A gratidão, tecnologia de reparação do mundo

Meditação sobre a economia do dom segundo Robin Wall Kimmerer

A gratidão, tecnologia de reparação do mundo
Michael Barera — Museu do Lago Geneva Abril 2025 23 (aldeia potawatomi de 1831). Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
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A gratidão não é um mero sentimento que nos atravessa, mas uma forma de habitar o mundo. Segundo Robin Wall Kimmerer, essa postura envolve muito mais do que o coração: ela reorganiza nossas relações com o que nos cerca, chegando a modificar as próprias estruturas de nossa existência coletiva. Em sua obra, explora como uma economia fundada no compartilhamento dos dons da terra poderia oferecer uma alternativa às lógicas de escassez e propriedade que dominam nossas sociedades. Essa visão se enraíza em um ensinamento ancestral, o do «Uma Tigela e Uma Colher», que sugere que os recursos essenciais – a água, a terra, as florestas – não deveriam ser apropriados, mas geridos em comum, com respeito e reciprocidade.

Robin Wall Kimmerer observa que essa abordagem, longe de ser uma utopia, permitiu por muito tempo que comunidades mantivessem a abundância em vez da penúria. No entanto, insiste: mudar as políticas não basta. A escassez e a abundância não são apenas realidades econômicas, mas estados de espírito. Convida cada um a recordar que seus antepassados, em algum momento de sua história, pertenceram a culturas nas quais a gratidão estruturava as relações com a terra. Reencontrar essa memória poderia atuar como um remédio contra as lógicas de predação que hoje ameaçam os ecossistemas.

A prática da gratidão, segundo ela, permite distinguir os apelos consumistas das verdadeiras necessidades. Celebra uma riqueza compreendida como a capacidade de compartilhar, onde o valor se mede pelas relações mutuamente benéficas, e não pela acumulação. Essa postura transforma também nossa relação com as plantas, como mostra o exemplo da sweetgrass. Robin Wall Kimmerer relata suas tentativas de restaurar essa planta sagrada, primeiro cultivando-a em viveiro com métodos científicos. Contudo, apesar de condições ideais, a sweetgrass só prospera de fato quando cuidada por artesãos que a colhem com respeito, no âmbito de uma relação recíproca.

Essa constatação vai além da simples ecologia: trata-se de restaurar um vínculo entre humanos e plantas, no qual o cuidado mútuo se torna condição de vitalidade. Os cientistas, nota ela, concentram-se frequentemente em parâmetros materiais – o pH do solo, a hidrologia – deixando de lado a dimensão espiritual. No entanto, os ensinamentos indígenas, como a Oração de Agradecimento, oferecem pistas para tecer juntos matéria e espírito. Sonha com um tempo em que a terra poderia, ela própria, agradecer aos humanos, não porque estes a tivessem merecido, mas porque teriam cumprido suas obrigações para com ela.

A sweetgrass, por exemplo, não pode ser vendida: é sagrada, e aqueles que tentassem comercializá-la seriam dissuadidos pelos guardiões dessa tradição. Os colhedores a recolhem com cuidado, para seu uso e o de sua comunidade, sempre oferecendo algo em troca. As tranças de sweetgrass circulam como presentes, honrando, agradecendo, curando ou fortalecendo laços. Seu valor cresce a cada troca, pois é no próprio movimento do dom que reside sua riqueza. Essa lógica contrasta radicalmente com a da propriedade privada, onde a exclusão dos outros é a norma.

inglês

Practices such as posting land against trespass, for example, are expected and accepted in a property economy but are unacceptable in an economy where land is seen as a gift to all.

português

Práticas como a proibição de acesso a uma terra, por exemplo, são esperadas e aceitas numa economia de propriedade, mas inaceitáveis numa economia em que a terra é vista como um dom feito a todos.

Robin Wall Kimmerer, Braiding Sweetgrass: Indigenous Wisdom, Scientific Knowledge, and the Teachings of Plants , livro Braiding Sweetgrass  — ed. a partir da tradução francesa de Véronique Minder, *Le lotus et l'éléphant*, 2021, trad. viasophia

Uma economia do dom contra a lógica do cercamento

Segundo Robin Wall Kimmerer, a terra não é um bem a possuir, mas um dom a compartilhar. Essa visão questiona práticas comuns, como a de proibir o acesso a um território em nome da propriedade privada. Numa economia em que a terra é um dom comum, tais restrições não fazem sentido: rompem o ciclo de reciprocidade que permite à vida se renovar. A sweetgrass, por exemplo, só cresce com vigor onde os humanos mantêm com ela uma relação de respeito e gratidão. Se esse vínculo se quebra, a planta definha, como se carregasse em si a memória dos laços rompidos.

Essa ideia de uma memória das plantas e dos lugares não é metáfora, mas observação concreta. Robin Wall Kimmerer conta como, apesar de condições ideais de cultivo em viveiro, a sweetgrass só recupera sua vitalidade quando reinserida num contexto em que os humanos assumem suas responsabilidades para com ela. Os cientistas, ao se concentrarem nos aspectos técnicos da restauração ecológica, muitas vezes esquecem essa dimensão relacional. No entanto, é ela que faz a diferença entre uma planta que sobrevive e uma planta que prospera.

A gratidão como ato político

A gratidão, tal como a concebe Robin Wall Kimmerer, não é uma atitude passiva, mas um compromisso ativo. Implica reconhecer os dons da terra e responder a eles com gestos concretos: compartilhar, retribuir, cuidar. Numa sociedade em que tudo é mercantilizado, essa prática pode parecer subversiva. Contudo, oferece um caminho para escapar das lógicas de predação que esgotam os recursos e os relacionamentos. Ao celebrar a riqueza dos laços em vez da das posses, propõe outra maneira de medir o valor.

Essa visão se conecta a uma crítica mais ampla dos sistemas econômicos dominantes. Para Robin Wall Kimmerer, a escassez não é uma fatalidade, mas o resultado de um estado de espírito. Cultivando a gratidão, pode-se transformar essa percepção e abrir caminho para uma abundância compartilhada. Isso não significa ignorar os limites dos ecossistemas, mas abordá-los com outra intenção: não para extrair o máximo, mas para cuidar deles, a fim de que possam continuar a dar.

Reconstruir os laços

A restauração ecológica, para Robin Wall Kimmerer, não se limita a replantar espécies ou restabelecer equilíbrios químicos. Passa também pela restauração das relações entre humanos e o vivo. As plantas, os animais, os rios têm sua própria forma de interagir com o mundo, e os humanos são apenas um elo dessa rede. Ao retomar práticas de gratidão, pode-se esperar reencontrar um lugar harmonioso nesse tecido.

Essa abordagem não é reservada àqueles que pertencem a culturas indígenas. Robin Wall Kimmerer lembra que cada um carrega em si a memória desses vínculos antigos. Reencontrar essa memória é dar-se os meios de transformar nossa relação com o mundo, não retrocedendo, mas inventando novas formas de viver juntos, com a terra e seus habitantes.

Fontes citadas

  • Robin Wall Kimmerer, Braiding Sweetgrass: Indigenous Wisdom, Scientific Knowledge, and the Teachings of Plants, ed. Le lotus et l'éléphant, 2021, trad. Véronique Minder.