são as rotas pelas quais os relatos viajaram de um extremo a outro do país. They are all interconnected, diz ele — tudo está ligado. Um só corpo, percorrido por nervos.

Daí vem uma palavra que surpreende em sua boca. Nesse corpo, diz ele, os humanos não habitam como proprietários nem como espectadores: agem como um só corpo constituído.

inglês

We think along these lines, but we know only Bandaiyan. On this we interact as a corporation. It is intact.

português

Pensamos segundo essas linhas, mas só conhecemos Bandaiyan. Nele, interagimos como um corpo constituído. Ele está intacto.

David Mowaljarlai, Yorro Yorro  — ed. segundo a tradução francesa de Jutta Malnic, Magabala Books, ed. revista 2014, trad. viasophia

A palavra inglesa que ele emprega, corporation, guarda sob si o latim corpus, o corpo. Mowaljarlai, aliás, intitula ele mesmo seu capítulo Corpus Australis: o corpo da Austrália. Mas entre seu uso e o nosso, o abismo é completo, e é preciso assinalá-lo antes de qualquer aproximação. Para nós, a «corporação», o «corpo» político, é uma metáfora: um corpo social, o corpo do Estado, uma maneira de falar da assembleia dos humanos. O corpo permanece uma imagem; a terra, por sua vez, continua sendo um solo que se percorre, que se demarca e que se possui. Mowaljarlai inverte a ordem. O corpo não é a metáfora, é a terra que se tornou uma para nós quando a achatamos em mapa. Sua corporação inclui a rocha, a serpente, toda a natureza; não somos seus membros associados, somos seus órgãos.

Eis por que nosso modo de olhar o continente lhe parece, no sentido literal, uma perda de relevo. O mapa deita a terra no papel e a recorta em parcelas; ele levanta o papel e devolve ao país seu volume. Onde lemos uma extensão — um recurso, um território, um ambiente que nos cerca —, ele lê um corpo do qual não se sai: não se pode estar ao redor daquilo que nos contém.

E o corpo persiste mesmo sem nós. Quando lhe objetam as regiões onde já não vive ninguém, onde nada mais se transmite, Mowaljarlai afasta a objeção com uma palavra.

The land remained, you can’t get away from that. It acts for the people and their imprint is still there — a terra permaneceu, não há como escapar disso; ela age pelos homens, e sua marca ainda está lá. O corpo está intacto: sua vida não depende de nossa presença. Onde consideramos uma terra viva apenas quando habitada, utilizada, posta em valor — e vazia, portanto disponível, quando não o é —, Mowaljarlai sustenta que o país age por si mesmo, que os símbolos permanecem inscritos no solo mesmo quando este submerge sob o oceano. Não é nossa ocupação que faz viver o corpo; é o corpo que nos sustém.

Resta então uma pergunta que seu desenho deixa em aberto, sem decidi-la por nós. Quando olhamos para um mapa de nosso próprio país, vemos uma superfície a partilhar — ou as costas de um corpo que respira, e do qual seríamos um órgão entre outros?

Fontes citadas

  • David Mowaljarlai, Yorro Yorro, ed. Magabala Books, éd. revue et augmentée, 2014 (avec Jutta Malnic), trad. texte original anglais ; rendu français maison.