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title: "A raiz ávida"
sousTitre: "O Dhammapada arranca a cobiça como se arranca uma trepadeira; Spinoza considera o desejo a própria essência do homem. Arrancar, ou compreender — dois caminhos para deixar de ser arrastado."
description: "O Dhammapada extirpa a cobiça; Spinoza toma o desejo como essência do homem. Dois gestos opostos, uma mesma servidão a desfazer: deixar de ser arrastado."
date: 2026-06-10
lang: pt
tradition: bouddhisme
auteurs: ["Buda (atrib.)", "Baruch Spinoza"]
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# A raiz ávida

Chova de ouro pode ser, mas não mata a sede. O Dhammapada faz desse fato um diagnóstico sem pathos: « Uma chuva de ouro não saciaria sequer a sede dos prazeres. » O que se enche não se completa; o que se alimenta cresce. Todo um capítulo — o vigésimo quarto na tradução de Fernand Hû — trata dessa dinâmica, que nunca chama de « sede », mas *a cobiça*, e que descreve de ponta a ponta com uma única imagem: uma planta que se alastra.

> Assim como, enquanto sua raiz permanece intacta, uma árvore cheia de seiva renasce, embora cortada, sempre de novo, da mesma forma, enquanto não for extirpada a tendência à cobiça, volta sempre de novo essa causa de sofrimento.
>
> — **Buda (atrib.)**, *Dhammapada*, livre XXIV, § 338. éd. segundo a tradução francesa de Fernand Hû, Ernest Leroux, 1878.

A imagem decide tudo. A [cobiça](https://viasophia.org/lexique/tanha/) « alastra-se como uma trepadeira »; leva o homem a « vaguear de um lado para outro, semelhante ao macaco que corre na floresta atrás de um fruto ». Sobretudo, ela tem uma raiz. Pode-se cortar a árvore — renunciar a este ou àquele objeto, fugir desta ou daquela tentação —: enquanto a raiz se mantiver, ela renasce. É por isso que o texto não propõe podar, mas arrancar: « Assim que virem brotar essa trepadeira, extirpem-na com o auxílio da Ciência Perfeita. »

## O que se chama de cobiça, no Dhammapada?

Não este ou aquele objeto desejado, mas a própria dinâmica do apego — esse fluxo « que eles mesmos geraram, como a aranha tece sua própria teia ». O termo páli é *taṇhā*, a sede: não se aplaca bebendo, extingue-se secando a fonte. O caminho proposto leva o gesto até o fim — não corrigir um erro, mas extirpar uma raiz, para que, ao final, nenhuma sede reste. Então « o sofrimento se desprende dele pouco a pouco, como gotas de água que caem de uma folha de lótus ».

Um filósofo de Amsterdã propõe um caminho inteiramente diverso — a ponto de recusar o primeiro gesto. Para Spinoza, o desejo não é uma erva daninha que cresce no homem: é o próprio homem.

> O Desejo é a própria essência do homem, enquanto concebida como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer dada nela.
>
> — **Baruch Spinoza**, *Ética*, livre III, § Definição I das afecções. éd. segundo a tradução francesa de Charles Appuhn, Wikisource, 1913.

O desejo, aqui, não é um acidente de que se cura: é o apetite « com consciência de si », o impulso pelo qual todo ser se esforça por perseverar. *[conatus]* Por trás do desejo, Spinoza coloca o *conatus*: o esforço pelo qual cada coisa « se esforça por perseverar em seu ser ». Relacionado à alma e ao corpo, esse esforço chama-se apetite; consciente de si, desejo. Spinoza chega a inverter a ordem que julgamos natural: « não nos esforçamos por nada, não queremos, não apetecemos nem desejamos coisa alguma porque a julgamos boa; mas, ao contrário, julgamos que uma coisa é boa porque nos esforçamos por ela. » O desejo não segue nossa avaliação do bem; ele a precede e a fundamenta. Arrancar essa raiz seria derrubar a árvore inteira — pois a árvore, desta vez, somos nós.

Os dois gestos não se encontram no caminho. O Dhammapada propõe extinguir, Spinoza compreender. Um toma a cobiça por uma raiz estranha, a ser arrancada até que nada mais brote; o outro toma o [desejo](https://viasophia.org/lexique/cupiditas/) pela própria seiva, que não se corta sem se perder. Onde o primeiro visa uma cessação, o segundo não conhece fim para o desejo — apenas uma mudança de sua fonte. Pois o que escraviza, para Spinoza, não é o desejo em si, mas o desejo *passivo*: aquele que nasce de ideias inadequadas e é arrastado por causas externas, de modo que « o homem é puxado em várias direções e não sabe para onde se voltar ». A esse, opõe o desejo nascido da Razão, que flui unicamente de nosso [poder de compreender](https://viasophia.org/articles/2026-06-04-spinoza-joie-puissance/), e do qual diz esta coisa surpreendente: ele « não pode ter excesso ».

E, no entanto, os dois textos nomeiam a mesma servidão. Observemos o homem que cada um descreve. O Dhammapada: o cobiçoso « corre de um lado para outro, como uma lebre perseguida ». Spinoza: « o homem é puxado em várias direções e não sabe para onde se voltar ». O mesmo corpo arrastado para todos os lados, a mesma corrida sem descanso — não por excesso de desejo, mas porque o desejo vem de um fora que não se vê: uma avidez alimentada pela ignorância, afecções nascidas do que se sofre. As duas sabedorias prometem pôr fim a essa corrida. Não escalam o mesmo cume — a cessação de toda sede não é a beatitude ativa daquele que compreende —, mas libertam da mesma escravidão: deixar de ser *movido* pelo que não se discerne. Uma seca a fonte para que nada cresça; a outra a ilumina para que o desejo nasça de si e não da caça. Arrancar, ou compreender: duas mãos opostas sobre a mesma corda, para que se deixe de ser arrastado.

Resta uma questão que nem o arrancar nem o compreender resolvem de antemão, e que se coloca a cada um no segredo do que o põe em marcha: essa sede que me levanta pela manhã, é a mim que ela carrega, ou a mim que ela persegue?

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**À lire aussi**

- [La joie est un passage](https://viasophia.org/articles/2026-06-04-spinoza-joie-puissance/)
- [Rien en propre](https://viasophia.org/articles/2026-06-09-rien-en-propre/)
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## Fontes

- trad. attribuée à Bouddha, *Dhammapada* — Ernest Leroux, 1878 (Bibliothèque orientale elzévirienne, XXI), trad. Fernand Hû (https://fr.wikisource.org/wiki/Dhammapada)
- Baruch Spinoza, *Éthique* — Wikisource (trad. Charles Appuhn, 1913), trad. Charles Appuhn (https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%89thique_(Spinoza))


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-10-deraciner-ou-comprendre/
