A xawara, ou a epidemia como cólera da floresta

Meditação sobre a doença dos Brancos segundo Davi Kopenawa

A xawara, ou a epidemia como cólera da floresta
Elaine Menke/Câmara dos Deputados — Hênio Mayanawa Yanomami - Representante da Liderança Jovem Yanomami da Hutukara Associação Yanomami (HAY). Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
A

s epidemias não são, para Davi Kopenawa, acidentes da natureza. São mensagens. Fumaças espessas e acre, chamadas xawara, que os espíritos da floresta sopram em direção aos humanos quando estes violam o equilíbrio do mundo. Segundo ele, essas doenças não atingem ao acaso: respondem à violência dos Brancos, à sua sede de ouro, às suas máquinas que rasgam a terra. A xawara não é um micróbio, mas uma cólera — uma resposta dos ancestrais e dos seres invisíveis que povoam as árvores, os rios, as montanhas.

Davi Kopenawa observa que os Brancos chamam esses flagelos de “epidemias” e os tratam como inimigos a combater com remédios e números. Para ele, essa abordagem é uma ilusão. As doenças dos Brancos não são fenômenos isolados, mas sintomas de um desequilíbrio mais vasto. Surgem onde a floresta é ferida, onde os garimpeiros escavam a terra com suas máquinas, onde os postos de saúde se instalam sem compreender as leis do território. A xawara, diz ele, é a voz dos espíritos que se rebelam contra essa intrusão.

Xamat h ari: denominação dos Yanomami ocidentais pelos Yanomami orientais (Waika).

Davi Kopenawa, La Chute du ciel  — ed. a partir da tradução francesa de Bruce Albert, Plon, coll. Terre humaine, 2010, trad. viasophia

A doença como linguagem

Segundo Davi Kopenawa, a xawara não é um simples agente patogênico. É uma entidade viva, quase uma pessoa. Desloca-se como fumaça, levada pelo vento, e se instala onde os humanos romperam o pacto com a floresta. Os espíritos, irritados pelas feridas infligidas à terra, enviam essas fumaradas para lembrar aos homens sua dependência do mundo vivo. A doença, portanto, não é um castigo, mas uma consequência: sinaliza que algo, na relação entre os humanos e seu ambiente, se quebrou.

Os Brancos, explica ele, só enxergam nas epidemias problemas a resolver com técnicas. Contam os mortos, buscam remédios, constroem hospitais. Mas esquecem de ouvir o que a doença lhes diz. Para Davi Kopenawa, curar uma epidemia sem compreender sua causa profunda é como tentar apagar um incêndio soprando as chamas sem ver que a lenha continua a queimar. A xawara não desaparecerá enquanto a destruição da floresta persistir.

O ouro e a fumaça

A xawara está intimamente ligada ao ouro. Davi Kopenawa descreve como os garimpeiros, esses caçadores de ouro, escavam a terra com avidez, deixando para trás buracos abertos e rios envenenados. Essas ações não ficam sem resposta. Os espíritos da floresta, testemunhas dessa violência, liberam a xawara para punir aqueles que profanaram seu domínio. As doenças que então atingem os Yanomami — e às vezes os próprios Brancos — são os sinais visíveis dessa cólera invisível.

Para ele, o ouro não é apenas um metal precioso. É uma armadilha. Os Brancos o cobiçam, mas ao extraí-lo, despertam forças que não compreendem. A xawara é uma dessas forças. Espalha-se como rastilho de pólvora, levando consigo aqueles que participaram, de perto ou de longe, da destruição. Davi Kopenawa não fala aqui de superstição, mas de uma ecologia das relações: cada ato tem uma repercussão, cada ferida infligida à terra encontra eco no corpo dos humanos.

Um pensamento do vivo

O que propõe Davi Kopenawa é outra maneira de pensar a doença. Para ele, uma epidemia não é um evento isolado, mas um elo numa cadeia de causas e efeitos que liga os humanos ao seu ambiente. A xawara não é um inimigo a vencer, mas uma mensageira a escutar. Ela lembra que a saúde dos humanos depende da saúde da floresta, e que toda cura passa pela restauração desse equilíbrio.

Essa visão contrasta fortemente com a dos Brancos, que separam o corpo da natureza, a doença de seu contexto. Para Davi Kopenawa, tal separação é uma ilusão perigosa. A xawara mostra que tudo está ligado: a terra, os espíritos, os humanos, as doenças. Recusar-se a ver esses elos é expor-se a catástrofes ainda maiores.

A queda do céu

O próprio título de sua obra, A Queda do Céu, evoca essa ideia de um colapso mais amplo. Se os humanos persistirem em ignorar os avisos da floresta, se os Brancos continuarem a escavar, a poluir, a destruir, então o próprio céu acabará por desabar. A xawara não passa de um primeiro sinal. Anuncia uma ruptura mais profunda, um fim dos tempos em que as leis que regem o mundo vivo serão definitivamente quebradas.

Davi Kopenawa não fala aqui como profeta, mas como testemunha. Viu as doenças atingirem seu povo, viu os garimpeiros invadirem as terras yanomami, viu os espíritos se retirarem pouco a pouco, deixando a floresta silenciosa e doente. Para ele, a xawara é um grito de alerta. Diz que chegou a hora de mudar de caminho, de parar de ver a natureza como um recurso a explorar, e de reconhecê-la como um ser vivo, com o qual é preciso dialogar.

Uma medicina política

Curar-se da xawara, segundo Davi Kopenawa, não passa apenas por remédios. Exige uma mudança radical na forma como os humanos habitam o mundo. É preciso, antes de tudo, parar de destruir. Parar de escavar, de poluir, de desprezar as leis da floresta. Depois, é necessário restabelecer o diálogo com os espíritos, esses guardiões invisíveis do território. Isso significa respeitar os ritos, ouvir os mais velhos, proteger os lugares sagrados.

Essa abordagem é profundamente política. Questiona a própria ideia de “desenvolvimento” tal como concebida pelos Brancos. Para Davi Kopenawa, a saúde não é uma questão de tecnologia, mas de justiça. Enquanto os Yanomami forem espoliados de suas terras, enquanto a floresta for saqueada, a xawara continuará a grassar. A cura, se possível, virá de um retorno ao equilíbrio — do reconhecimento de que os humanos não são os senhores do mundo, mas parte dele.

Epílogo: escutar a fumaça

A xawara, enfim, é um convite. Um convite a escutar o que a floresta tem a dizer. Davi Kopenawa não propõe uma solução mágica, mas uma conversão do olhar. Pede-nos que vejamos a doença não como um inimigo, mas como uma linguagem. Que compreendamos que cada epidemia é uma mensagem, e que essa mensagem nos diz respeito a todos.

Talvez aí esteja o maior desafio: aceitar que a saúde não se mede apenas por taxas de mortalidade ou pela eficácia dos tratamentos, mas pela qualidade de nossas relações com o mundo vivo. A xawara nos lembra que não estamos sós. Que partilhamos esta terra com seres visíveis e invisíveis, e que nossa sobrevivência depende de nossa capacidade de viver em harmonia com eles.

E se a próxima epidemia for uma nova fumaça, um novo grito da floresta? Saberemos ouvi-lo?

Fontes citadas

  • Davi Kopenawa, La Chute du ciel, ed. Plon, coll. Terre humaine, 2010, trad. Bruce Albert (propos yanomami recueillis et traduits).