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title: "O demónio de três pontas"
sousTitre: "Entre os Padres do deserto, a vaidade é o único vício que se alimenta das vitórias alcançadas sobre todos os outros — inclusive do desprezo que lhe opomos."
description: "João Clímaco descreve a vaidade como um ferro que cai sempre com a ponta para cima: parasita até a renúncia à glória."
date: 2026-06-05
lang: pt
tradition: mystique-chretienne
auteurs: ["João Clímaco", "Lao-Tsé"]
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# O demónio de três pontas

Sozinho em sua cela no monte Sinai, um velho monge está prestes a abandonar tudo. O relato é dele. O desânimo o corrói, o tédio da solidão, o desejo de voltar ao mundo. Chegam visitantes. Elogiam em voz alta a felicidade de uma vida tão retirada, tão cheia de Deus. E, de súbito, o humor sombrio se dissipa — não por consolo, mas porque outra paixão acaba de ocupar o lugar deixado vazio.

> Estava, diz ele, sentado um dia em minha cela, e sentia um tão grande desânimo no coração que quase pensava em deixá-la. Alguns estranhos surgiram nessa ocasião e começaram a exaltar tão alto a felicidade que eu tinha de viver assim na solidão, que esses pensamentos de tédio e desânimo foram logo afastados pelo da vaidade. Admirei como o demónio da vanglória, semelhante ao ferro de três pontas que sempre tem uma ponta para cima, faz guerra a todos os outros demónios.
>
> — **Jean Climaque**, *Vies choisies des Pères des déserts d'Orient*, livre Vidas escolhidas dos Padres do deserto do Oriente. éd. segundo a tradução francesa de M.-A. Marin, Ad Mame et Cie, 1861.

João Clímaco, que relata a cena em sua *Escada do Paraíso*, não se espanta por ter sido lisonjeado. Espanta-se com o mecanismo. A tristeza não foi vencida: foi substituída. Um vício expulsa outro, e o monge se vê mais longe da paz do que antes da visita, sem o ter percebido, porque o recém-chegado se apresentava sob a aparência de alívio.

*[κενοδοξία]* O grego nomeia esse vício *kenodoxia*, literalmente « glória vazia ». Evágrio do Ponto o inclui entre os oito pensamentos (*logismoi*) que assediam o solitário; sua singularidade é crescer sobre as próprias virtudes que se opõem aos demais.

A imagem é exata a ponto de inquietar. O ferro de três pontas é uma estrepe: um ardil de ferro que se espalhava sob os passos dos cavalos e que, de qualquer maneira que caísse, erguia sempre uma ponta para cima. Tal é, para Clímaco, o demónio da vaidade. Julga-se tê-lo abatido de um lado, e ele se levanta de outro. Jejuais: ele admira vosso jejum. Chorais vossos erros: ele elogia vossa contrição. Fogeis do louvor: ele vos felicita por fugir. Nenhuma queda o deita por completo, pois cada uma lhe oferece nova oportunidade.

## O que é a vaidade entre os Padres do deserto?

Não é o orgulho comum, que se basta a si mesmo. É o apetite pelo olhar alheio — a necessidade de ser visto, estimado, narrado. Sua perversidade reside num ponto: as outras paixões visam um objeto do mundo, um alimento, um corpo, uma vingança; a vaidade, porém, não tem objeto próprio. Gruda-se a tudo, e de preferência ao bem. Quanto mais se renuncia, mais há de que se vangloriar por ter renunciado. Por isso ela « faz guerra a todos os outros demónios »: prospera com as derrotas deles. O solitário que tudo dominou descobre que ainda lhe resta vencer a satisfação de ter dominado — e que essa vitória, mal conquistada, logo fornece sua própria matéria à vaidade.

