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title: "Todo ser vivo treme"
sousTitre: "O Dhammapada não mata porque reconhece no outro o mesmo medo; Lao-Tsé não se regozija com a vitória porque matar é luto. Dois solos para uma mesma contenção."
description: "Dhammapada: todo ser treme diante da violência, que não se mate. Lao-Tsé: as armas são instrumentos de infortúnio. Duas vias, um mesmo coração que não exulta por ter ferido."
date: 2026-06-15
lang: pt
tradition: bouddhisme
auteurs: ["Buda (atrib.)", "Lao-Tsé"]
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# Todo ser vivo treme

O pássaro pequeno que bicava o chão não precisou aprender o medo: basta uma sombra passar por cima dele para que se imobilize e fuja. Antes de qualquer pensamento, o ser vivo sabe o que o ameaça e quer durar. É desse tremor — não de uma lei caída do alto — que um texto antigo faz o próprio solo da contenção.

> Todos tremem diante da violência, todos tremem diante da morte. Faça-se ao outro o que se desejaria para si; não se mate; não se faça matar. Todos tremem diante da violência, para todos a vida é cara.
>
> — **trad. atribuída a Buda**, *Dhammapada*, livre X — A Violência, § 129-130. éd. segundo a tradução francesa de Fernand Hû, Ernest Leroux, 1878 (Wikisource).

O versículo não ordena primeiro; faz primeiro olhar. Antes da proibição — « não se mate » —, ele constata um fato que cada um carrega no próprio corpo: aquele calafrio diante do que fere, aquele apego à vida que não se racionaliza. E extrai daí a contenção pelo caminho mais curto: o que treme em mim também treme diante de mim. A regra não desce de uma autoridade; ela sobe da carne comum.

*[attānaṃ upamaṃ]* Onde Hû traduz a regra de ouro — « o que se desejaria que o outro fizesse » —, o páli traz *attānaṃ upamaṃ katvā*: « tendo feito de si mesmo a medida ». Não uma ordem recebida de fora, mas o gesto de reconhecer no outro o mesmo frêmito que em si.

Dois detalhes apertam ainda mais a fórmula. A proibição não diz apenas « não mates », mas também « não se faça matar »: a mão que ordena, que delega, que desvia o olhar enquanto outro golpeia, não está limpa por ter mantido os dedos imaculados. E a medida não se detém no semelhante: um pouco adiante, o mesmo capítulo louva aquele que vive « sem fazer mal a nenhum ser » — *nenhum*, sem a fronteira que costumamos traçar entre as vidas que contam e as que não contamos.

## O que é ahiṃsā?

A [ahiṃsā](https://viasophia.org/lexique/ahimsa/) é a não-violência: abster-se de ferir ou matar tudo o que vive. A palavra sânscrita une o privativo *a-* a *hiṃsā*, « o ato de causar dano ». Não é uma simples passividade nem uma lei imposta, mas uma contenção que nasce de um reconhecimento: o outro teme o sofrimento e ama a vida exatamente como eu.

Essa via tem seu avesso, que o Dhammapada enuncia sem rodeios: aquele cuja violência maltrata os seres, « por mais que deseje a felicidade para si mesmo, não a desfruta após a morte ». Ferir o vivo é barrar a si mesmo a felicidade que se buscava. A contenção, portanto, não é um sacrifício feito a contragosto: é a própria condição daquela felicidade que a violência julga conquistar e só faz perder.

Sob outro céu, numa língua que não fala de renascimento nem de felicidade póstuma, um sábio sustenta uma contenção próxima — mas chega a ela por uma porta bem diferente. Lao-Tsé não parte do tremor alheio. Não olha ninguém de frente; olha a ordem do mundo e vê que as armas pertencem ao lado da morte.

> As armas mais excelentes são instrumentos de infortúnio. […] Só se recorre a elas quando não há como evitá-lo, e coloca-se em primeiro lugar a calma e o repouso. Se triunfa, não se regozija. Regozijar-se é amar matar os homens.
>
> — **Lao-Tsé**, *Tao Te King*, ch. XXXI. éd. segundo a tradução francesa de Stanislas Julien, Imprimerie royale, 1842 (Wikisource).

Aqui não há compaixão que se identifique com a vítima. O *Tao Te King* não diz « o inimigo treme como tu »; diz que a arma, ainda que « a mais excelente », permanece « um instrumento de infortúnio », e que aquele que possui o caminho « não se apega a ela ». Quando a guerra se impõe, o sábio a conduz colocando em primeiro plano [a calma e o repouso](https://viasophia.org/lexique/wu-wei/) — não-agir até mesmo na ação, só travar batalha no limite do inevitável. E a própria vitória não se celebra: « quem matou uma multidão de homens deve chorá-los com lágrimas e soluços »; o vencedor, acrescenta o texto, é colocado « segundo os ritos fúnebres ». O massacre, mesmo vencido, continua sendo luto.

As duas vias não se confundem. O Dhammapada vai de dentro para fora: tomo a mim mesmo como medida e, no outro, reconheço o meu próprio medo — é a compaixão que detém a mão. Lao-Tsé vai da ordem do mundo ao gesto: matar pertence ao princípio sombrio, cerca-se dos ritos do luto mesmo quando se vence — é a gravidade do mundo, não a identificação com a vítima, que retém. Um mede pelo temor alheio; o outro, pelo lugar que toda morte ocupa no equilíbrio das coisas. Reconhecer ≠ deplorar.

E, no entanto, no ponto mais alto, ambos recusam uma única e mesma coisa: que matar se torne leve, corriqueiro, alegre. O critério, no cume, não é a proibição — ambos retêm a mão —, mas a disposição do coração. Para o Dhammapada, quem fere « não desfruta » da felicidade que buscava. Para Lao-Tsé, regozijar-se com a vitória « é amar matar os homens », e quem ama matar « não pode governar o império ». Dos dois lados, é a exultação diante do sangue derramado que marca a perda — o ponto em que algo essencial se apaga. A compaixão que sente o outro tremer e o luto que chora até o vencido são duas sentinelas distintas postadas diante da mesma porta: aquela por onde a morte deixaria de ser grave.

Resta o que nem a compaixão nem o luto decidem por nós. Quando algo treme sob nosso poder — um animal, um ser sem voz, aquilo de que dispomos sem que possa nos dizer nada —, ainda o sentimos tremer? Ou aprendemos a não ver mais do que o uso que dele tiraremos?

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**À lire aussi**

- [La racine avide](https://viasophia.org/articles/2026-06-10-deraciner-ou-comprendre/)
- [Les vigilants ne meurent pas](https://viasophia.org/articles/2026-06-03-vigilance-et-negligence/)
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## Fontes

- trad. attribuée à Bouddha, *Dhammapada* — Ernest Leroux, 1878 (Wikisource), trad. Fernand Hû (https://fr.wikisource.org/wiki/Dhammapada)
- Lao-Tseu, *Tao Te King* — Imprimerie royale, 1842 (Wikisource), trad. Stanislas Julien (https://fr.wikisource.org/wiki/Tao_Te_King)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-15-tout-vivant-tremble/
