O *kren* que se recusa a ser nomeado: Ailton Krenak e a resistência pela invisibilidade

Retrato de um pensamento que escapa à captura ontológica

O *kren* que se recusa a ser nomeado: Ailton Krenak e a resistência pela invisibilidade
Winslow Homer — Atirando nas corredeiras, rio Saguenay (1905–10). Metropolitan Museum of Art, CC0.
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O espírito-memória que se furta

Para Ailton Krenak, os relatos dos povos originários sobre a origem da vida não contam uma gênese linear, mas uma série de metamorfoses em que o humano não passa de uma etapa entre outras. Ele evoca histórias em que seres já foram peixes, árvores ou outras formas de vida antes de se conceberem como pessoas. Essa ideia atravessa as tradições de vários povos, dos Ainu do Japão aos Guarani da América do Sul, passando pelos Yanomami e pelas nações originárias da América do Norte. Esses relatos não são mitos no sentido ocidental do termo, mas memórias vivas, vestígios de uma consciência que precede e ultrapassa a configuração humana. Para Ailton Krenak, essa memória ancestral não é uma simples narrativa: é uma presença ativa, um modo de sentir o mundo em que as fronteiras entre as espécies se dissipam.

Ele descreve, em particular, como os povos originários percebem as florestas não como recursos, mas como entidades inteligentes, organismos vastos com os quais compartilham uma parentela. Essa parentela não é metafórica: manifesta-se numa sensação física, quase genética, em que árvores e humanos reconhecem uma origem comum. Essa percepção questiona a própria ideia de “natureza” como categoria separada do humano. Segundo ele, esse sentimento de conexão deveria mobilizar as pessoas para proteger as florestas, mas observa que as iniciativas ocidentais — como reservas naturais ou projetos de reflorestamento — permanecem prisioneiras de uma lógica extrativista. Mesmo os esforços mais louváveis, como os de seu vizinho Sebastião Salgado, não conseguem reverter a tendência: as florestas continuam a desaparecer, substituídas por plantações efêmeras destinadas à produção de celulose.

Essa impotência não é apenas ecológica, mas ontológica. Ailton Krenak ressalta que as escolhas individuais, como abrir mão do carro ou dos produtos fósseis, não bastam para conter a destruição sistêmica. O problema não é uma questão de comportamento, mas de estrutura: o mundo ocidental formatou a realidade como mercadoria, e essa lógica se impõe com tal naturalidade que até as crianças são condicionadas a reproduzi-la. As escolas, segundo ele, não são lugares de educação, mas fábricas de normalização, onde se moldam mentes para que se integrem a um sistema predador. Essa crítica se estende às instituições internacionais, como o Banco Mundial ou a ONU, cujos programas de “desenvolvimento sustentável” não passam de perpetuar a ilusão de um controle possível sobre a destruição.


A recusa da captura: uma presença que escapa

Ailton Krenak introduz uma noção central em seu pensamento: a de uma presença que se furta a qualquer tentativa de captura. Ele não nomeia explicitamente o kren no trecho citado, mas descreve uma realidade que encarna seu espírito. O kren, tal como transparece em suas reflexões, não é um conceito a definir, mas uma força que persiste no invisível. Trata-se de uma memória das montanhas, de uma inteligência das florestas, de uma consciência que se recusa a ser reduzida a objeto de conhecimento ou posse. Essa presença não precisa ser nomeada para existir: manifesta-se nos relatos, nos sonhos, nas interações cotidianas com o vivo.

Para ele, os povos originários mantêm uma relação com o mundo dos sonhos que vai além da simples interpretação simbólica. Os sonhos não são mensagens a decifrar, mas realidades tangíveis, espaços onde tempo e espaço se confundem. Quando um Krenak sonha com um rio ou uma floresta, esse sonho não é uma metáfora: é uma experiência direta, um modo de se conectar a dimensões outras que o mundo material. Essa prática onírica não é reservada aos xamãs ou aos “místicos”: faz parte integrante da vida cotidiana. Por exemplo, se alguém propõe a Ailton Krenak viajar, ele esperará sonhar com essa viagem antes de tomar uma decisão. Se não sonhar, não irá. Esse modo de viver não é superstição, mas uma orientação existencial, uma maneira de preservar uma integridade coletiva e cósmica.

Essa resistência pela invisibilidade também se manifesta na recusa de se submeter às categorias ocidentais. Ailton Krenak critica violentamente a ideia de “sustentabilidade”, que considera uma ilusão. Para ele, essa noção não faz mais que reproduzir a lógica extrativista, disfarçando-a sob um verniz ético. As práticas ocidentais de “conexão com a natureza”, como o ioga ou as peregrinações, não passam de fricções superficiais com a paisagem: nada mudam na relação predatória que a humanidade mantém com a Terra. Já nas florestas, a vida não se substitui a si mesma: ela flui, e quem nela se imerge sente essa pressão, essa presença que o atravessa. Essa experiência não é uma abstração, mas uma realidade física, um modo de sentir que o vento, as nuvens e os rios são espelhos de nossa própria existência.

