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title: "A coisa sob o nome"
sousTitre: "Marco Aurélio despe as coisas do prestígio que o nome lhes empresta; o deserto torna-se surdo ao louvor como à injúria. Duas maneiras de retirar a palavra para alcançar o que é."
description: "Marco Aurélio: o grande vinho não passa de sumo de uva. O deserto: sê tão surdo ao louvor quanto um morto. Retirar o nome para ver a coisa mesma."
date: 2026-06-17
lang: pt
tradition: stoicisme
auteurs: ["Marco Aurélio", "Padres do Deserto"]
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# A coisa sob o nome

O mesmo vinho não se bebe da mesma forma quando anunciado ou quando servido em silêncio. O nome que o precede — um grande vinho, uma safra excepcional — lança sobre a taça uma espécie de aura, e é essa aura que se prova primeiro, antes do vinho. Entre a coisa e o que dela se diz, há todo um intervalo onde a estima se aloja. Um espírito antigo fez disso uma disciplina: atravessá-lo ao contrário, para descer do nome à coisa.

Marco Aurélio, em seus cadernos, exercita-se a nomear as coisas apenas por sua matéria. « O Falerno é o sumo da uva; esta púrpura é a lã de uma ovelha, tingida com a cor sanguínea de um molusco. » O mais afamado dos vinhos, o tecido do poder: ele os reconduz ao que os compõe, e o prestígio se evapora. Não por desprezo às coisas — mas para vê-las sem o véu que a linguagem estende diante delas.

> Para todas as coisas que nos parecem dignas de nossa atenção e confiança, é preciso despi-las e considerá-las em toda a sua simplicidade e fragilidade, retirando-lhes o prestígio vão com que as envolve tudo o que delas se diz. Esse fausto orgulhoso é um impostor perigoso; e a armadilha é tanto mais temível quanto mais os objetos parecem merecer nossa busca.
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> — **Marco Aurélio**, *Pensamentos para mim mesmo*, livre VI, § 13. éd. segundo a tradução francesa de Jules Barthélemy-Saint-Hilaire, Germer-Baillière, 1876 (Wikisource).

*[le Falerne, la pourpre]* O Falerno era o mais valorizado dos vinhos romanos; a púrpura, extraída com grande esforço do múrice, a cor reservada ao poder. Os exemplos não são aleatórios: são os próprios emblemas do prestígio, desfeitos por sua matéria — sumo de uva, lã tingida com o sangue de um molusco.

A operação é precisa. O nome não mente por completo: ele acrescenta. À lã e ao corante, acrescenta o poder; ao sumo fermentado, a reputação. Esse acréscimo não está na coisa — a natureza desconhece grandes vinhos ou púrpura imperial, apenas uva e molusco; vem de fora, de « tudo o que dela se diz ». Assim, o prestígio é, em sentido próprio, um impostor: faz-se passar por uma qualidade do objeto quando não passa de um depósito de palavras. Esse olhar que o desfaz é o ofício do princípio diretor, o [hegemonikon](https://viasophia.org/lexique/hegemonikon/), a quem cabe julgar as representações em vez de submeter-se a elas. Reconduzir a coisa à sua simplicidade não é rebaixá-la: é deixar de ser enganado.

## O que significa ver a coisa tal como ela é?

Para Marco Aurélio, é descrevê-la apenas por sua matéria, sem o prestígio que lhe acrescenta o que dela se diz: o grande vinho volta a ser sumo de uva, a púrpura, lã tingida. O nome dourado enobrece o objeto; a descrição nua o devolve à sua simplicidade — e o olhar deixa de ser ofuscado por um brilho que não estava na coisa.

O prestígio deposita-se também sobre as pessoas, e então já não se chama fausto, mas reputação. Outro olhar, nascido num mundo bem diverso, exercitou-se contra esse depósito. Nos desertos do Egito, um jovem monge pergunta a um ancião como viver em solidão. A resposta passa por uma encenação: « Vá a um sepulcro e dirija muitas injúrias aos mortos que lá encontrar »; no dia seguinte, « elogie-os e bendiga-os ». Os mortos, claro, não respondem — nem às ofensas, nem aos louvores. « Tome-os como exemplo », diz então o ancião:

> considere que eles não se comoveram nem com suas injúrias nem com seus louvores, e procure morrer como eles, de modo que, por mais maus-tratos que lhe façam, jamais se irrite, e por mais sinais de estima ou louvores que receba, não se encha de vaidade; assim poderá santificar-se.
>
> — **Macário, o Velho**, *Vidas escolhidas dos Padres do Deserto do Oriente*, livre Vida de São Macário, o Velho. éd. segundo a tradução francesa de Arnauld d'Andilly, Ad Mame, 1861 (compilação de Michel-Ange Marin).

O monge não se empenha em conquistar a estima nem em fugir da injúria: exercita-se a tornar-se, diante de uma e de outra, tão imperturbável quanto um morto. Pois o louvor e a ofensa nada dizem do que ele é; dizem apenas o que dele se diz. A [vã glória](https://viasophia.org/lexique/vaine-gloire/) — a tradição grega a chama de *kenodoxia*, « glória vazia » — é justamente o apetite por esse depósito de palavras sobre si: nutrir-se do olhar alheio como se o nome que ele atribui valesse a realidade que encobre.

Os dois olhares, porém, não fazem o mesmo gesto. Marco Aurélio despe o objeto cobiçado: reconduz o vinho, a púrpura, à sua matéria, e é a coisa, nomeada com verdade, que perde seu brilho enganador. O deserto despe o sujeito louvado: torna o homem surdo ao que dele se diz, e é o eu que deixa de inchar-se com um nome. Um desfaz o prestígio das coisas para não mais desejá-las falsamente; o outro desfaz o prestígio de si para não mais nele se mirar. E o solo difere sob ambos: para o romano, é a natureza, que ignora hierarquias e só conhece uva e lã; para o monge, é outro olhar, o de Deus, diante do qual a voz dos homens não pesa. Reduzir à matéria não é entregar-se a Deus: não são dois nomes de uma mesma ascese.

E no entanto, sob o gesto dividido, uma mesma intuição persiste. De parte a parte, o que se diz de uma coisa não é a coisa; o nome é um acréscimo vindo de fora — um prestígio que o vinho não carrega, uma glória que os mortos não sentem. Permanecer nesse acréscimo é cobiçar um brilho que não existe, ou inchar-se com uma palavra que o primeiro silêncio desmente. Desvencilhar-se dele é, dos dois lados, voltar ao que é quando se retira o que dele se diz: a uva sob o grande vinho, o homem sob sua reputação. Duas mãos que erguem a mesma douradura — uma sobre as coisas que se perseguem, outra sobre o rosto que se mostra.

Resta, diante do que nos atrai ou nos fere, uma prova simples: retirar o nome e olhar o que ainda permanece. O que se esvai com a palavra não passava dela; o que permanece, quando ela se cala, era a coisa.

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**À lire aussi**

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## Fontes

- Marc Aurèle, *Pensées pour moi-même* — Germer-Baillière, 1876 (Wikisource), trad. Jules Barthélemy-Saint-Hilaire (https://fr.wikisource.org/wiki/Pens%C3%A9es_pour_moi-m%C3%AAme/Livre_VI)
- Macaire l'Ancien (Pères du désert), *Vies choisies des Pères des déserts d'Orient* — Ad Mame, 1861 (compilation de Michel-Ange Marin), trad. Arnauld d'Andilly (https://fr.wikisource.org/wiki/Vies_choisies_des_P%C3%A8res_des_d%C3%A9serts_d%27Orient)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-17-la-chose-sous-le-nom/
