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title: "A memória entre apagamento e transmissão"
sousTitre: "Duas vozes sobre o frágil alicerce das civilizações"
description: "Entre o Newspeak da Oceania e os prolegômenos de Ibn Khaldûn, dois fragmentos revelam a memória como questão política e cultural. Um a transforma em língua oficial, o outro em trabalho de acréscimos sucessivos. Ambos sublinham seu lugar central sem nomeá-lo diretamente."
date: 2026-08-12
lang: pt
tradition: transversal
auteurs: ["George Orwell", "Ibn Khaldun"]
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# A memória entre apagamento e transmissão

A memória nunca é neutra. Apresenta-se primeiro como um fato: uma língua, uma obra, uma estrutura que se impõe. Mas por trás dessas aparências, torna-se um terreno disputado, um espaço onde se desenrolam relações de força invisíveis. Dois fragmentos, um extraído de uma ficção política, outro de um trabalho histórico, oferecem dela uma imagem contrastada.

## A língua como enquadramento oficial

O primeiro fragmento provém de um mundo onde a memória é enquadrada por uma instituição. O Newspeak é ali apresentado como instrumento de governo, uma língua que não existe por acaso, mas por decisão.

> 1 O Newspeak era a língua oficial da Oceania. Para uma descrição de sua estrutura e etimologia, ver o Apêndice.
>
> — **George Orwell**, *Nineteen Eighty-Four EN avec appendice Newspeak*. éd. segundo a tradução francesa" maison livre="Apêndice.

O texto nada mais diz. Não descreve os efeitos dessa língua, nem suas intenções. Limita-se a registrar sua existência como um fato administrativo: ela é *oficial*. Esse estatuto lhe confere uma autoridade que ultrapassa as simples palavras. Uma língua oficial não é apenas um meio de comunicação; é um enquadramento que delimita o que pode ser dito, pensado, transmitido. O Newspeak não é apresentado como uma ameaça ou uma inovação, mas como um dado do mundo, uma realidade à qual se pode recorrer ("ver o Apêndice"). Essa neutralidade aparente é o que lhe dá força: impõe-se sem justificativa, como uma evidência.

## A obra como acumulação

O segundo fragmento provém de outro tipo de trabalho. Ibn Khaldun descreve ali a gênese de um livro, mas também a maneira como a memória nele se desdobra.

> A esta obra, intitulada *História dos Berberes*, acrescentou um volume de prolegômenos; pouco depois, completou seu trabalho com uma nova série de memórias relativas aos povos e às dinastias do Oriente.
>
> — **Ibn Khaldûn**, *Les Prolégomènes (Muqaddima), tome 1*. éd. segundo a tradução francesa de William Mac Guckin de Slane, *Notices et extraits*, Imprimerie impériale, Paris, 1863, t. 1" maison chapitre="Introdução.

Aqui, a memória não é uma língua imposta, mas um processo de acréscimos sucessivos. A obra inicial (*História dos Berberes*) enriquece-se com um volume, depois com uma "nova série de memórias". Esses acréscimos não são apresentados como correções ou revisões, mas como complementos naturais. A memória, neste caso, não é um bloco fixo, mas uma matéria que se acumula, se prolonga, se diversifica. Não é oficial, mas orgânica: cresce com o tempo, adapta-se às necessidades, integra novos elementos sem apagar os anteriores.

## Duas maneiras de fixar o passado

Esses dois fragmentos não falam da memória da mesma forma. O primeiro a apresenta como um enquadramento rígido, uma língua cuja estrutura e etimologia estão consignadas num apêndice. O segundo a mostra como um trabalho em movimento, onde cada acréscimo prolonga a obra inicial sem negá-la.

No entanto, ambos revelam uma mesma preocupação: a memória não é um dado, mas uma construção. Em *Nineteen Eighty-Four*, ela é fixada por uma autoridade que controla seus contornos. Nos *Prolegômenos*, é moldada por um trabalho de escrita que se estende por vários volumes. Em ambos os casos, não é uma simples lembrança, mas uma realidade que se inscreve em formas precisas: uma língua, um livro, uma estrutura.

## O silêncio das fontes

Esses fragmentos nada dizem das intenções que os fundamentam. Não revelam se a memória é um instrumento de dominação ou um meio de transmissão. Não esclarecem se está ameaçada ou protegida. Limitam-se a descrever fatos: uma língua oficial, uma obra que se enriquece.

Contudo, esses silêncios são eloquentes. O Newspeak é mencionado sem comentário, como se sua existência fosse óbvia. Os *Prolegômenos* são descritos como um trabalho em curso, sem juízo sobre seu valor ou utilidade. Esses dois textos não buscam convencer, mas constatar. Não propõem lição alguma, apenas oferecem materiais para pensar.

## O que resta

Se nos ativermos estritamente a esses fragmentos, não podemos afirmar que a memória seja um baluarte ou um alvo. Não podemos dizer que é orgânica ou artificial. Só podemos constatar duas maneiras de abordá-la: como uma língua oficial, ou como uma obra em expansão.

Mas essas duas abordagens revelam uma mesma verdade: a memória nunca é adquirida. Está sempre em jogo, sempre por construir ou reconstruir. Seja imposta por um poder ou moldada por um trabalho de escrita, permanece uma questão central, um ponto de passagem obrigatório para qualquer civilização.

Os sábios não propõem solução. Mostram apenas que a memória, seja língua ou livro, é um espaço onde se desenrolam relações de força invisíveis. Não dizem como preservá-la, mas recordam que ela nunca é neutra.

## Fontes

- George Orwell, *Nineteen Eighty-Four EN avec appendice Newspeak* — 
- Ibn Khaldûn, *Les Prolégomènes (Muqaddima), tome 1* — Notices et extraits, Imprimerie impériale, Paris, 1863, t. 1, trad. William Mac Guckin de Slane


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-08-12-memoire-entre-effacement-transmission/
