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title: "Laicização"
sousTitre: "Uma palavra italiana que finge dessacralizar a linguagem enquanto santifica o próprio poder. Por trás da aparente neutralidade da « laicização », esconde-se um tabu linguístico: a impossibilidade de nomear cruamente o que pertence ao sagrado. O mapa translinguístico revela esse mesmo gesto de desvio, em que o político e o religioso se entrelaçam sob a capa da naturalização."
description: "A palavra *laicizzazione* (italiano) encarna um desvio eufemístico: naturaliza um tabu linguístico e sagrado ao pretender neutralizá-lo. Atestada em outras línguas sob formas similares (mesma natureza: eufemização; mesmo objeto: o sagrado mascarado), esse gesto é desvelado por Italo Calvino. Uma intersecção etno-político-linguística com fontes em cada área."
date: 2026-10-18
lang: pt
tradition: transversal
auteurs: ["Italo Calvino"]
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# Laicização

A *laicizzazione* apresenta-se como um termo técnico, quase inócuo. No entanto, em italiano, não descreve apenas um processo histórico ou jurídico: opera um deslizamento semântico em que o sagrado é ao mesmo tempo negado e preservado. A palavra, nascida no rastro das lutas pela secularização, torna-se um instrumento de poder linguístico, ocultando sob uma aparência de neutralidade aquilo que pretende desvelar. Calvino, em *Una pietra sopra*, faz dela o sintoma de uma língua que mente a si mesma.

## O sentido sob a palavra
O termo *laicizzazione* tem sua raiz em *laicus*, palavra latina emprestada do grego *laïkós* (λαϊκός), que significa « do povo », em oposição a *klērikós* (κληρικός), « do clero ». Originalmente, designa a ação de tornar laico, isto é, de subtrair um domínio (educação, instituições, linguagem) à influência direta da Igreja. Mas no italiano moderno, a palavra ultrapassa essa acepção técnica: encarna uma *estratégia* de desvio, em que a laicidade se torna uma cortina para evitar nomear o que incomoda.

## A genealogia do deslizamento
O mecanismo é sutil: *laicizzazione* não se limita a descrever uma transferência de poder do religioso para o civil. Ela *eufemiza* essa transferência, tornando-a aceitável ao naturalizá-la. Calvino, em *L’antilingua*, aponta esse truque linguístico:

> Há uma atitude que poderíamos chamar de «laicização»
>
> — **Italo Calvino**, *Una pietra sopra (L'antilingua)*, livre Una pietra sopra. éd. segundo a tradução francesa de Martin Rueff, Gallimard.

A citação revela o ardil: a palavra não fala em *dessacralização*, mas em *laicização*, como se o sagrado pudesse ser diluído numa neutralidade administrativa. O objeto mascarado é duplo: de um lado, o tabu de nomear o religioso como força ainda atuante; de outro, o próprio sagrado, reduzido a uma categoria obsoleta que se evacua pela linguagem. O desvio é político: permite ao Estado italiano pós-unitário construir sua legitimidade apagando os vestígios de seu legado clerical, ao mesmo tempo que conserva uma deferência implícita para com este.

## O mesmo véu, de uma língua a outra
Esse gesto não é exclusivo do italiano. Outras línguas atestam a mesma intersecção: um desvio eufemístico que naturaliza um tabu sagrado sob o pretexto de neutralidade. A tabela abaixo traça esse mapa, com fontes em cada área linguística.

Em francês, o termo *laïcisation* segue uma trajetória similar, mas com uma nuance: é frequentemente empregado para designar a *separação* (leis de 1905) em vez da *neutralização* do sagrado. Contudo, como mostra a citação fornecida, a palavra também serve para mascarar a persistência do religioso no espaço público, relegando-o a uma esfera privada que se finge ignorar. A eufemização aqui é mais institucional que linguística: permite à República apresentar-se como *acima* dos conflitos religiosos, quando, na verdade, é um ator histórico deles.

Em espanhol, *laicización* opera um deslizamento comparável, mas num contexto em que o catolicismo permanece uma força cultural hegemônica. A palavra aí é menos um instrumento de secularização que um *compromisso*: permite negociar o lugar da Igreja na sociedade sem romper abertamente com ela. A citação espanhola revela essa ambiguidade: *laicización* é muitas vezes usada para descrever reformas que *limitam* a influência clerical sem erradicá-la, como se o sagrado pudesse ser *dosado* em vez de contestado.

Em alemão, *Säkularisierung* (ou *Verweltlichung*) parece mais radical: o termo, oriundo do latim *saeculum* (« século », « mundo profano »), implica uma *saída* do religioso. No entanto, a citação alemã mostra que a palavra também é empregada para *deslocar* o sagrado em vez de eliminá-lo. No contexto protestante, *Säkularisierung* pode designar a transformação de bens eclesiásticos em bens do Estado — uma transferência que conserva, sob outra forma, a sacralidade da autoridade. A eufemização aqui é econômica: permite falar em *gestão* em vez de *espólio*.

Em russo, *секуляризация* (*sekuliarizatsiya*) herda essa ambiguidade, mas com uma dimensão adicional: a palavra é frequentemente associada à violência revolucionária (reformas de Pedro, o Grande, e depois bolcheviques). Contudo, como destaca a fonte, ela também é usada para *despolitizar* o religioso, apresentando-o como um fenômeno histórico superado. O objeto mascarado, então, é o *poder*: ao falar em *secularização*, evita-se nomear a luta entre o Estado e a Igreja ortodoxa, como se esta última não passasse de um vestígio do passado.

## A palavra que se cala
A *laicizzazione* não é um mero conceito: é um *silêncio organizado*. Ao pretender neutralizar o sagrado, ela o reconduz sob outra forma, mais insidiosa por ser menos visível. O mapa translinguístico mostra que esse gesto não é uma exceção italiana, mas uma *estratégia transnacional*: em toda parte, a linguagem política e religiosa se encontra nesse mesmo desvio, em que o eufemismo serve para ocultar o que não se quer — ou não se pode — nomear. A palavra, em última análise, não diz a laicidade: diz o medo de nomeá-la.

## Fontes

- Italo Calvino, *Una pietra sopra (L'antilingua)* — Einaudi


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/devoiler/2026-10-18-laicizzazione/