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As informações que ela recebe de como se constituir como pessoa e atuar na sociedade já seguem um roteiro predefinido: vai ser engenheira, arquiteta, médica, um sujeito habilitado para operar no mundo, para fazer guerra; tudo já está configurado.

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As informações que ela recebe sobre como se constituir como pessoa e agir na sociedade já seguem um roteiro predefinido: será engenheira, arquiteta, médica, um sujeito habilitado a operar no mundo, a fazer guerra; tudo já está configurado.

Ailton Krenak, A vida não é útil , livro A vida não é útil  — ed. a partir da tradução francesa de casa, Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. viasophia

A escola como máquina de normalização

Para Ailton Krenak, a educação ocidental é uma máquina de produzir sujeitos dóceis, formatados para reproduzir um sistema iníquo. As escolas não transmitem saberes, mas roteiros predefinidos: ditam às crianças o que devem se tornar — engenheiras, médicas, soldados — e como devem agir no mundo. Essa normalização começa na infância e se impõe como evidência. As crianças crescem num mundo em que tudo já está configurado, os papéis estão atribuídos, as possibilidades limitadas por esquemas preestabelecidos. Essa lógica não se contenta em formar profissionais: fabrica sujeitos capazes de fazer guerra, destruir o planeta e perpetuar as desigualdades.

Ele observa que essa educação é uma ofensa à liberdade de pensamento. Não permite às crianças desenvolver uma consciência crítica, mas as aprisiona num molde que as separa de suas raízes, de sua memória e de sua capacidade de imaginar outros modos de estar no mundo. Os pais, segundo ele, renunciaram ao direito de transmitir seu próprio legado, deixando essa tarefa a instituições que não fazem mais que reproduzir os dogmas do sistema. Hoje, falar em ancestralidade é visto como prática mística, reservada a xamãs ou “mães de santo”, enquanto os “bem-nascidos” — aqueles que saem dos MBAs ou das grandes escolas — desprezam esses saberes. Circulam como ciborgues, administrando universidades e empresas sem jamais questionar os fundamentos de um mundo que ajudam a destruir.

Essa crítica se estende à pandemia de Covid-19, que Ailton Krenak interpreta como um momento de ruptura. Para ele, a suspensão das atividades humanas revelou o absurdo de um sistema que vende o futuro como mercadoria. As pessoas acreditaram que bastava mudar de calendário para resolver os problemas, mas a crise mostrou que o verdadeiro desafio era repensar radicalmente nossa relação com o mundo. Ele insiste no fato de que o “retorno à normalidade” não é solução: essa “normalidade” é justamente o que levou à destruição do planeta e ao agravamento das desigualdades. A pandemia foi um lembrete brutal de que a humanidade não pode mais continuar a viver como se estivesse separada da natureza.


O sonho como resistência

No pensamento de Ailton Krenak, o sonho não é um simples fenômeno psicológico, mas uma prática política. Ele descreve como os povos originários usam os sonhos para orientar suas ações, tomar decisões e manter um vínculo com realidades que escapam à lógica ocidental. Por exemplo, quando um Krenak sonha com uma viagem, esse sonho não é mera antecipação: é uma confirmação, uma autorização para agir. Se não sonhar, não irá. Essa prática não é individual, mas coletiva: inscreve-se numa consciência compartilhada, um modo de preservar uma integridade cósmica.

Essa abordagem do sonho como guia existencial contrasta radicalmente com a racionalidade ocidental, que busca controlar, medir e prever tudo. Para Ailton Krenak, o sonho é uma forma de resistir a essa lógica predatória, um modo de permanecer fiel a uma memória que precede e ultrapassa o humano. Ele observa que essa prática ainda vive entre os jovens originários que se engajam na arte ou na cultura: eles continuam a carregar essa perspectiva coletiva, recusando-se a se isolar em trajetórias individuais. Nenhum deles, segundo ele, jamais se lançou sozinho no mundo: agem sempre em conexão com sua comunidade, com sua memória e com as outras formas de vida que os cercam.

Essa resistência pelo sonho é também uma forma de recusar a captura ontológica. Ao manter uma relação viva com os relatos ancestrais, com as montanhas e com as florestas, os povos originários preservam uma presença que escapa às categorias ocidentais. O kren, essa memória das montanhas, não precisa ser nomeado para existir: persiste no invisível, nos interstícios de um mundo que busca classificar, possuir e destruir tudo. Para Ailton Krenak, essa presença é uma forma última de resistência: um modo de dizer que o vivo não se deixa reduzir a mercadoria, e que o futuro não está à venda.

Fontes citadas

  • Ailton Krenak, A vida não é útil, ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. trad. maison (du portugais).