Clímaco extrai daí uma disciplina paradoxal: opõe, diz seu biógrafo, *o retiro e o silêncio à vaidade*. Esconde-se numa gruta para chorar fora do alcance de ouvidos, com medo de que seus gemidos atraiam elogios. A [vigilância](https://viasophia.org/articles/2026-06-03-vigilance-et-negligence/) do monge nunca repousa, pois o inimigo, aqui, esconde-se no próprio sentinela.

Outra tradição aborda a mesma constatação pelo avesso. Lao-Tsé não vê demónio a combater.

> Não se põe em evidência, por isso brilha. Não se aprova, por isso se destaca. Não se vangloria, por isso tem mérito. Não se gloria, por isso é superior aos outros.
>
> — **Lao-Tsé**, *Tao Te King*, livre Tao Te Ching, ch. XXII. éd. segundo a tradução francesa de Stanislas Julien, Wikisource, 1842.

A fórmula parece gêmea da do deserto, mas não o é. Para Clímaco, o apagamento é uma estratégia de guerra: esconde-se porque um inimigo espreita, e o combate não termina nunca, pois o ferro cai sempre com a ponta para cima. Para Lao-Tsé, não há inimigo. O santo não se põe em evidência, e o brilho vem por si, como efeito sem esforço — não porque venceu o desejo de brilhar, mas porque já não o carrega. O comentador de Julien o diz claramente: « o homem santo não disputa, porque está livre do eu. » Onde o monge defende um *eu* sitiado, o taoísta dissolveu a frente: não tem *eu* a alimentar, logo nada a que a glória possa se agarrar. Um mantém a linha; o outro a fez desaparecer.

O ponto em que ambos se encontram é mais estreito do que parece, mas é firme: querer ser visto corrompe o que se é. Sobre essa única palavra, o Sinai e a China concordam — e é essa palavra que nossa época metodicamente inverteu.

Pois industrializamos o olhar alheio. Exige-se de nós que « construamos uma marca pessoal », que documentemos nossa solidão, que encenemos até nossos retiros. A economia da atenção é, estruturalmente, uma cultura da *kenodoxia*: converte a estima em número e o número em renda. E a armadilha mais atual é precisamente aquela que Clímaco nomeara: a renúncia à glória torna-se ela mesma uma glória. A humildade exibida, a ostentação da discrição, o relato público do afastamento do mundo — o ferro cai sempre com a ponta para cima. O monge do Sinai se enfiava numa gruta para chorar sem ser ouvido. Nós filmamos a gruta.

A imagem da estrepe é mais sombria do que uma moral. Diz que nenhuma vitória sobre a vaidade é definitiva, pois a própria vitória se torna a próxima coisa de que se orgulhar. Não existe posição de onde se tenha finalmente escapado ao olhar. Ao monge, restava a gruta onde ninguém podia ouvi-lo — e mesmo isso, sabia ele, o demónio poderia voltar a seu favor.

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**À lire aussi**

- [Les vigilants ne meurent pas](https://viasophia.org/articles/2026-06-03-vigilance-et-negligence/)
- [Le moyeu vide](https://viasophia.org/articles/2026-06-03-le-moyeu-vide/)
- [La retraite intérieure](https://viasophia.org/articles/2026-06-02-retraite-interieure-marc-aurele/)

## Fontes

- Jean Climaque, *Vies choisies des Pères des déserts d'Orient* — Ad Mame et Cie, 1861 (compilation du R. P. Michel-Ange Marin) (https://fr.wikisource.org/wiki/Livre:Marin_-_Vies_choisies_des_P%C3%A8res_des_d%C3%A9serts_d%27Orient,_1861.djvu)
- Lao-Tseu, *Tao Te King* — Wikisource (trad. Stanislas Julien, 1842), trad. Stanislas Julien (https://fr.wikisource.org/wiki/Tao_Te_King_(Stanislas_Julien)/Chapitre_22)


Fonte canônica : https://viasophia.org/pt/articles/2026-06-05-vaine-gloire-trois-pointes/
