---
title: "Pedir ao mestre das águas"
sousTitre: "Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim, homem achuar do alto Pastaza, descreve um mundo onde os peixes, a caça e a roça têm cada qual seu proprietário invisível — e onde nada se retira sem antes lhe dirigir a palavra."
description: "Tsungki, palavra achuar: o mestre das águas e dos peixes. Na cosmovisão de Carlos Nangkitiar, a floresta não é um estoque sem dono, mas uma sociedade de proprietários (Tsungki, Mana, Nungkui) aos quais se deve dirigir um « discurso » antes de tomar."
date: 2026-06-20
lang: pt
tradition: achuar
auteurs: ["Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim"]
---
# Pedir ao mestre das águas

No alto Pastaza, onde o rio desce do Equador rumo ao Peru, um homem achuar observa uma grande poça de água profunda. Ali há peixes em abundância. Mas, para ele, esses peixes não são livres: têm um dono, que habita no fundo. Não se serve na casa alheia. O homem chama-se Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim — seu nome, diz, significa « lança para guerrear » — e confiou ao livro *El ojo verde*, onde amazônicos expõem eles próprios o pensamento de seus povos, a forma do mundo tal como a recebeu.

  
    Mi nombre es Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim, que significa ‘lanza para guerrear’; soy de Puerto Rubina. La forma del mundo, según la cosmovisión achuar, la aprendí oralmente de mi abuelo, mis abuelitas y mis tíos.
  
  Chamo-me Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim, que significa « lança para guerrear »; sou de Puerto Rubina. A forma do mundo, segundo a cosmovisão achuar, aprendi-a oralmente com meu avô, minhas avós e meus tios.

O mundo achuar é feito de andares. O primeiro, sob a água, é habitado pelos *tsungki* — pessoas de rosto humano ou feminino que vivem no fundo das grandes poças e sob as cachoeiras, e que possuem os peixes. *Os tsungki são os mestres dos peixes e dos demais animais aquáticos*, diz Nangkitiar; por isso o peixe abunda onde eles moram. Não são forças: são proprietários, com casa mobiliada.

*[Sa montre est un crabe]* O mestre das águas tem, em sua casa, um mobiliário preciso: uma jiboia enrolada lhe serve de assento, a arraia de chapéu, os bagres de calçados, e o caranguejo faz as vezes de relógio. Descrever com tal exatidão a casa de um espírito é dizer que ele não é uma abstração, mas alguém — em cuja casa se entra.

Tsungki não está sozinho. A caça tem seu mestre, Mana; a roça tem sua senhora, Nungkui, que vive sob a terra. E de cada domínio ter seu proprietário decorre uma regra que não é mera imagem: não se toma, pede-se. A peça central desse mundo não é uma crença no invisível, mas um gesto.

  
    Hay seres visibles e invisibles en la naturaleza, con los cuales el ser humano se relaciona mediante el “discurso”.
  
  Na natureza, há seres visíveis e invisíveis, com os quais o ser humano estabelece relação por meio do « discurso ».

Esse « discurso » não é uma prece vaga: é um endereçamento, dirigido a um mestre específico, em um momento preciso. Antes de armar a armadilha, o caçador *deve fazer um discurso, pedir ao mestre dos animais que permita que as aves se dirijam à armadilha*. A mulher que vai à roça com seu cesto *deve sempre fazer um discurso, dirigindo-se a Nungkui, que existe sob a terra*. A retirada passa por uma palavra endereçada a um proprietário — nunca pela simples tomada. Quanto a Tsungki, o mestre das águas, o povo comum não o encontra: apenas o *wishín*, o homem que sabe, trata com ele; os outros o ouvem à noite, no fundo da poça, e não descem até lá. O mundo tem suas portas fechadas, e o Achuar sabe disso.

Seria fácil, aqui, estabelecer paralelos apressados. Já encontramos, entre os Ainu, o [kamuy](https://viasophia.org/lexique/kamuy/): a coruja, o fogo, a água considerados pessoas, e não « a natureza ». Mas o tsungki não é um kamuy, e a diferença é todo o ponto. O kamuy é um **hóspede** — uma pessoa que desce para visitar o mundo dos humanos, que se acolhe e pode ser ofendida. O tsungki é um **proprietário** — uma pessoa em cuja casa se entra, e a quem já pertence o que se deseja levar. Um funda uma ética da hospitalidade; o outro, uma ética da permissão.

É por aí que a palavra achuar desmonta a nossa. Dizemos « recurso »: um estoque sem dono, posto ali, livre para quem o tomar, bastando geri-lo. O mundo de Nangkitiar não conhece estoque sem dono. O peixe pertence a Tsungki, a caça a Mana, a colheita a Nungkui; nada é de ninguém, portanto nada é para tomar — tudo é para pedir. No escudo mochica, o caranguejo e os peixes de ouro giram em torno de uma figura central, como a casa do mestre das águas em torno de seu assento. A questão não é saber se há peixes no rio. É saber a quem pertencem, e se lembramos de lhe pedir.

## Fontes

- Carlos Nangkitiar Kunchim Tsanim, *El ojo verde. Cosmovisiones amazónicas* — FORMABIAP/AIDESEP, 3ᵉ éd. corrigée et augmentée, 2025 (1ʳᵉ éd. 2000), trad. texte original en espagnol (cosmovision recueillie auprès de la voix achuar) ; rendu français maison


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/reenchanter/2026-06-20-demander-au-maitre-des-eaux/
