O sumo bem é como a água
Lao-Tsé propõe a água como modelo do sábio: ceder, descer, não lutar contra nada. Marco Aurélio oferece a rocha que as ondas batem. Dois caminhos, um mesmo cume: não ser movido.
Aágua não cobiça lugar algum. Desce, ocupa os vazios, contorna a pedra em vez de quebrá-la, e acaba por tudo alcançar. Essa docilidade sem fraqueza, Lao-Tsé a escolhe, no oitavo capítulo do Tao Te Ching, como imagem da virtude mais elevada.
chinês clássico 上善若水。水善利萬物而不爭,處衆人之所惡,故幾於道。
português O homem de virtude superior é como a água. A água beneficia todos os seres e não luta. Habita os lugares que a multidão despreza. Por isso (o sábio) se aproxima do Tao.
Todo o capítulo se sustenta na relação entre dois gestos que a água realiza ao mesmo tempo: ela beneficia tudo (利萬物, li wan wu, literalmente « os dez mil seres ») e não luta (不爭, bu-zheng). Nossa intuição os separa: acreditamos que só fazemos bem às coisas agarrando-as, corrigindo-as, impondo-nos a elas. A água desmente esse preconceito. Nutre as plantas, enche os vales, alcança o mar — sem arrancar nada, sem disputar nada. Sua eficácia reside justamente em não opor resistência frontal.
O termo decisivo é bu-zheng, a não-contenda. Não significa retirar-se do mundo nem deixar-se levar. A água age, e muito; apenas não entra em rivalidade com nada. A distinguir do wu-wei, o não-agir, ao qual se reduz com demasiada pressa: o wu-wei regula a maneira de agir (sem forçar o curso das coisas), o bu-zheng regula a relação com o outro (sem disputar-lhe lugar). Pode-se acompanhar o fluxo de uma tarefa enquanto se inveja o vizinho; a não-contenda subtrai precisamente essa inveja.
O que significa « não lutar » em Lao-Tsé?
A chave está na segunda frase: a água « habita os lugares que a multidão detesta ». O comentário que o sinólogo Stanislas Julien traduz explicita — os homens « amam a glória e abominam a desonra; amam a elevação e detestam o rebaixamento », enquanto a água « precipita-se para os lugares baixos e compraz-se em habitá-los ». Não lutar, portanto, não é perder batalhas: é deixar de cobiçar aquilo pelo qual os outros se digladiam. Quem não deseja o lugar alto não precisa desalojar ninguém, nem há quem o desaloje. O capítulo XXII extrai a consequência paradoxal desse retraimento:
Não luta, por isso não há no império quem possa lutar contra ele.
Não se trata de uma fraqueza aceita, mas de um poder que dispensa adversário. Como o cubo oco de cujo vazio faz girar a roda, a força da água vem do fato de não se apoiar em nada. Vence cedendo.
O sábio chinês e o sábio romano: ceder ou resistir
Alguns séculos depois, em outro império e outra língua, um homem busca também como não ser vencido pelo que o assalta. Propõe uma imagem que tudo parece opor à primeira. Onde Lao-Tsé oferece a água que cede, Marco Aurélio oferece a rocha que ela não consegue desgastar.
Tornar-se firme como a rocha que as ondas não cessam de bater. Ela permanece imóvel, e a espuma da onda gira a seus pés.
Distinguamos primeiro os dois caminhos, para não perdermos nem um nem outro. A água de Lao-Tsé é forte por não resistir: desce, contorna, ocupa o baixo, não disputa lugar algum — sua invencibilidade reside em não ter adversário. A rocha de Marco Aurélio é forte pelo contrário: as ondas a golpeiam, o choque ocorre, e ela não se move. Sua força não está em evitar o obstáculo, mas em não ser deslocada por ele. A água passa por baixo; a rocha recebe de frente.
O solo onde cada um planta essa imagem difere tanto quanto as imagens. Para Lao-Tsé, a docilidade da água imita o caminho do céu: é forte quem se alinha ao movimento das coisas, pelo baixo, pelo macio. Para Marco Aurélio, a imobilidade da rocha não é o orgulho de uma pedra, mas a firmeza de um juízo — o trecho seguinte o diz: o acidente « podia acontecer a qualquer um; mas nem todos o teriam recebido com a mesma impassibilidade que tu ». A rocha resiste porque o mestre interior recusa chamar de infortúnio o que a fere. Sua firmeza não está no grão da rocha, mas em o que depende dele.
Os dois caminhos não se confundem, e não se invertem. O sábio taoísta encontra sua força em descer abaixo do conflito; o sábio estoico, em manter-se no conflito sem ser alterado. Um se apaga — torna-se água, alinha-se ao caminho, recolhe-se ao mais baixo, desfaz o eu que cobiça o lugar alto. O outro assenta-se em seu centro — a firmeza não está no grão da rocha, mas no mestre interior, no que depende dele. Apagar o ego ou assentar-se em si: dois gestos que não se podem tomar um pelo outro.
E, no entanto, seguidos até o cume, desembocam no mesmo pico. Nem a água nem a rocha reagem: nenhuma das duas é movida pelo que as atinge. A água não devolve o golpe — deixa-se levar, contorna, não opõe nada; a rocha também não devolve o golpe — recebe o choque sem ser deslocada. Ambas deixam de mover-se ao ritmo do que agita a multidão — aquela que, em Lao-Tsé, ama a elevação e detesta o rebaixamento; aquela que, em Marco Aurélio, geme « que infortúnio para mim ». Descer abaixo do assalto ou manter-se firme no assalto: por duas encostas, uma única não-reação.
A água e a rocha compartilham a mesma praia, e é ali que a onda se quebra. O cume é um — não ser movido pelo que nos fere; as vertentes permanecem duas. Ao leitor, então, não uma lição a receber nem um campo a escolher, mas o limiar onde as duas vias se encontram: descer mais baixo do que o que nos assalta, ou manter-se mais firme do que ele, é, por uma e outra encosta, deixar de lhe pertencer.
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Fontes citadas
- Lao-Tseu, Tao Te King, ed. Imprimerie royale, 1842 (Wikisource), trad. Stanislas Julien.
- Marc Aurèle, Pensées pour moi-même, ed. Germer-Baillière, 1876 (Wikisource), trad. Jules Barthélemy-Saint-Hilaire.