O vivo e a ortografia: duas vozes para um mesmo cuidado

O que se articula e o que permanece inalterado

O vivo e a ortografia: duas vozes para um mesmo cuidado
Nicolas Poussin — Órion cego em busca do sol nascente (1658). Metropolitan Museum of Art, CC0.

A primeira voz ergue-se em torno de um livro que se articula. Fala do que se defende, do que resiste entre mitos e práticas. Evoca um conflito a desarmar, um diálogo a restabelecer entre dois mundos frequentemente opostos: aquele que busca reenselvajar e aquele que cultiva a terra há gerações. O texto não diz como fazer, nem quem está certo ou errado. Limita-se a constatar que algo se articula em torno do vivo, e que essa articulação merece ser escutada.

O reenselvajamento para além dos mitos dualistas Desarmar o conflito entre reenselvajamento e mundo camponês Conclusão: o vivo que se defende Este livro articula-se em torno do vivo…

Baptiste Morizot, Raviver les braises du vivant  — ed. a partir da edição francesa, trad. viasophia

Essa voz não propõe uma solução pronta. Sugere apenas que o vivo, em sua complexidade, é o ponto em torno do qual tudo poderia se reorganizar. Não fala de vitória nem de derrota, mas de um equilíbrio a encontrar, de uma brasa a reavivar sem ainda saber como. O conflito não é negado: está ali, entre reenselvajamento e mundo camponês, e é justamente ele que convida a pensar de outro modo.


A segunda voz é mais discreta. Não fala de conflitos nem de brasas, mas de ortografia. Não se dirige às paisagens ou aos animais, mas às palavras, à sua forma, à sua pontuação. Anuncia uma decisão: as variações nos hífens foram padronizadas, mas todo o resto — a ortografia, a pontuação — permanece inalterado. Nada será acrescentado, nada será suprimido. O que está escrito permanecerá tal qual, em sua singularidade.

As variações na hifenização foram padronizadas, mas toda a ortografia e pontuação restantes permanecem inalteradas.

Jalal ad-Din Rumi, Masnavî  — ed. a partir da versão em inglês" maison nomLangSource="persa

Essa voz não busca convencer. Não diz por que preservar esses detalhes, nem o que significam. Apenas constata que algo persiste, intacto, apesar dos esforços para uniformizar. Os hífens podem ser alinhados, mas o resto escapa à normalização. Há nisso uma forma de resistência silenciosa, uma fidelidade ao que não se deixa reduzir.


Esses dois textos não têm o mesmo objeto. Um fala do vivo, o outro das palavras. Um evoca conflitos a desarmar, o outro uma pontuação preservada. No entanto, partilham uma mesma atenção ao que persiste sem ser visto.

O primeiro texto propõe olhar para o que se articula em torno do vivo, ou seja, o que liga sem ser sempre visível. O segundo propõe preservar o que, nas palavras, resiste à uniformização — esses detalhes que, também eles, ligam sem se mostrar. Em ambos os casos, trata-se de prestar atenção ao que escapa ao primeiro olhar.

Nem um nem outro dizem o que fazer com essa atenção. Não prescrevem gestos, não traçam caminhos. Contentam-se em apontar para o que está ali, sem ser sempre notado: o vivo que se defende, as palavras que permanecem inalteradas.

Talvez seja aí, nessa simples proposta de escuta, que as duas vozes se encontram. Uma convida a desarmar os conflitos olhando para o que une, a outra a preservar o que, nos detalhes, já une. Nenhuma pretende deter a verdade. Sugerem apenas que algo merece ser visto — ou revisto.

Fontes citadas

  • Baptiste Morizot, Raviver les braises du vivant, ed. .
  • Djalâl al-Dîn Rûmî, Masnavî, ed. .