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title: "A ação humana perante a ordem do vivo"
sousTitre: "Adaptação e comunidade no Yi Jing e na ética de Leopold"
description: "Duas visões do lugar do homem no mundo: uma, proveniente do Yi Jing, propõe uma participação nos ciclos naturais; a outra, apresentada por Aldo Leopold, funda uma ética na interdependência dos seres dentro de uma comunidade. Essas abordagens, sem se contradizerem, traçam caminhos distintos para pensar a ação humana."
date: 2026-10-26
lang: pt
tradition: transversal
auteurs: ["Anónimo (clássico chinês)", "Aldo Leopold"]
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# A ação humana perante a ordem do vivo

Na nota dirigida aos cardeais da Congregação de Propaganda Fide em 1738, o *Yi Jing* é apresentado como uma obra cuja abrangência vai além da simples observação. O texto não se limita a descrever fenómenos, mas propõe uma maneira de conceber a relação entre o homem e o que o rodeia. A sabedoria que transmite não se reduz a uma atitude passiva: implica uma forma de participação nos movimentos do mundo.

## Uma participação nos ciclos

O *Yi Jing* não prescreve um método explícito, mas a sua abordagem sugere que o homem não é um espectador desligado. A nota de 1738 evoca um livro que, sem dar directrizes precisas, convida a considerar as transformações como um quadro no qual a ação humana encontra o seu lugar. Não se trata de submeter essas transformações a uma vontade exterior, mas de as reconhecer como um elemento com o qual compor.

> Na edição de De Guignes da tradução de P. Gaubil do *Shu*, há uma nota sobre o *Yi Jing* enviada em 1738 aos cardeais da Congregação de Propaganda Fide por M.
>
> — **Anónimo (clássico chinês)**, *The Yî King (Book of Changes)*, livre The Yî King. éd. segundo a tradução francesa de James Legge, *Sacred Books of the East*, vol. XVI, Oxford, 1882.

Esta nota não detalha as modalidades dessa participação, mas deixa entender que o *Yi Jing* propõe um caminho em que o homem não está em oposição aos ciclos naturais. Não se trata de os ignorar ou de os constranger, mas de os considerar como um dado fundamental. A ação humana, nesta perspectiva, não se define pela sua autonomia, mas pela sua inserção num conjunto mais vasto.

## Uma ética da comunidade

Aldo Leopold, em *Almanaque de um condado arenoso*, aborda a questão da ação humana sob um ângulo distinto. Parte de uma premissa ética: o indivíduo não existe isoladamente, mas como membro de uma comunidade. Esta comunidade não é apenas humana; inclui o conjunto dos elementos que compõem o vivo.

> O CONCEITO DE COMUNIDADE Até hoje, toda a ética assenta numa premissa única: o indivíduo é membro de uma comunidade de partes interdependentes.
>
> — **Aldo Leopold**, *Almanach d un comt des sables*. éd. versão original em inglês, sem tradução publicada em português.

Leopold não se limita a constatar essa interdependência. Faz dela o fundamento de uma maneira de agir. Se o indivíduo está ligado aos outros elementos da comunidade, a sua ação não pode ser pensada independentemente dessa relação. A ética que propõe não se reduz a um simples reconhecimento dessa interdependência; implica que o homem a tenha em conta nas suas escolhas.

Esta abordagem não nega as transformações do mundo, mas encara-as a partir de um quadro preciso: o de uma comunidade em que cada parte tem um papel. A ação humana, nesta perspectiva, não se define pela sua adaptação às mudanças, mas pela sua capacidade de preservar ou restaurar os laços que unem os elementos dessa comunidade.

## Dois caminhos para uma mesma questão

O *Yi Jing* e Leopold abordam a ação humana a partir de duas perspectivas distintas. O primeiro propõe uma participação nos ciclos naturais, sem procurar dominá-los ou modificá-los. O segundo funda uma ética na interdependência dos seres, em que o homem tem uma responsabilidade perante a comunidade de que faz parte.

Estas duas abordagens não se opõem necessariamente. Respondem a uma mesma questão: como pode o homem agir num mundo que o ultrapassa? O *Yi Jing* sugere uma resposta pela inserção numa ordem mais vasta, enquanto Leopold propõe uma resposta pelo reconhecimento de uma comunidade em que o homem é um membro ativo.

Nenhuma das duas prescreve uma solução universal. O *Yi Jing* não oferece regras para agir, mas uma maneira de encarar o lugar do homem nas transformações do mundo. Leopold, por seu lado, não define um método preciso, mas uma orientação ética: a ação humana deve ter em conta a interdependência dos seres.

Estes dois caminhos não convergem numa síntese, mas oferecem, cada um à sua maneira, uma forma de pensar a ação humana sem a reduzir a uma simples reação às circunstâncias. Um convida a compor com os ciclos, o outro a preservar os laços que unem os elementos do vivo. Não se excluem, mas propõem respostas complementares a uma mesma interrogação.

## Fontes

- Anonyme (classique chinois), *The Yî King (Book of Changes)* — Sacred Books of the East, vol. XVI, Oxford, 1882, trad. James Legge (1882)
- Aldo Leopold, *Almanach d un comt des sables* — 


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-10-26-action-humaine-face-ordre-vivant/
