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title: "O que está tecido em conjunto"
sousTitre: "Edgar Morin propõe religar o que o conhecimento separou; Marco Aurélio convida a contemplar um entrelaçamento já sagrado. Recoser, ou recordar — dois gestos rumo ao mesmo tecido."
description: "Morin denomina *reliance* o trabalho de religar o que o pensamento apartou; Marco Aurélio contempla o entrelaçamento sagrado de todas as coisas. Dois gestos, um mesmo olhar."
date: 2026-06-10
lang: pt
tradition: philosophie-occidentale
auteurs: ["Edgar Morin", "Marco Aurélio"]
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# O que está tecido em conjunto

Um relógio desmontado deixa-se remontar: engrenagem por engrenagem, nada se perdeu na desmontagem. Um pássaro dissecado não se recose — o que fazia o pássaro não residia em nenhuma de suas peças. Entre essas duas desmontagens passa uma fronteira que o conhecimento atravessa frequentemente sem a ver: há o que se compreende em peças soltas, e há o que morre de ser destacado. Foi para o segundo que o pensamento carecia de uma palavra. Edgar Morin pôs uma em circulação, tomada de empréstimo à sociologia: a [reliance](https://viasophia.org/lexique/reliance/).

> A reforma do conhecimento exige uma reforma do pensamento. A reforma do pensamento exige um pensamento da *reliance* capaz de religar os conhecimentos entre si, religar as partes ao todo, o todo às partes, e que possa conceber a relação do global com o local, a do local com o global.
>
> — **Edgar Morin**, *La Voie*, livre La crise de la connaissance. éd. segundo a tradução francesa de Edgar Morin, Fayard, 2011.

## O que Edgar Morin entende por *reliance*?

A palavra diz seu gesto: *re-ligar*. Não se trata de acumular mais saberes, mas de reunir o que o próprio modo de conhecer separou — a disciplina apartada de suas vizinhas, o fato destacado de seu contexto, a parte separada do todo que lhe dá sentido. Morin denomina *disjunção* esse viés do conhecimento que isola para melhor dominar: cada fragmento ganha em precisão o que o conjunto perde em vida. A *reliance* não é um estado de espírito, nem a nostalgia de uma totalidade perdida; é um trabalho, no sentido em que se fala do trabalho da agulha. E tem um avesso que ele recusa com a mesma clareza: a fusão. Só se religa o que permanece dois — confundir não é religar, é perder os dois fios num só.

Por trás desse trabalho está a palavra-chave de toda a sua obra. *[complexus]* Latim *complexus*, de *plectere*, « trançar, entrelaçar »: o que está abraçado numa mesma trança. A [complexidade](https://viasophia.org/lexique/complexite/) não é a complicação — o relógio é complicado, o pássaro é complexo. « A sociedade é um «*complexus*» no sentido da palavra latina *complexus*, que significa « o que está tecido em conjunto » », escreve no mesmo livro. O real que a *reliance* visa não é, portanto, um empilhamento a inventariar: é um tecido. Quem o pensa fio a fio ainda não viu nada do tecido.

Dezoito séculos antes, um homem escreve em grego, para si mesmo, à noite, num acampamento às margens do Danúbio. Ele não tem tecido para recoser: encontra-o já costurado.

> Todas as coisas estão entrelaçadas umas às outras; seu encadeamento mútuo é sagrado; e não há, por assim dizer, nada que esteja isolado de toda relação com outro objeto. As coisas estão todas coordenadas; e contribuem para a boa ordem do mesmo mundo.
>
> — **Marco Aurélio**, *Pensamentos para mim mesmo*, livre VII. éd. segundo a tradução francesa de Jules Barthélemy-Saint-Hilaire, Germer-Baillière, 1876.

Sob sua pena, o entrelaçamento não é um programa: é um fato, e um fato *sagrado*. O mundo é uno; nada nele flutua sem vínculo. Assim, o exercício que propõe a si mesmo não é reparar esse tecido, mas não perdê-lo de vista: « Aplica-te a refletir frequentemente sobre o estreito encadeamento de todas as coisas deste mundo e sobre sua correlação » (VI.38). Ousa até essa palavra inesperada: as coisas « têm entre si uma espécie de intimidade ». A meditação estoica é aqui um lembrete — um olhar que se regenera a cada dia, da mesma forma como pratica o [retiro interior](https://viasophia.org/articles/2026-06-02-retraite-interieure-marc-aurele/): não para fugir do mundo, mas para revê-lo inteiro.

Os dois gestos não se confundem. Em Marco Aurélio, o vínculo é primeiro e garantido: a sequência do mesmo trecho prossegue — Deus é um, a substância é una, a lei é una. Nada pode desfazer essa trama; apenas nossa atenção pode falhar em percebê-la. A separação nunca é uma ferida do mundo, é uma distração do olhar. Daí um gesto de memória: recordar, contemplar, consentir. Em Morin, nenhuma providência sustenta o tecido. A disjunção não é uma ilusão de óptica: é um estado real do saber, produzido por nosso próprio modo de conhecer — e, uma vez que foi pensando que desfizemos o tecido, cabe ao pensamento refazê-lo. Daí um gesto de oficina: reformar, recoser, sem garantia de que a obra se sustente, e sem que jamais esteja concluída. Um contempla um tecido que nada rasgou; o outro recose um rasgo que nossa própria mão fez.

E, no entanto, no cume, os dois olhares veem a mesma coisa — e esse cume é preciso. Para o imperador como para o sociólogo, *a coisa isolada não existe*: « não há, por assim dizer, nada que esteja isolado », escreve um; nada se compreende em peças soltas, responde o outro. O que cada um propõe, por caminhos que não se encontram no percurso — a lembrança de uma ordem dada, a reforma de um saber desfeito —, é uma mesma realização: um olhar para o qual o isolamento não é um estado do mundo, mas um artefato, da desatenção em um, do método no outro. Os cumes guardam sua diferença: a unidade de Marco Aurélio é cósmica e assegurada, a de Morin permanece uma tarefa frágil em nossas mãos. Mas quem olha de um ou outro lado vê a mesma paisagem: nenhuma ilha, fios por toda parte.

Resta um ensaio ao alcance de cada um, que não exige sistema nem doutrina: tomar algo que se considera separado — um saber, um ser, um mal que se crê local — e buscar seus fios. Não: a que deveria estar ligado? Mas: de que entrelaçamento deixei de acompanhar?.

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**À lire aussi**

- [La retraite intérieure](https://viasophia.org/articles/2026-06-02-retraite-interieure-marc-aurele/)
- [Le moyeu vide](https://viasophia.org/articles/2026-06-03-le-moyeu-vide/)
- [La joie est un passage](https://viasophia.org/articles/2026-06-04-spinoza-joie-puissance/)

## Fontes

- Edgar Morin, *La Voie. Pour l’avenir de l’humanité* — Fayard, 2011
- Marc Aurèle, *Pensées pour moi-même* — Germer-Baillière, 1876 (trad. Barthélemy-Saint-Hilaire), trad. Jules Barthélemy-Saint-Hilaire (https://fr.wikisource.org/wiki/Pens%C3%A9es_pour_moi-m%C3%AAme)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-10-relier-ce-qui-est-tisse/
