A boa palavra bebe da fonte
Para a artista shipibo-konibo Chonon Bensho, jakon joi — a boa palavra — não é boa pelo seu conteúdo: ela o é enquanto bebe de sua fonte e se mantém ligada a outros.
Chonon Bensho tem dois nomes. No registro civil, em Yarinacocha, foi registrada como Astrith Gonzales Agustín. Mas em sua língua, o shipibo-konibo, ela é Chonon Bensho — « a andorinha dos pomares de medicina ». Artista, descendente dos sábios-curandeiros Onanya, escreve com seu marido Pedro Favarón para transmitir, às claras, o que recebeu de suas avós. E a primeira coisa que diz sobre o pensamento é que ele tem uma qualidade — como uma água pode ser viva ou estagnada.
inglês Our thinking is strong, koshi shina; our thinking is great, ani shina; our thinking is good, jakon shina; and our thinking is beautiful, metsa shina. Our word is strong, koshi joi, because it drinks from the same aerial and vegetal spring that fed the ancient Onanya.
português Nosso pensamento é forte, koshi shina; nosso pensamento é grande, ani shina; nosso pensamento é bom, jakon shina; e nosso pensamento é belo, metsa shina. Nossa palavra é forte, koshi joi, porque bebe da mesma fonte aérea e vegetal que nutriu os antigos Onanya.
Nossa língua classifica o pensamento entre as faculdades: pensar é uma operação que realizo, sozinho, na minha cabeça. Chonon Bensho não descreve uma faculdade. Descreve uma matéria que pode ser forte — koshi —, grande — ani —, boa — jakon —, bela — metsa —, e que só tem essas qualidades por uma razão precisa: ela bebe. A palavra é forte, diz ela, porque bebe da fonte que nutria os antigos Onanya. A boa palavra — jakon joi, o termo que dá título ao seu texto — não é, portanto, uma palavra de conteúdo edificante. É uma palavra que permanece ligada à sua fonte: os antepassados, o mundo das plantas. Não a fabricamos, nós a regamos.
Quem fala assim fala a partir de um certo mundo. Uma mulher que conhece os costumes de suas avós e caminha descalça sobre o solo que seus pais pisaram não está, diz Chonon Bensho, perdida no mundo. Ela não é a mahua yoxin ghost, with no relationships or attachments — um fantasma sem relações nem laços. E aquele que vem de fora, o estrangeiro, ela o chama por uma palavra: nawa. Seu marido deixou de ser um nawa não porque tenha aprendido uma doutrina, mas porque entrou em uma rede de vivos que compartilham uma origem e um presente. Ser alguém, aqui, é estar ligado a outros.
inglês No one is in solitude. Rather, we all are in relationship, in bond.
português Ninguém está na solidão. Ao contrário, todos estamos em relação, em vínculo.
É o mesmo mundo que dá sentido a outra de suas palavras, akinananti — o trabalho feito em conjunto, com amor e alegria, que busca o bem de todos. A palavra e o trabalho têm a mesma condição: só valem ao ligar. Uma palavra que não liga mais, um trabalho que só busca o próprio lucro, são gestos de nawa — corretos, talvez, mas desligados da fonte.
Nós também temos uma disciplina do « bom pensamento ». Mas a entendemos ao contrário. Pensar positivo, para nós, é uma técnica: eu endireito sozinho meu humor, otimizo por um esforço de vontade um interior que é meu, e o juiz desse pensamento é o meu próprio bem-estar. O bom pensamento aí é um produto que fabrico. Jakon shina segue o caminho inverso. O pensamento não é meu: ele é bom quando permanece ligado — a antepassados, a plantas, a vivos considerados como sujeitos —, não quando me deixa contente. E um pensamento desligado de tudo isso não é, para Chonon Bensho, um pensamento « negativo » que se corrige: é o pensamento de um fantasma, de um ser sem laços. Onde nós trabalhamos para pensar melhor e assim nos sentirmos melhor, ela mantém sua palavra viva sem soltar a raiz que a rega. Resta a pergunta que ela deixa, descalça sobre o solo de seus pais: uma palavra vale pelo que enuncia — ou pelo que ainda a mantém ligada?.
Fontes citadas
- Chonon Bensho & Pedro Favaron, Ainbon Jakon Joi: The Good Word of an Indigenous Woman, ed. Terralingua, Langscape Magazine, vol. 9 (2020) — accès libre, trad. texte anglais traduit de l'espagnol par Tirso Gonzales ; rendu français maison.