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title: "A mercantilização da catástrofe ecológica: entre ilusão tecnocrática e resistência ontológica"
sousTitre: "Duas vozes para distinguir antes de convergir"
description: "Diante da crise ecológica, Edgar Morin e Ailton Krenak oferecem leituras divergentes da « máquina de fazer coisas »: um vê nela uma complexidade a ser domesticada pela razão, o outro uma violência colonial que nega a própria existência dos ecossistemas. Sem juízo, este artigo desdobra suas perspectivas para interrogar o que resiste à mercantilização do mundo."
date: 2026-09-23
lang: pt
tradition: transversal
auteurs: ["Edgar Morin", "Ailton Krenak"]
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# A mercantilização da catástrofe ecológica: entre ilusão tecnocrática e resistência ontológica

A catástrofe ecológica não é um objeto neutro. Apresenta-se como um campo de forças onde se chocam lógicas que, antes de se confrontarem, precisam primeiro ser distinguidas. Duas vozes, duas geografias do pensamento: Edgar Morin e Ailton Krenak. Um trabalha a complexidade como um tecido a ser remendado, o outro como uma ferida que não se deve fechar depressa demais. Suas palavras não se respondem, mas escavam o mesmo solo — aquele em que a mercantilização do mundo pretende absorver até sua própria negação.

## A complexidade como domesticação: Morin e o espírito no mundo

Morin propõe uma epistemologia em que o espírito e o mundo se entrelaçam sem se confundir. O capitalismo verde, nessa perspectiva, não é uma monstruosidade, mas uma *[complexidade](https://viasophia.org/lexique/complexite/) adaptativa* — um sistema que integra suas próprias contradições para sobreviver. A razão aqui não é um instrumento de dominação, mas um meio de navegar pelo emaranhado de causas e efeitos.

> As condições do conhecimento Inerência-separação-comunicação O espírito está no mundo que está no espírito A realidade da Realidade O mundo cognoscível A zona de adequação cognitiva
>
> — **Edgar Morin**, *La Methode*, livre La Methode, ch. II. éd. a partir da tradução francesa de Anne Brigitte Kern, Seuil, 1993.

Essas linhas não descrevem um método, mas uma *postura*. O espírito não está fora do mundo: emerge dele e o molda em retorno. A mercantilização da catástrofe ecológica torna-se então um fenômeno a ser compreendido em sua totalidade, inclusive em suas tentativas de se reformar. O capitalismo verde não é uma traição, mas uma *evolução* — uma tentativa da máquina de se autorregular. Morin não o aprova, mas reconhece sua lógica interna: uma adaptação que mantém o conjunto vivo, ainda que ao custo de novas alienações.

A “zona de adequação cognitiva” mencionada aqui não é um território fixo. É esse lugar movediço onde a razão humana tenta apreender uma realidade que a ultrapassa. O capitalismo verde inscreve-se nela como uma tentativa de fazer coincidir o econômico e o ecológico, não por altruísmo, mas por necessidade. Trata-se menos de salvar o planeta do que de salvar o sistema que o destrói. Morin não condena essa contradição; ele a coloca no cerne de sua reflexão. A [complexidade](https://viasophia.org/lexique/complexite/) não é um problema a resolver, mas uma condição a habitar.

## A máquina como violência: Krenak e a existência negada

Krenak, por sua vez, não fala de [complexidade](https://viasophia.org/lexique/complexite/), mas de *máquina*. Uma máquina que não se limita a produzir objetos, mas fabrica também ausências — povos, ecossistemas, modos de existência tornados invisíveis por serem inassimiláveis. O capitalismo verde não é uma adaptação, mas uma *continuação*: uma nova camada de tinta sobre uma estrutura que permanece fundamentalmente extrativa.

> A MÁQUINA DE FAZER COISAS — Texto elaborado a partir da live Conversa Selvagem, com Ailton Krenak e Marcelo Gleiser, 17 abr.
>
> — **Ailton Krenak**, *A vida não é útil*. éd. a partir da edição original em português, Companhia das Letras, São Paulo, 2020.

Essas palavras não designam um sistema econômico, mas uma *ontologia*. A máquina não é uma ferramenta, mas um modo de estar no mundo que reduz tudo ao seu valor de uso. Ela não se contenta em mercantilizar a natureza: nega a própria existência do que não pode ser transformado em recurso. Os povos originários, as florestas primárias, os rios — tudo o que resiste à quantificação torna-se um obstáculo a eliminar, não por maldade, mas por *lógica*.

Krenak não propõe reforma. Aponta uma violência mais profunda: aquela que consiste em negar que outros mundos são possíveis. O capitalismo verde, nessa ótica, não é uma solução, mas uma *ilusão* — uma forma de fazer crer que a máquina pode se autorregular, quando na verdade não faz senão reproduzir suas próprias condições de existência. A catástrofe ecológica não é um mau funcionamento, mas uma *consequência*: o resultado de um sistema que só pode existir destruindo o que o ultrapassa.

## Distinguir para não confundir

Morin e Krenak não se opõem frontalmente. Habitam registros distintos: um fala de *conhecimento*, o outro de *existência*. Para Morin, a mercantilização da catástrofe é um fenômeno a ser compreendido em sua [complexidade](https://viasophia.org/lexique/complexite/); para Krenak, é uma violência a ser recusada em seu princípio mesmo. Um busca domesticar a máquina pela razão, o outro revelar sua impostura.

Sua divergência não é um desacordo, mas uma *necessidade*. Antes de buscar convergências, é preciso distinguir o que pertence à adaptação e o que pertence à negação. Morin mostra que o capitalismo verde é uma tentativa da máquina de sobreviver a si mesma; Krenak lembra que essa sobrevivência se dá ao preço do apagamento de tudo o que não é ela.

## O que resiste à mercantilização

Nem um nem outro propõem soluções prontas. Morin sugere que a complexidade pode ser habitada, sem garantia de sucesso; Krenak afirma que a máquina não pode ser reformada, apenas *superada*. Suas vozes não se encontram, mas apontam para um mesmo ponto cego: aquilo que, no mundo, resiste à mercantilização.

Talvez seja esse o cume comum, não uma síntese, mas uma *pergunta*: como pensar o que, em nós e fora de nós, escapa à lógica da máquina? Morin responderia pela razão complexa; Krenak, pela existência não útil. Ambos, porém, recusam reduzir o mundo a um objeto de cálculo.

A catástrofe ecológica não é apenas um problema a resolver. É também — e talvez sobretudo — um convite a distinguir o que nela pertence à máquina e o que, nela, lhe resiste.

## Fontes

- Edgar Morin, *La Methode* — Seuil, 1993 (avec Anne Brigitte Kern)
- Ailton Krenak, *A vida n o til* — Companhia das Letras, São Paulo, 2020, trad. trad. maison (du portugais)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-09-23-marchandisation-catastrophe-ecologique-entre-illusion/
