A extração dos vivos: sombras e imagens-essências
Duas lógicas da predação, uma mesma guerra contra os mundos
A violência extrativa não se limita a extrair. Transforma o que toca em outra coisa: uma matéria disponível, uma sombra sem espessura, um reservatório de sentido a esvaziar. Duas vozes revelam seus mecanismos, a partir de lugares que tudo parece opor. Uma fala desde a história dos corpos racializados, a outra desde a floresta e seus espíritos. No entanto, em sua própria distinção, algo se responde.
A África e o Negro como recursos míticos
Contudo, recursos míticos, a África e o Negro não são apenas supostos alimentar um limite insustentável, a efração do sentido e uma histeria jubilosa.
Mbembe nomeia aqui uma operação que ultrapassa a exploração econômica. A África e o Negro tornam-se recursos míticos: não realidades a explorar, mas figuras que servem para alimentar outra coisa. Um limite insustentável, ou seja, um limiar que o sistema não pode transpor sem se negar, mas que deve, no entanto, sempre repelir para se manter. A efração do sentido designa essa brecha pela qual o vivo é esvaziado de sua significação própria para não ser mais que um signo a serviço de um relato externo. Quanto à histeria jubilosa, sugere um gozo nessa própria destruição, como se a violência extrativa encontrasse sua legitimidade no excesso que produz.
O alvo não são apenas um território ou corpos, mas uma função simbólica. A África e o Negro não são reduzidos a recursos materiais — são mobilizados como operadores de sentido, entidades cuja existência justifica e nutre um sistema que precisa delas para se definir. Seu valor reside no que permitem não ver: o arbitrário de uma lógica que deve se reinventar sem cessar para mascarar sua própria fragilidade.
Os xapiri e a invisibilização das imagens-essências
como espíritos auxiliares xapiri as « imagens » ( utupë ) primordiais dos seres, entidades e objetos mais diversos (o universo dessas imagens-essências é, por definição, infinito).
Kopenawa descreve um mundo onde o que é predado não são apenas a floresta ou seus habitantes, mas os utupë — essas imagens-essências que precedem e fundamentam toda existência. Os xapiri, espíritos-amigos, são os guardiões desse universo infinito de imagens primordiais. Predar a floresta é, antes de tudo, negar a existência dessas imagens, torná-las invisíveis, como se nunca tivessem sido sujeitos por direito próprio.
A violência extrativa não é apenas uma agressão contra seres visíveis. É uma guerra contra o que os torna possíveis: um tecido de imagens-essências que não se reduzem nem a recursos, nem a símbolos, mas que constituem a própria trama do mundo. Os xapiri não são metáforas — são presenças ativas, aliados cuja desaparição equivale a uma amputação do real. Ao negá-los, é o infinito mesmo dos possíveis que é atacado.
Duas reduções, uma mesma lógica
Mbembe fala de recursos míticos onde Kopenawa evoca imagens-essências. Os termos diferem, mas a operação é semelhante: transformar o que existe em outra coisa que não é. Num caso, corpos e territórios tornam-se operadores de sentido a serviço de um sistema que deles precisa para se legitimar. No outro, espíritos e imagens primordiais são invisibilizados para que a floresta não seja mais que um reservatório de matérias-primas.
A convergência não reside numa identidade dos mecanismos, mas em seu efeito: a redução do que vive a uma função extraível. Seja essa função simbólica (alimentar uma histeria jubilosa) ou material (explorar a floresta), ela supõe sempre uma violência epistêmica — um modo de saber que nega a complexidade do que apreende.
O que resiste à captura
Nem Mbembe nem Kopenawa propõem soluções. Designam, antes, o que, na própria predação, escapa à lógica extrativa. Para Mbembe, talvez seja na efração do sentido que algo se furta: um limite insustentável que, ao ser constantemente repelido, revela a instabilidade do sistema. Para Kopenawa, é o infinito dos utupë que resiste: um universo de imagens-essências que, por definição, não pode ser esgotado.
A resistência não é um programa, mas uma presença. Consiste no que persiste em existir fora das categorias da predação: corpos que se recusam a ser sombras, espíritos que continuam a dançar apesar da invisibilização. É ontológica antes de ser política, porque toca no que faz de um mundo um mundo — e não um recurso.
Fontes citadas
- Achille Mbembe, Critique de la raison n gre, ed. .
- Davi Kopenawa, La Chute du ciel, ed. Plon, coll. Terre humaine, 2010, trad. Bruce Albert (propos yanomami recueillis et traduits).