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title: "A vida não é útil"
sousTitre: "Ailton Krenak, pensador krenak do rio Doce, recusa que se meça a existência pelo seu rendimento: a vida não tem utilidade alguma — ela é fruição, uma dança cósmica que se saboreia."
description: "Fruição, palavra de Ailton Krenak em *A vida não é útil*: saborear a vida em vez de torná-la útil. Uma voz krenak contra a redução do vivo ao rendimento."
date: 2026-06-12
lang: pt
tradition: krenak
auteurs: ["Ailton Krenak"]
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# A vida não é útil

Há dois anos, Ailton Krenak vive com as outras famílias do seu povo na margem esquerda de um rio devastado, no vale do rio Doce, em Minas Gerais. Do ponto de vista prático, deveriam ter sido removidos do local do desastre, como foram as pessoas de Brumadinho ou de Bento Rodrigues. Os Krenak recusaram. *« Ah, mas vocês não têm água! »* — *E daí?* *« Mas vocês podem morrer aí! »* — *E daí?* O lugar tornou-se um abismo, escreve ele, mas estão dentro dele e não sairão. É dali que observa a lógica que queria salvá-los.

Pois uma operação de salvamento, nota, visa arrancar o corpo ferido, levá-lo para outro lugar, restaurá-lo — para que depois, talvez, possa *« permanecer operante na vida »*. Tudo isso parte de uma ideia: a de que a vida é útil. E é justamente essa ideia que ele inverte.

  
    Isso partindo da ideia de que a vida é útil, mas a vida não tem utilidade nenhuma. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária.
  
  Isso parte da ideia de que a vida é útil, mas a vida não tem utilidade alguma. A vida é tão maravilhosa que nossa mente tenta lhe dar uma utilidade, mas é uma tolice. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e queremos reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária.

A palavra que sustenta tudo é *fruição*. O francês hesita em traduzi-la: *« jouissance »* desliza rápido para a posse, *« plaisir »* para o consumo, e *« fruition »*, entre nós, encolheu até significar apenas o desfecho de um projeto. Krenak entende outra coisa: não extrair proveito da vida, mas *saboreá-la* como se está numa dança — sem ajustá-la a um fim. A *« coreografia ridícula e utilitária »* que ele recusa é a vida reduzida a um currículo: *alguém nasceu, fez isto, fundou uma cidade, inventou o fordismo, fez a revolução, foi ao espaço*. Uma historinha, diz ele, que tomamos pela própria vida.

*[Uma voz, sua própria língua]* *A vida não é útil* reúne falas proferidas em público por Ailton Krenak durante a pandemia de 2020, escritas por ele em português — sua língua de escrita. Nenhuma mediação estrangeira: a voz é de dentro. Apenas as traduções francesas citadas aqui são caseiras, feitas a partir do original.

No lugar do currículo, uma imagem retorna, marinha e serena:

  
    Nós estamos, em nossa relação com a vida, como um peixinho num imenso oceano, em maravilhosa fruição. Nunca vai ocorrer a um peixinho que o oceano tem que ser útil, o oceano é a vida.
  
  Somos, na nossa relação com a vida, como um peixinho num oceano imenso, em maravilhosa fruição. Jamais passará pela cabeça de um peixinho que o oceano deva ser útil: o oceano é a vida.

O peixe não usa a água, está nela. Pedir que o oceano seja útil seria pedir que a vida fosse outra coisa que não a vida. *« Por que insistimos em transformar a vida em algo útil? »*, escreve Krenak. Sua resposta não é um repouso: é preciso, diz ele, *« ter a coragem de ser radicalmente vivos, e não barganhar a sobrevivência »*. Pois *« sobreviver já é uma negociação em torno da vida »* — um adiamento, um sinal dado em troca de um futuro que nos dispensa de viver agora.

Essa recusa tem um avesso preciso, que é preciso nomear para não suavizá-lo. Krenak mira o que chama de *« pensamento vazio dos brancos »*, aquele que não sabe viver sem propósito, *« que acredita que o trabalho é a razão da existência »* — e que, por ter escravizado os outros, acaba escravizando a si mesmo. Viver sem utilidade passa então por preguiça, por recusa de se civilizar. É dessa captura que se trata de escapar.

É preciso cortar antes de aproximar. Na nossa língua, *inútil* é uma falta: o que não serve para nada, o que se põe de lado, o resíduo. Krenak descreve bem esse gesto — o progresso que avança rumo ao seu horizonte abandonando *« tudo o que não interessa, o que sobra »*, e relega até povos inteiros a essa sub-humanidade do supérfluo. Quando diz que a vida *não é útil*, ele pega a palavra pelo outro lado: não uma deficiência, mas uma plenitude. A vida escapa ao útil não porque lhe falte algo, mas porque o útil é uma medida curta demais para ela. O oceano não é *inútil* — a categoria nem o alcança.

Nossa tradição tem seus contrapesos ao ativismo: o *otium* dos antigos, o descanso do sétimo dia, a beleza que dizemos gratuita — [o ativismo](https://viasophia.org/lexique/occupatio/) que nos desprende de nós mesmos, sabemos criticá-lo. Mas esses remédios continuam sendo exceções num mundo regido pelo rendimento: um parêntese de gratuidade, um domingo entre seis dias úteis. Krenak não defende o parêntese. Ele suprime a medida. Não é a vida que precisa ser devolvida à *fruição* em momentos escolhidos: é a utilidade que nunca deveria ter reinado sobre ela.

*[Krenak ≠ Kopenawa]* Duas vozes amazônicas, dois povos, dois gestos. Davi Kopenawa, xamã yanomami, contesta a palavra *« natureza »* e opõe a ela [*urihi*](https://viasophia.org/lexique/urihi/), a terra-floresta viva. Ailton Krenak, pensador e militante krenak, contesta outra coisa: não o objeto, mas a medida — a *utilidade* que se impõe ao vivo. Não os confundamos.

Krenak não é um sábio imemorial que se desenterra: é um escritor e militante de hoje, uma das grandes vozes do movimento indígena brasileiro desde os anos 1970, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras. Sua palavra é datada, polêmica, viva. E *fruição* não é uma palavra rara na sua língua: o português a usa correntemente. É o uso que ele faz dela que reabre algo — opor, ao verbo *servir*, o verbo *saborear*.

Resta então a pergunta que ele deposita na nossa língua, e que podemos nos fazer sem responder pelo outro: o que fazemos hoje, fazemos porque serve — ou porque é a vida?

## Fontes

- Ailton Krenak, *A vida não é útil* — Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. trad. maison (du portugais)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/reenchanter/2026-06-12-fruicao/
