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title: "O que não se vende"
sousTitre: "Marx separa o uso concreto de uma coisa do seu preço, que apenas pesa a quantidade; Lao-Tsé volta ao bloco anterior ao talhe. Duas recusas de que a medida tenha a última palavra sobre o que uma coisa é."
description: "Marx: o uso de uma coisa reside no seu corpo, o preço mede apenas a quantidade. Lao-Tsé regressa ao bloco bruto. O que a balança não capta."
date: 2026-06-22
lang: pt
tradition: philosophie-occidentale
auteurs: ["Karl Marx", "Lao-Tsé"]
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# O que não se vende

Uma coisa, antes de ter um preço, tem um corpo. O grão alimenta, o ferro sustenta, o tecido cobre — cada um à sua maneira, pelo que é e que nenhum outro seria em seu lugar. Depois vem a troca, que os coloca na mesma balança e já não pergunta senão uma coisa: quanto? A questão parece anódina. Opera, contudo, um corte — põe de lado tudo o que fazia com que o grão não fosse ferro.

Marx situa essa dualidade no cerne da mais ínfima mercadoria, desde as primeiras páginas d’*O Capital*.

> Como valores de uso, as mercadorias são, antes de tudo, de qualidade diferente; como valores de troca, só podem ser de quantidade diferente.
>
> — **Karl Marx**, *Le Capital, Livre I*, livre primeiro, § I. éd. segundo a tradução francesa de Joseph Roy, Maurice Lachâtre, 1872.

Dois olhares sobre o mesmo objeto. Como valor de uso, uma coisa é o que é concretamente — o grão que se mói, a veste que se veste —, e sua utilidade, sublinha Marx, « não existe sem » o corpo da mercadoria: reside na sua matéria, ligada a ela, sem medida comum com outra. Como valor de troca, já não é mais que uma quantidade: tanto disto vale tanto daquilo. Para que a equivalência seja possível, é preciso primeiro apagar o que as torna incomparáveis: « abstrai-se do valor de uso das mercadorias quando se as troca », e toda relação de troca « é mesmo caracterizada por essa abstração ». A medida não mente; abstrai. Não retém do grão e do ferro senão o que têm em comum — o suficiente para pesá-los um contra o outro, nunca o bastante para dizer o que cada um é.

Resta então, à margem do cálculo, toda uma ordem de coisas úteis que não entram nele.

> Uma coisa pode ser um valor de uso sem ser um valor. Basta para isso que seja útil ao homem sem provir do seu trabalho. Tais são o ar, os prados naturais, um solo virgem, etc.
>
> — **Karl Marx**, *Le Capital, Livre I*, livre primeiro, § I. éd. segundo a tradução francesa de Joseph Roy, Maurice Lachâtre, 1872.

O ar, o prado, o solo que sustenta o grão: úteis sem preço, porque nenhum trabalho neles se cristalizou. Indispensáveis a toda produção, e no entanto invisíveis à medida que a rege. O que sustenta tudo permanece, para a balança, exatamente nada.

## O que é o valor de uso em Marx?

É a utilidade concreta de uma coisa, determinada pelas propriedades do seu corpo: o grão alimenta, a veste cobre. É qualitativa, própria a cada objeto, e só se realiza no uso. Marx opõe-na ao valor de troca, puramente quantitativo, que abstrai dessa utilidade para tornar as coisas comparáveis entre si.

Marx permanece, contudo, aquém de um limiar. Sua querela é com a abstração que apaga o uso, não com o uso em si: defende o corpo da coisa contra o número que o recobre, e toma o útil como o solo firme de onde o preço se desprende. Outra voz, nascida longe dali, não se detém nesse solo.

Lao-Tsé chama *pu* (樸) ao bloco de madeira que ainda não foi talhado — o inteiro anterior ao corte. No vigésimo oitavo capítulo, o sábio a ele regressa:

> regressará à simplicidade perfeita (ao Tao). Quando a simplicidade perfeita (o Tao) se espalhou, formou os seres.
>
> — **Lao-Tsé**, *Tao Te King*, ch. XXVIII. éd. segundo a tradução francesa de Stanislas Julien, Imprimerie royale, 1842 (Wikisource).

*[樸 · 器]* Julien traduz *pu* (樸) por « simplicidade perfeita »: a madeira inteira, não trabalhada. O que sua tradução chama de « os seres », o texto chinês diz *qi* (器), os utensílios — o bloco disperso torna-se uma multidão de objetos separados, cada um bom para um único uso.

Enquanto o bloco se mantém uno, não serve para nada de preciso e contém todas as suas formas possíveis. Talhá-lo em utensílio é fixá-lo num objeto e perder as demais. Onde Marx defende o uso concreto contra o preço que o abstrai, Lao-Tsé recua mais: mesmo o talhe em coisa útil já é uma queda fora do inteiro. Não advoga pelo uso contra a medida; regressa aquém de um e de outra, ao [bloco que ainda não foi dividido](https://viasophia.org/lexique/pu/). Dois gestos distintos, e dois solos sob eles: um salva o corpo singular das coisas do número que as iguala; o outro preserva o todo anterior a que se extraia uma única forma.

E no entanto, sob o desvio, uma mesma intuição persiste. Que a medida iguale — o preço que torna o grão e o ferro comensuráveis — ou que a divisão separe — o bloco repartido em utensílios contáveis —, nem uma nem outra diz o que a coisa é. O grão excede o seu valor, a madeira nodosa excede o uso que dela se faz. O que uma coisa é ultrapassa tanto o que vale na balança quanto o que serve. O real transborda a medida. Duas mãos que afastam o mesmo véu de números — uma para restituir ao objeto o seu corpo, a outra para devolvê-lo ao seu inteiro.

A balança pesa o grão, não o campo que o gerou nem o gesto que o colheu; o preço conta a madeira, não a árvore retorcida que levou cem anos a crescer de través. Algo, sempre, permanece no prato quando o número cai — o que a medida jamais tocou.

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**À lire aussi**

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## Fontes

- Karl Marx, *Le Capital, Livre I* — Maurice Lachâtre, 1872, trad. Joseph Roy (https://fr.wikisource.org/wiki/Le_Capital/Livre_I)
- Lao-Tseu, *Tao Te King* — Imprimerie royale, 1842 (Wikisource), trad. Stanislas Julien (https://fr.wikisource.org/wiki/Tao_Te_King_(Stanislas_Julien))


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-22-ce-qui-ne-se-vend-pas/
