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title: "A boa palavra bebe da fonte"
sousTitre: "Para a artista shipibo-konibo Chonon Bensho, jakon joi — a boa palavra — não é boa pelo seu conteúdo: ela o é enquanto bebe de sua fonte e se mantém ligada a outros."
description: "Ainbon Jakon Joi: para Chonon Bensho, descendente dos sábios Onanya, jakon joi — a boa palavra — não é um discurso de conteúdo edificante, mas uma palavra que permanece conectada à sua fonte. Um pensamento desligado de suas relações não é 'negativo': é a palavra de um fantasma."
date: 2026-06-30
lang: pt
tradition: shipibo
auteurs: ["Chonon Bensho", "Pedro Favarón"]
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# A boa palavra bebe da fonte

Chonon Bensho tem dois nomes. No registro civil, em Yarinacocha, foi registrada como Astrith Gonzales Agustín. Mas em sua língua, o shipibo-konibo, ela é *Chonon Bensho* — « a andorinha dos pomares de medicina ». Artista, descendente dos sábios-curandeiros Onanya, escreve com seu marido Pedro Favarón para transmitir, às claras, o que recebeu de suas avós. E a primeira coisa que diz sobre o pensamento é que ele tem uma qualidade — como uma água pode ser viva ou estagnada.

  
    Our thinking is strong, koshi shina; our thinking is great, ani shina; our thinking is good, jakon shina; and our thinking is beautiful, metsa shina. Our word is strong, koshi joi, because it drinks from the same aerial and vegetal spring that fed the ancient Onanya.
  
  Nosso pensamento é forte, koshi shina; nosso pensamento é grande, ani shina; nosso pensamento é bom, jakon shina; e nosso pensamento é belo, metsa shina. Nossa palavra é forte, koshi joi, porque bebe da mesma fonte aérea e vegetal que nutriu os antigos Onanya.

Nossa língua classifica o pensamento entre as faculdades: pensar é uma operação que realizo, sozinho, na minha cabeça. Chonon Bensho não descreve uma faculdade. Descreve uma matéria que pode ser forte — *koshi* —, grande — *ani* —, boa — *jakon* —, bela — *metsa* —, e que só tem essas qualidades por uma razão precisa: ela *bebe*. A palavra é forte, diz ela, porque bebe da fonte que nutria os antigos Onanya. A boa palavra — [*jakon joi*](https://viasophia.org/lexique/jakon-joi/), o termo que dá título ao seu texto — não é, portanto, uma palavra de conteúdo edificante. É uma palavra que permanece ligada à sua fonte: os antepassados, o mundo das plantas. Não a fabricamos, nós a regamos.

*[Voix de l'intérieur]* Aqui se diz « segundo Chonon Bensho », nunca « os Shipibo pensam ». Ela escreve em seu nome, como descendente dos Onanya; seu marido Pedro Favarón, nascido em Lima e integrado à comunidade por aliança, co-assina — voz do interior de segundo nível, jamais apresentada como a do povo. E nos limitamos ao que ela escolheu tornar público: os cantos de cura, a iniciação, o saber restrito dos curandeiros permanecem fora desta página.

Quem fala assim fala a partir de um certo mundo. Uma mulher que conhece os costumes de suas avós e caminha descalça sobre o solo que seus pais pisaram não está, diz Chonon Bensho, perdida no mundo. Ela não é *a mahua yoxin ghost, with no relationships or attachments* — um fantasma sem relações nem laços. E aquele que vem de fora, o estrangeiro, ela o chama por uma palavra: *nawa*. Seu marido deixou de ser um *nawa* não porque tenha aprendido uma doutrina, mas porque entrou em uma rede de vivos que compartilham uma origem e um presente. Ser alguém, aqui, é estar ligado a outros.

  
    No one is in solitude. Rather, we all are in relationship, in bond.
  
  Ninguém está na solidão. Ao contrário, todos estamos em relação, em vínculo.

É o mesmo mundo que dá sentido a outra de suas palavras, [*akinananti*](https://viasophia.org/lexique/akinananti/) — o trabalho feito em conjunto, com amor e alegria, que busca o bem de todos. A palavra e o trabalho têm a mesma condição: só valem ao ligar. Uma palavra que não liga mais, um trabalho que só busca o próprio lucro, são gestos de *nawa* — corretos, talvez, mas desligados da fonte.

Nós também temos uma disciplina do « bom pensamento ». Mas a entendemos ao contrário. Pensar positivo, para nós, é uma técnica: eu endireito sozinho meu humor, otimizo por um esforço de vontade um interior que é meu, e o juiz desse pensamento é o meu próprio bem-estar. O bom pensamento aí é um produto que fabrico. *Jakon shina* segue o caminho inverso. O pensamento não é meu: ele é bom quando permanece ligado — a antepassados, a plantas, a vivos considerados como sujeitos —, não quando me deixa contente. E um pensamento desligado de tudo isso não é, para Chonon Bensho, um pensamento « negativo » que se corrige: é o pensamento de um fantasma, de um ser sem laços. Onde nós trabalhamos para pensar melhor e assim nos sentirmos melhor, ela mantém sua palavra viva sem soltar a raiz que a rega. Resta a pergunta que ela deixa, descalça sobre o solo de seus pais: uma palavra vale pelo que enuncia — ou pelo que ainda a mantém ligada?.

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## Fontes

- Chonon Bensho & Pedro Favaron, *Ainbon Jakon Joi: The Good Word of an Indigenous Woman* — Terralingua, Langscape Magazine, vol. 9 (2020) — accès libre, trad. texte anglais traduit de l'espagnol par Tirso Gonzales ; rendu français maison


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/reenchanter/2026-06-30-la-bonne-parole-boit-a-la-source/
